Quando o Real Madrid teve em Juanito um ídolo inconsequente

Matthäus estava logo de pé, segurando o seu maxilar e por sorte, ainda podendo transformar seu rosto em uma expressão ofendida sem que todo o seu semblante ficasse tilintando no chão. Mas não era nenhuma surpresa que Juanito estava expulso imediatamente, levado às pressas para os vestiários pelo goleiro reserva do Real, Jose Ochotorena, partido em lágrimas. (Guardian, sobre 8 de abril de 1987, Bayern-Real Madrid, noite de uma das maiores agressões da história do futebol moderno)

Temperamental. Violento. Imprevisível. Explosivo e talentoso. Ídolo. Apaixonado. Torcedor. Sentimental. São várias as descrições possíveis para o fenômeno que foi Juan Gómez González, ou Juanito, para os íntimos e torcedores do Real Madrid.

Começou a sua carreira no Atlético de Madrid e passou pelo Burgos antes de chegar ao Real, em 1977. No Santiago Bernabéu, se converteu em figura querida em um piscar de olhos. Era um atacante capaz de aplicar dribles fantásticos e se posicionar em espaços cruciais para marcar um gol. Por dez anos, foi o coração de um time pentacampeão espanhol, bicampeão da Copa do Rei e da Copa Uefa.

Se portava como um trovão. De repente, quando aparecia no jogo, vinha para destruir os adversários. Responsável por um par de viradas em competições europeias, logo ganhou o apelido de ‘Supersônico’. Acumulava grandes atuações na mesma proporção de polêmicas. A primeira delas, em 1977, na Iugoslávia, quando defendia a Espanha. O atacante deu uma assistência para gol e foi substituído, fazendo gestos obscenos para os torcedores locais na saída. Acabou desmaiado depois de levar uma garrafada na cabeça.

A fera indomável

Foto: Cuatro
Foto: Cuatro

A vida sempre foi intensa para Juanito, que desfrutava de enorme fama e era um dos principais jogadores madridistas da década de 1980. O problema para ele foi o temperamento. Uma simples faísca poderia desencadear uma enorme explosão na mente competitiva do jogador. Os adversários percebiam isso e por muitas vezes trabalhavam para enlouquecer o atleta.

Relatos de colegas dão conta de que Juanito era uma pessoa completamente diferente fora de campo. O indomável baixinho reconhecia seus deslizes e sempre reconheceu que poderia ter sido menos cabeça dura. Bobagem, isso foi o que moldou o seu caráter.

Grande parte dos surtos de Juanito aconteceram quando o Real Madrid estava atrás no placar. Perder não fazia parte dos seus planos. A derrota, mesmo que parcial, despertava um monstro escondido no seu âmago. Uma fera assustadora que crescia até mesmo contra defensores com o dobro do seu tamanho.

O maior pisão de Munique

Talvez, a maior vítima da ira de Juanito tenha sido Lothar Matthäus. Em 1987, quando o Real precisava virar um jogo contra o Bayern de Munique pela semifinal da Copa dos Campeões. Os alemães venciam por 3–0 em Munique, colocando um pé na decisão contra o Porto. Augenthaler, Matthäus e Wohlfarth marcaram para os mandantes.

Eis que aos 36 minutos, Matthäus dividiu uma bola com força excessiva e foi empurrado com força por Chendo. Quando caiu, o meia germânico imediatamente foi atingido por Juanito, que veio correndo da outra ponta para desferir um pisão em suas costas. Protegido pelo árbitro, Lothar ainda levou outra solada, agora no rosto, enquanto estava caído. A atitude brutal de Juanito foi mais marcante do que os três gols feitos pelo Bayern. A violência obliterou qualquer registro positivo daquele jogo, que acabou em 4-1 para os bávaros.

Pela sua atitude, o madridista levou uma suspensão de quatro anos em competições europeias.

A vida do Real depois de Juanito

Foi a sua última temporada pelo Real Madrid. Na sua terceira punição por comportamento em torneios europeus, o clube decidiu que não mais iria contar com os serviços do camisa 7. Juanito então seguiu para o Málaga, onde atuou por dois anos e se aposentou em 1989. Ainda fez aparições esporádicas por Jaén e Los Bolichos antes de se envolver em um acidente de carro que lhe tirou a vida em 1992.

A década memorável que viveu com a camisa do Real foi o bastante para que a torcida lembrasse dele como um dos seus. Ao sétimo minuto de cada partida no Bernabéu, os madridistas cantam ‘Illa, illa, illa, Juanito Maravilla’, em homenagem ao ícone controverso e adorável que tanto fez pelo clube quando era atleta.

A inconsequência de Juanito como homem, apesar dos seus notórios pedidos de desculpa após os surtos, marcaram a passagem do atacante pelos corredores madridistas. Não há do lado merengue quem conteste a sua importância ou diminua o seu heroísmo. Juan Gómez González provou que nem só de justiça se fazem os heróis. Mas também de falhas e pedidos de perdão.

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