Parabéns ao meu pai, responsável pela minha paixão pelo futebol

Não vou usar citações pra começar esse texto. Porque excepcionalmente, ele é sobre o meu pai, que faz aniversário nesta segunda-feira. Quantos de vocês agradecem aos seus velhos pela influência e pelo fato de torcerem pelos seus times? Quantos de vocês já viram jogos ao lado deles e guardaram lembranças especiais para carregar por toda a vida? Eu já. Ainda bem.

Seu Obson já passou dos 50 e poucos. Desde que me lembro, já mudou algumas vezes de aparência. Era magrinho como eu, depois foi engordando com o tempo, algo natural. Sei que ele jogava muita bola na juventude e até pretendo contar essa história com mais calma algum dia. Entre os maiores feitos da vida dele, não estão os golaços (alguns eu vi in loco), nem os casamentos e muito menos as metas que alcançou como gerente de vendas. Na minha concepção, o maior golaço foi ter feito com que eu me apaixonasse pelo futebol.

Não tenho dúvidas de que sou mais apaixonado pelo esporte do que ele. Aliás, ouso me comparar aos mais fanáticos. Desde moleque eu corria pela casa chutando bola. Às vezes de meia, outras de algodão, raras de couro. Meu pai fez questão de me colocar uma camisa do Palmeiras logo que eu pudesse vestir as primeiras roupas. Naqueles tempos, continuar defendendo as cores alviverdes era uma tarefa pra lá de ingrata. Vivíamos na fila, à espera de um título que pudesse tirar a agonia de toda uma gente. Ele esperou 17, eu só precisei esperar três.

Meu pai viu o grande time de Leão, Luís Pereira, Ademir, Dudu, Edu Leivinha, César e Nei. Viu Jorginho Putinatti, Vágner Bacharel, Edu Marangon, Edu Bala, Martorelli, Zetti, Ivan, Velloso, Éder, entre outras feras, até que César Sampaio, Edmundo, Evair, Tonhão, Cléber e Zinho ganhassem o Brasil. Todo palmeirense com mais de 40 deve se lembrar das agruras da década de 1980. Que tortura.

Meu pai me contava histórias sobre quando atuava no salão e no amador de Ourinhos. Lembrava dos seus gols e da parceria com o Nenê da Albertina, o Maurício, o Japonês, outras figuras que acabei conhecendo quando trabalhei no extinto Jornal da Divisa. Quando passava o fim de semana com ele, me falava sobre Cruyff, Rivellino, Jorge Mendonça, Rummenigge, lembro cada descrição que ele fazia dos craques. E assim cresci faminto por conhecer a trajetória de cada um.

Me deu várias camisas do Palmeiras, me contou da Roma do Falcão, que acabou virando o meu segundo time lá pelos 10 anos de idade. Lembro claramente de como ele ia comentando o filme oficial da Fifa sobre a Copa de 1974. Falava sobre aquela Holanda, por que eles perderam, e ao mesmo tempo ia perfilando com simplicidade a Alemanha de Beckenbauer e Breitner. Tinha sempre uma palavra para cada imagem. Era como se o diretor do filme estivesse ali, me detalhando o que eu já via, mas não sabia nada a respeito.

Em algum momento, também tentei jogar como ele, quando moleque. Antecipar o zagueiro, essas coisas. Mas não consegui muito bem e acabei me encontrando na zaga. Porque sim, sou ruim. Acontece, pai.

Meu pai me levou pela primeira vez ao Parque Antárctica em novembro de 1993, contra o Fluminense. Ganhamos de 2–1 com gols de Maurílio e Sorato. Uma virada com gosto de pipoca. Aquele jogo tem toda uma simbologia: eram os dois times do meu avô, seu Edison, que se foi há 20 anos. Fomos nós três, tiramos o sábado para ir ao estádio. Dos poucos e cada vez mais raros flashes que tenho na cabeça, acho que ouvi a escalação pelo sistema de som, vi a torcida começar a cantar e olhei o placar, ao fim, apontando a nossa vitória. Talvez um passeio no mercado tenha completado aquele dia, não me recordo ao certo.

Camila, eu e meu pai, também na IV Copa Trifon Ivanov
Camila, eu e meu pai, na IV Copa Trifon Ivanov

Graças ao meu pai, criei o hábito de viver da bola. Lembro de uma pelota de couro que ganhei antes da Copa de 1994, da minha festa com decoração palmeirense, da minha camisa do Sérgio de 94, a do Mancuso de 95, e claro, das do Grêmio Pq. Pinheiros, o time que ele defendeu no começo dos anos 2000, em campeonatos de veteranos no Taboão da Serra.

É difícil não ser grato ao seu Obson por tudo que vivi por causa do futebol. Se eu tivesse outro pai, provavelmente teria pego outros trejeitos e não teria essa paixão absurda pelo esporte. Meus pôsteres no quarto, minhas figurinhas, meus jogos de botão, minhas camisas e todas as minhas lembranças relacionadas aos times são ligadas a ele. Por que foi isso que eu nasci pra fazer e ele sabe.

Duvido que alguém vá fazer isso, mas agradeço por ter sido criado desse jeito, foi tudo por obra dele, felizmente. Agradeço sobretudo pela influência, pelas histórias e por me fazer ter interesse nesse negócio maravilhoso que se chama futebol. E é assim que se passa uma tradição familiar. Quando meus filhos vierem, vou contar a eles sobre cada Copa do Mundo e lembrar que só vou estar relatando cada detalhe por causa do seu Obson. Que hoje fica mais velho e merece todos os parabéns do mundo.

Para quem conhece a figura, vale um abraço, mesmo de longe. Espero que você tenha vida longa, seu Obson. Para que a gente volte a reunir três gerações de Almeidas nas cadeiras na Turiassu, entre pai, filho e neto. Grande abraço e feliz aniversário.

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