Paulo Cézar Caju e os hábitos da velha imprensa

“Eu gostaria de treinar. Gostaria de treinar agora”. Mas como, se já é quase noite? Cadê aquele jogador indisciplinado, pouco cumpridor dos deveres? Cadê o crioulinho rebelde? (Marcelo Rezende, para a Placar nº531, de julho de 1980, p.40, sobre Paulo Cézar Caju)

Não é nenhuma patrulha com o que Marcelo Rezende falou ou deixou de falar, nem se foi com cunho racista ou não. Desarme-se desse viés e entenda o contexto, antes de mais nada. É apenas uma observação de como as coisas costumavam ser na imprensa esportiva nos anos 1980.

Paulo Cezar Caju, notório rebelde do futebol brasileiro, se apresentava ao Vasco em junho daquele ano e foi retratado por uma reportagem da Placar, que falou sobre a expectativa em torno da sua contratação. Na matéria, assinada por Marcelo Rezende (raciocina comigo!), algumas nuances da carreira de PC foram analisadas.

Como se comportaria um típico boleiro em nova fase no Vasco? Por que ele chegou ao clube obcecado em recuperar a forma e se dedicando como um verdadeiro profissional? Aos 31 anos, o atleta poderia se readaptar e ser um grande craque como foi na década anterior, sem os famosos problemas comportamentais? Muitas perguntas ficaram em aberto na matéria de Rezende.

Paulo Cézar tinha um objetivo claro: ter boas atuações para voltar a fazer parte do time do Brasil. Ele não conseguiu fazer isso, mas teve sua importância no trecho final de sua carreira. Em 1983, ano de sua aposentadoria, conquistou o Mundial Interclubes pelo Grêmio.

Uma coletiva polêmica e esquecida

Jairzinho, Trèsor e Caju, nos tempos de Olympique de Marseille (Foto: Terceiro Tempo)
Jairzinho, Trèsor e Caju, nos tempos de Olympique de Marseille (Foto: Terceiro Tempo)

Logo que deu suas primeiras palavras como jogador do Vasco, PC afirmou que gostaria de treinar e voltar às atividades, em coletiva realizada em São Januário. Rezende lembra logo ao leitor que nem sempre foi assim na carreira do atleta, problemático e pouco ligado às ordens da comissão técnica. O questionamento segue até que o repórter usa o termo ‘crioulinho rebelde’, imagem que PC teria supostamente afastado ao demonstrar interesse na preparação física.

O caráter questionador e de vanguarda que a Placar ostentava desde os anos 1970 provavelmente serviu de impulso para que Rezende se despreocupasse com o ‘politicamente correto’. Oras, mas estávamos em 1980, esse termo provavelmente nem existia entre as páginas dos jornais e revistas. Falava-se tudo e mais um pouco, sem pudor ou papas na língua. Isso, claro, antes da época da responsabilidade jurídica.

Adiante no texto, Marcelo comenta que o atleta passou alguns meses ociosos na França, em boates e peladas com conhecidos locais. E tome mais controvérsia:

Paulo Cézar agora vai treinar, perder a barriguinha que trouxe depois de dois meses e meio passeando pela França, onde disputou apenas seis peladas com os amigos — entre os quais, o negro Trèsor, melhor zagueiro francês da atualidade- e badalou muito no ‘Le 78’, a boate do brasileiro Ricardo Amaral em Paris.

Pera lá, no que a cor de Trèsor é agravante neste caso? Seria uma raridade um negro ser de ponta na posição, na época? E por que o ‘negro’ como prefixo serviria para alguma forma de descrição? Algum jogador já foi pior ou melhor por ser negro ou branco? Difícil entender. Empolgado, o autor deve ter pensado em tomar cuidado demais com questões raciais e falado uma bobagem, no afã de se mostrar como uma pessoa esclarecida. Falhou, evidentemente.

Para terminar a hoje controversa matéria, Rezende observa:

Paulo Cézar que, como ele mesmo diz, jamais foi um “neguinho sim sinhô”, e hoje, muito menos ainda, é um “neguinho tá legal seu dotô”. É ainda, ele diz, um rebelde que só controlou a sua teimosia-rebeldia numa coisa: aceitar a ponta-esquerda. (????????????????????????)

Vamos imaginar que alguém faça uma matéria dessa em 2015. Pensem no tamanho da saia-justa que Rezende passaria com ONGs e grupos defensores de minorias.

É importante afirmar que Rezende provavelmente se reeducou e conscientizou anos depois dessa matéria. Que provavelmente escreveria de outro jeito se tivesse a chance, 35 anos depois. Curioso também pensar que hoje em dia o mundo é muito chato e a gente nem pode mais ser racista em paz, sem que pessoas venham nos amolar. A reportagem da Placar é apenas uma de muitas que abusavam da livre imprensa para perpetuar velhos e sensíveis problemas da sociedade brasileira. Não é preciso procurar muito para encontrar outros exemplos.

Em dias em que se questiona muito o que as pessoas disseram em épocas anteriores, apontando incoerências ou mudanças radicais de pensamento, é bom e saudável concluir que sim, nós evoluímos e abandonamos essa bobeira de descrever as pessoas pela cor da pele. O mundo pode até estar chato para essa gente, mas para quem faz questão de se adaptar aos novos tempos e estudar sobre preconceitos, até que progredimos de forma considerável.

Em tempo, aqui está a reprodução da matéria completa. Tire suas conclusões:

Foto: Reprodução/Acervo Placar
Foto: Reprodução/Acervo Placar

3 pensamentos em “Paulo Cézar Caju e os hábitos da velha imprensa”

  1. O termo “crioulo” era bastante usado até os anos 1970, talvez 1980. Isso era culturalmente aceito — que não torna justificável, é claro, e nem é esta minha intenção. Pelé era constantemente chamado assim por outros jogadores, e isso aparecia bastante em entrevistas (uma busca por “crioulo placar” no Google Livros traz 191 resultados, a esmagadora maioria de 1987 para trás). Ou seja, esse preconceito não era exclusivo do Marcelo Rezende nem da Placar, mas algo quase inerente à sociedade, por mais que seja constrangedor observar isso. Meio que como os trechos racistas das histórias de Monteiro Lobato, que refletiam o preconceito da época em que ele viveu.

    Agora, ignorando esse termo, na mosca o questionamento do trecho falando de Trésor. Acho que, mesmo para os tempos “politicamente incorretos” de outrora, fica completamente despropositado. Talvez zagueiros negros fossem raridade na França naquele tempo. Sinceramente, não sei, embora aposte que não, pois a geração que brilhou nas Copas do Mundo de 1982 e 1986 já tinha vários negros. Ainda assim, se a questão mais geral não foi abordada na matéria, soa muito estranho, ainda mais numa revista publicada no país que já tinha tido tantos excelentes zagueiros negros, como o Brasil.

  2. Eu como negro n vejo nenhum tipo de preconceito em crioulo. Aliás negros se chamam assim, nenhum acha um problema isso. Qual o problema de ser preto? Crioulo ? Negão ? Nesse caso o preconceituoso foi vc, infelizmente.
    E a matéria pelo que eu vi n tinha imagens do Tresór, e duvido que a maioria dos leitores sabiam quem era o excelente beque. Naquela época era muito comum as revistas colocarem algum adjetivo(se vc ler outras revistas vai perceber que eles colocam sempre uma característica acompanhada do nome como o loiro Klismann ) .
    E como vc falou nem Pelé um negro via problema em ser chamado de crioulo.
    Se vc acha problema ao descreverem uma pessoa como negra ou tal,sinto dizer que o preconceituoso é vc.

    1. Poxa, adorei a sua visão sobre o assunto. A proposta era abordar a forma como o Rezende lidou com o texto e com as expressões desnecessárias. Você pode até achar que não foram racistas os termos, mas daí me chamar de preconceituoso é demais, né, amigão? Vamos ter mais calma na análise aí.

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