Dirceuzinho, o craque imparável

O Dirceuzinho era um dos meus melhores amigos. Ele foi jogar no Atlético de Madrid, voltava da Espanha para Curitiba, chegava a pegar bonde para ir até a minha casa, ônibus no fim da tarde. Depois um caminhão. Ia em cima do caminhão pra jogar pelada. A uma hora de Curitiba. Era fanático, sabe? Um cara que adorava jogar futebol. (Levir Culpi, em entrevista ao Bola da Vez, da ESPN, em 2014, sobre Dirceu)

Dirceu José Guimarães é um nome que pode representar pouco para o torcedor comum, mas que nas décadas de 1970 e 80 brilhou no futebol com a camisa da Seleção Brasileira e vários outros clubes em 25 anos como profissional. Mesmo o nome ‘Dirceuzinho’ não desperta tantas lembranças de quem não o viu jogar por Coritiba, Botafogo, Vasco e Fluminense aqui no Brasil.

A verdade é que Dirceuzinho foi um belo de um jogador e, acima de tudo, um apaixonado pelo esporte. Como bem Levir Culpi deixou claro na citação que abre o texto, o ex-meia nascido em Curitiba nunca abandonou o futebol, nem mesmo aos 43 anos, já veteraníssimo e atuando pelo Yucatán, do México. Poucos atletas se dedicaram tanto quanto ele ao que faziam.

A trajetória de Dirceu começou em 1970, no Coritiba. O estilo veloz de jogo, aliado à enorme técnica, fizeram com que ele fosse chamado de ‘Formiguinha’. Bom chutador de longa distância e capaz de correr de forma incansável em campo, ganhou em pouco tempo uma boa reputação, sobretudo com o papel no bicampeonato paranaense do Coxa, em 1971 e 72. Era originalmente um ponta-esquerda e foi amadurecendo ao longo dos anos como meia.

Em 1972, passou a defender o Botafogo e se tornou um dos melhores do país, em um time liderado por Jairzinho e Fischer. Ficou até 1976 no Glorioso e partiu para o Flu, onde alinhou com Rivellino, Doval, Paulo César Caju e Carlos Alberto Torres. Não ficou muito tempo nas Laranjeiras, mas conquistou o Carioca daquele ano e logo assinou com o Vasco, em 1977.

Dirceu, o futebolista nômade

Dirceu, ao lado do grande Roberto Dinamite/ Foto: Almanaque do Vasco
Dirceu, ao lado do grande Roberto Dinamite/ Foto: Almanaque do Vasco

Nesse intervalo, chegava ao seu segundo mundial. Esteve na Alemanha, em 1974, na campanha que acabou diante da Holanda, e jogou a fase final do torneio. Foi crucial na campanha de 1978, quando atuou como titular e ganhou o título de terceiro melhor jogador da competição, na Argentina.

A boa participação de Dirceuzinho no Mundial de 78 rendeu um bilhete de passagem para a Europa. Bem cotado por equipes do exterior, assinou com o América do México. Depois rodou por Espanha e Itália. Jogou por Atlético de Madrid, Verona, Napoli, Ascoli (rebaixado para a Serie B), Como e Avellino, fechando cinco anos consecutivos na Serie A italiana, até retornar ao Brasil, em 1988, pelo Vasco. O último título de Dirceuzinho como profissional foi justamente pelo Cruzmaltino, no Carioca de 88.

Também passou pelo Miami Sharks, dos Estados Unidos, pelo Harvey Bologna (de futsal, novamente na Itália), pela Ebolitana, pelo Benevento, outra vez no futsal pelo Giampaoli Ancona e o Atlético Yucatán, seu último clube. Teve um papel tão marcante para a Ebolitana, em divisões amadoras, que em 2001, deu o nome ao estádio da equipe, hoje rebatizado como Comunale Dirceu José Guimarães.

Um legítimo atirador de elite

A Formiguinha andou demais no futebol, fazendo o que gostava e vivendo a fantasia de passar os seus anos finais assim como no seu início como atleta. Quase sempre camisa 10 pelos times que passava, Dirceuzinho foi cultuado pelos torcedores ao longo de sua carreira. A dedicação, a garra, e principalmente os golaços, conquistaram o coração de espanhóis, mexicanos e italianos, rendidos ao seu talento puro, pela sua forma apaixonada de entrar em campo e fazer o que sabia.

Dirceu, pelo Como, abraça Diego Maradona, seu sucessor no Napoli. Foto: Quattro Tratti
Dirceu, pelo Como, abraça Diego Maradona, seu sucessor no Napoli. Foto: Quattro Tratti

Apenas deu o azar de sair de Verona e Napoli antes que os dois fossem campeões italianos. Curiosamente, o atleta contratado para o seu lugar nos partenopei foi Diego Maradona, até hoje, maior ídolo da equipe napolitana. Contudo, não deixa de ser um craque, um fora de série que só não teve mais valor em virtude da forte competição na época. Zico, Maradona, Rivellino, Sócrates, Falcão, Conti, Platini, Tigana, Valdano, Lineker, Beardsley, Éder, entre outros inesquecíveis monstros da bola que desfrutaram muito mais da fama do que Dirceuzinho, lembrado especialmente no Paraná por ter sido o paranaense que mais jogou Copas do Mundo.

A rotina de peladeiro nas horas vagas foi bruscamente interrompida no Rio de Janeiro, em 1995. Aos 43 anos, vinculado ao Yucatán e recém-saído de um jogo amador na Barra da Tijuca, Dirceuzinho e um amigo empresário foram mortos em um acidente brutal no meio de um cruzamento. Um Monza que estava em um racha atravessou o farol vermelho e acertou o Puma de Dirceu à toda velocidade, encerrando uma vida dedicada quase que inteiramente à bola. O jogador tinha três filhos e esperava o quarto, em gestação da sua esposa. Não pôde chegar em casa depois de um simples futebolzinho semanal com os colegas.

De repente, as bombas de fora da área, os chutes surpreendentes e as belas cobranças de falta cessaram. Os gols e comemorações também. Ninguém mais veria nem no campinho do bairro o talento de Dirceuzinho. Pelo menos ele nos deixou com 25 anos de dedicação. Merecia muito mais reconhecimento e títulos. Mas é assim que é a vida, afinal.

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