Casillas viveu o sonho. Agora é hora de despertar

Para o Real Madrid, hoje é um dia, antes de tudo, de agradecimento e reconhecimento. Não se vai um dos melhores goleiro de nosso clube. Hoje, deixa esta equipe e inicia uma nova etapa futebolística o melhor goleiro da história do Real Madrid e da história do futebol espanhol. (Real Madrid, em nota oficial sobre a saída de Casillas para o Porto)

Em 1999, Iker começou a viver um sonho particular e quase impossível: ser o goleiro e um ídolo em potencial do Real Madrid. Muitos já tentaram isso antes dele e falharam. Outros, se perderam no meio do caminho, engolidos pela pressão de atuar por um gigante que se alimenta de resultados. Dezesseis anos depois, campeão do mundo e da Europa por clube e seleção, um veterano Casillas sai pela mesma porta que entrou, com status de lenda, ainda que queimado por um ano ruim para os madridistas.

Casillas, mais do que ninguém, pagou o preço de não continuar sendo campeão. Falhou em alguns momentos cruciais, mesmo tendo salvo o time em incontáveis outras ocasiões. O antes paredão de tantas glórias, virou alvo da fúria dos torcedores, sempre insaciáveis. Foi vaiado e cobrado pelas derrotas e fiascos do time, como se jogasse sozinho em algum ponto.

É evidente que Iker teve um leve descenso nos últimos anos. A idade vem, naturalmente um atleta que já ganhou tudo na carreira acaba perdendo parte da motivação de seguir em alto nível. Quando o Real Madrid diz que Casillas foi o seu melhor goleiro, não trata-se de uma mentira ou de um falso elogio para honrar a passagem de alguém que vai abraçar outras cores. É um fato incontestável que o espanhol foi gigante durante pelo menos 13 anos de sua vida como camisa 1 madridista.

Contudo, assim como outros grandes atletas da posição, a falha não é permitida. O time inteiro pode errar e ser perdoado, menos o goleiro, um pobre mortal que fica com o dever inalienável de ser o último homem capaz de salvar um gol. Um tropeço, um frango, uma escapada da bola por entre os braços pode ser fatal para toda uma trajetória. Sobretudo se isso acontecer em uma decisão.

Casillas foi tão sortudo, que quando falhou em uma decisão, o Real conseguiu virar a partida e bater o Atlético de Madrid por 4 a 1, na final europeia de 2014. Antes herói e salvador de chutes indefensáveis, o capitão e goleiro foi aos poucos desmoronando como atleta. Até tentou manter a moral e dizer que ficaria no clube mesmo com a possível chegada de De Gea, mas é preciso que se entenda que era sim o momento de partir para outra empreitada.

Foram 25 anos, 15 como titular. Vários títulos que podem ser lembrados em qualquer simples pesquisa na internet. A façanha de erguer a taça e redimir um país que sempre falhou em Copas. As mazelas de estar em um cargo de intensa pressão e cobrança. Casillas ainda tem 34 anos e pode atuar muito bem por pelo menos mais cinco ou seis temporadas.

Não precisa arranhar a sua história e mergulhar na depressão de declinar no mesmo lugar que lhe fez famoso. Agora pode ser uma grande referência para uma equipe que também é grande e briga por títulos nacionais. Quem sabe, com a sua força, possa também chegar perto de uma conquista europeia, 12 anos depois da última taça, nos tempos de José Mourinho, Deco, Ricardo Carvalho, Maniche, Paulo Ferreira, Derlei, Carlos Alberto e outros medalhões lusitanos.

Em um 2015 marcado por transições, Casillas é mais um ídolo a abdicar da possibilidade de defender só um clube na carreira. Vai para tentar mostrar a todo o mundo que as falhas de 2014 são apenas um ponto fora da curva de uma trajetória vitoriosa.

De repente, Iker acorda de um sonho fantástico que perdeu a cor de uma hora para a outra. Que sufocou e virou um pesadelo, mas jamais poderia ser uma prisão. Acordou em 2015, assustado e com uma nova realidade. De passagens marcadas para Portugal, onde irá procurar a resposta para uma pergunta inquietante: tudo isso que viveu até agora teria sido apenas fantasia?

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