Ghiggia, o último atleta do Maracanazo a partir

Apenas três homens calaram o Maracanã inteiro. O Papa, Frank Sinatra… e eu. Foi bonito o que aconteceu. Me encheu de orgulho e foi inesquecível. O grande momento da minha vida foi no Maracanã. (Alcides Ghiggia, sobre o gol que deu o título ao Uruguai, em 1950)

Alcides Ghiggia morreu na última quinta-feira como um dos maiores ícones da história das Copas do Mundo. Autor do gol que deu o título mundial ao Uruguai, de virada, em 1950, o atacante marcou o torneio como o último grande herói do seu país e até hoje, 65 anos depois do ‘Maracanazo’, causa calafrios em quem viveu para contar sobre a derrota do Brasil em 16 de julho de 50.

Ghiggia morreu exatamente no aniversário de 65 anos da vitória uruguaia. O caráter improvável da virada no segundo tempo fez com que o Maracanã ficasse silencioso até o fim, como o próprio jogador descreve na citação de abertura. Ao longo das décadas, Alcides conviveu com o carinho dos uruguaios e com o reconhecimento de ser um grande fantasma para os brasileiros.

O Uruguai não fez muito em Copas desde 1950, diga-se. Talvez as campanhas de 1970 e 2010 sejam o mais perto que a Celeste chegou de repetir as glórias da geração de Ghiggia. Apesar de não ter sido o capitão na ocasião, o atacante ganhou reconhecimento pelo último gol da campanha.

Como pôde um homem, com um gol, tirar as palavras e a alegria de cerca de 200 mil pessoas abarrotadas no Maracanã? Como pôde Alcides destruir os sonhos de um país que estava plenamente confiante na sua primeira taça mundial? Da mesma forma como todas as vitórias cantadas antes da hora se tornaram um pesadelo. O Uruguai se beneficiou do clima de oba-oba na imprensa e na torcida para causar a maior decepção que se tem notícia no esporte.

Só mesmo um homem honrado como Ghiggia poderia fazer a façanha de virar um jogo todo favorável ao Brasil. Lembremos que com o empate, o título também iria para os mandantes. A missão uruguaia era difícil. Não bastasse o bom time treinado por Flávio Costa, as 200 mil pessoas e a vantagem prevista por regulamento, o Brasil saiu na frente, com Friaça, logo no começo do segundo tempo.

Coube a Varela, o capitão charrua, acalmar os ânimos de seus companheiros para o fim da batalha em solo inimigo. O time que antes estava só se defendendo, mostrou a força de um ataque perigoso e que se mostrou predestinado a mais uma glória. Assim como os heróis de 1930 e os medalhistas de ouro em 1924 e 1928.

Curiosamente, em 1950, a tradição falou mais alto. Schiaffino empatou aos 20 e Ghiggia virou aos 34, correndo pela ponta direita e mandando um chute rente à trave de Barbosa. Era a surpreendente virada do Uruguai. E o placar se manteve favorável aos visitantes até o apito final de George Reader. A partir daquele momento, o trauma era irreversível. Milhares choraram, outros milhões fora do Maracanã permaneceram incrédulos por um par de anos, até que Pelé e Vavá ousaram repetir a proeza dos uruguaios, em 1958, derrotando a Suécia em um Rasunda lotado, na cidade de Solna, por 5 a 2.

Ironicamente, o maior momento das vidas dos 11 uruguaios aconteceu no Maracanã, enquanto 200 mil se afogavam em lágrimas, frustrados por um tombo que deixou uma enorme cicatriz no orgulho brasileiro.

Ghiggia ainda jogou profissionalmente até 1967, por Peñarol, Roma, Milan e Danubio. Foi campeão uruguaio e italiano, com a camisa do Milan. Obviamente, nenhum outro título seria tão emblemático e memorável como o de 1950. O gol da conquista foi tão contrastante com a depressão brasileira, que o fato de Barbosa não ter conseguido defender o chute fez dele um eterno prisioneiro, até a sua morte em 2000. Tudo que envolve o ‘Maracanazo’ em 1950 é de entristecer para os brasileiros.

Para quem esteve do outro lado e ergueu a taça, a final traz gostosas lembranças e a sabedoria de que nenhuma batalha pode ser vencida já na véspera.

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