Os clássicos brasileiros voltaram aos anos 90: isso é bom ou ruim?

Não vou falar a palavra que ele usou, mas está aí um presentinho para ele. Ele é um cara que se sente incomodado, que não sabe jogar contra um defensor como eu, que marca em cima, marca forte. Aí ele sempre se perde. (Rodrigo, defensor do Vasco, sobre Fred, o reclamão)

Do jeito que a gente gosta? Dois clássicos marcaram a rodada deste fim de semana no Campeonato Brasileiro. E os dois, por acaso, também tiveram polêmicas na saída do gramado. Em clima de provocação e de respostas do lado dos vencedores, Vasco x Fluminense e Palmeiras x Santos foram cercados de repórteres nos gramados de Maracanã e Allianz Parque.

No Rio, o Vasco levou por 2–1 e teve Rodrigo, seu capitão, como principal elemento após o apito final. Provocando Fred por lances durante a partida, o zagueiro devolveu de forma dura as reclamações do atacante tricolor, que chamou o rival de ‘aposentado’, dias antes do jogo. Os dois trocaram gentilezas até que finalmente saíssem de campo para falar à imprensa. Com a vitória, Rodrigo usou toda a sua ironia para tentar desmoralizar Fred.

Não que seja novidade, mas Eurico Miranda também se meteu na confusão. Chamou o Fluminense de ‘eterno freguês’ e ainda defendeu Rodrigo de críticas do seu ex-atleta Juninho Pernambucano, hoje comentarista da TV Globo. Para o mandatário vascaíno, quando o clube precisou de Juninho, este foi para o futebol dos Estados Unidos. Tudo isso por que? Porque o Reizinho de São Januário observou uma liderança excessiva por parte de Rodrigo em relação aos atletas do plantel.

Curiosamente, foi mais fácil falar sobre as intrigas do que sobre a partida, decidida no segundo tempo com gol de Jhon Cley. (Sim, se escreve errado assim mesmo)

No Allianz Parque, a revanche da final do Campeonato Paulista teve o Palmeiras como vencedor, em cima do Santos, que agora encabeça o Z4. Em mais um confronto entediante, o Verdão fez 1–0 com Leandro Pereira no primeiro tempo e só administrou. Na etapa final, Fernando Prass e Ricardo Oliveira protagonizaram um quiprocó danado que quase teve pancadaria.

Prass acusa Oliveira de lhe dar um soco nas costas após um lance de bola dividida entre os dois. Fora da jogada. Revoltado, o goleiro disse que Ricardo não foi profissional e que se o soco tivesse ocorrido em plena disputa, teria entendido como uma entrada normal.

Ainda mais desgraçado da cabeça, Ricardo Oliveira negou as acusações e também destilou toda a sua fina ironia para rebater o arqueiro palmeirense. O capitão santista chamou Prass de desleal por dar uma braçada igual depois do lance, e disse que teria sofrido um pisão no pé na saída do campo. A imprensa fez o seu habitual papel de motoboy de treta e entregou com agilidade as declarações aos rivais, ainda na zona mista. Uma espécie avançada do bom e velho “OOORRA, VAI DEIXAR? ELE XINGOU A SUA MÃE!”

Os mestres da provocação

Foto: Eu Sou Flamengo
Foto: Eu Sou Flamengo

Romário e Edmundo foram alguns dos maiores provocadores da história do futebol brasileiro. Sabiam usar a imprensa para aparecer e intimidar os rivais antes e depois dos duelos. Uma prova disso é a apresentação de Romário no Flamengo, em 1995. Quando o Baixinho vestiu pela primeira vez a camisa do rubro-negro, fez questão de incitar a massa vascaína:

O que eu posso falar para a torcida do Vasco é: quando tiver Vasco e Flamengo, leva lenço pro Maracanã, que vai chorar muito. (Romário, em 1995, na Gávea, um hábil instigador de confusões)

Edmundo, por sua vez, adorava começar uma encrenca dentro do campo. O Animal virava uma chave e se descontrolava. Quando não entrava de carrinho ou estapeava alguém, tentava tirar os rivais do sério. Em 1997, contra o Botafogo, o então camisa 10 vascaíno rebolou na lateral enquanto esperava Gonçalves dar o bote. Foi desarmado na sequência, quando tentou um drible para a esquerda.

Quem também sabia tirar o rival do sério era Viola. O atacante que ganhou fama no Corinthians, fez o primeiro gol do Timão na final do Paulista de 1993, contra o Palmeiras. Na comemoração, imitou um porco e incendiou os ânimos palmeirenses. Pelo jogo de volta, 4–0 para o Verdão, que ficou com o título e saiu de uma fila de 17 anos sem títulos.

Tempo bom que não volta nunca mais

Ficaríamos por horas aqui relembrando provocações históricas no futebol. Não só entre rivais. O clima de ironias e que felizmente não terminou em porrada reforça que ainda temos um elo forte com a década de 1990, um tempo em que as polêmicas eram ainda mais fáceis e exploradas à exaustão pela mídia. Aliás, no começo da guerra pela audiência, forçava-se muito a barra em ocasiões com conflito verbal.

O Youtube está repleto desses momentos. Temos até comentaristas se digladiando como na épica discussão acalorada entre Milton Neves e Roberto Avallone, a carcada histórica de Vanderlei Luxemburgo em Marcelinho (eu te conheço como cidadão, Marcelo. Você não vale nada. Você é safado. Você é moleque e safado, Marcelo). E então, o que mudou? Criamos uma noção de que as palavras podem interferir diretamente na motivação do jogo ou simplesmente paramos de tentar levar a disputa para o lado psicológico?

Se por um lado os atletas evoluíram um pouco na questão de se resguardar de declarações absurdas em público, por outro, as partidas perderam um pouco da tensão e da nitroglicerina dos anos 90, onde no mínimo um jogador perdia a cabeça ou roubava a cena num lampejo de genialidade e irreverência.

Nomes como Romário, Viola, Edmundo, Vampeta e outros, deixaram o futebol com um enorme vazio. A personalidade não tem muito espaço no cenário atual e nós nos surpreendemos quando aparece um cara como Marinho, que fala palavrões sem perceber em uma entrevista. (Que merda, hein? Não sabia não)

Não que o povo clame por pancadas e sangue, o que tornaria o esporte animalesco. Mas seria um consolo entre tantos jogos ruins e entediantes ver que os jogadores sabem testar o limite das brincadeiras. Ou até mesmo desafiarem a própria capacidade de fazer uma torcida chorar, como Romário cumpriu em 1995.

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