Times memoráveis do Brasileirão: 1980, o Atlético de Reinaldo

O Flamengo nunca havia conquistado um título brasileiro. O Maracanã estava lotado na final, tinha “nego” pendurado no lustre. Me lançaram uma bola no segundo tempo, eu corri e senti a fisgada. Aí veio o massacre da multidão. Duzentas mil pessoas gritando, em coro: “Bichado, bichado!” Eu queria enfiar a cabeça no gramado. Estava sem condições. Aquilo esmagou minha mente. Mas tive a oportunidade de empatar o jogo e calar o Maracanã. Senti o sabor do silêncio, flutuei, foi um prazer. (Reinaldo, em entrevista à Placar, 2012)

Poucos times que não venceram o Campeonato Brasileiro marcaram tanto a memória do torcedor como o Atlético Mineiro de Reinaldo, em 1980. Com base forte e um estilo tão ofensivo quanto o do Flamengo, que acabou campeão, o Galo tinha no ataque a referência de um dos grandes atacantes do futebol brasileiro na época. Mas que foi prejudicado por lesões em horas decisivas.

Foto: Placar
Foto: Placar

Treinado por Procópio, o Atlético gastava a bola. Era muito bom passador e chegava com muita eficiência ao ataque. Com Reinaldo no auge, o time mineiro tentava se reerguer após perder a final do Brasileiro de 1977, contra o São Paulo, nos pênaltis. A formação que foi por mais tempo titular alinhava: João Leite, Orlando, Osmar, Luisinho e Jorge Valença, Chicão, Toninho Cerezo e Palhinha, Pedrinho, Reinaldo e Éder.

Muito firme na defesa, a equipe ainda dava trabalho com uma linha de frente veloz e sintonizada. Chaveado no grupo B, o Galo enfrentou Palmeiras, Vitória, Desportiva Capixaba, Fluminense, Vila Nova, Ceará, Guarani, Flamengo-PI e América-RN. Sete dos dez clubes avançavam para a fase seguinte. O alvinegro ficou em primeiro com sete vitórias, um empate e uma derrota, esta para o Ceará, em Fortaleza.

Naquele ponto já ficou claro que o Atlético seria uma das forças do campeonato. Autor de 22 gols em nove jogos, o time de Procópio também teve a melhor defesa, ao lado do Palmeiras e do Guarani, com sete gols sofridos. Destaque para as vitórias contra Desportiva (4–1) e contra o Vitória (5–1). Reinaldo marcou seis dos 22 tentos atleticanos naquele estágio.

O primeiro encontro com o Inter

Pela segunda fase, a situação foi ficando mais complicada. Pela chave G, o poderoso Internacional seria um dos oponentes. Bahia e Atlético Goianiense eram os outros clubes. O Colorado e o Galo sobraram e fizeram duelos equilibradíssimos em Porto Alegre e Belo Horizonte. No primeiro, em pleno Mineirão, 2–1 para os gaúchos, com dois gols de Bira. Jorge Valença diminuiu para o Galo. O troco veio no Beira-Rio, ao fim do mês de abril. Toninho Cerezo (2x) e Fernando Roberto fizeram a festa da caravana visitante. Bira fez o de honra do Inter.

As muitas goleadas fizeram com que o saldo dos líderes fosse incrível: o Inter terminou na frente com 19 marcados e 6 sofridos. O Galo fez 15 e levou 5. Ambos somaram 10 pontos e avançaram mais uma vez. O cerco se fechou no Grupo M, pela terceira fase. O Atlético pegou Vasco, São Paulo e Fluminense. Agora só um avançava. Com dois empates por 0–0 contra São Paulo e Vasco, os mineiros se classificaram graças ao saldo de gols de uma vitória diante do Flu, por 2–0. Éder e Angelo foram os heróis da vaga para a semifinal.

Mais uma decisão com o Inter

Quatro anos antes, o Atlético perdia no fim do jogo a semifinal do Brasileirão de 1976 para o Inter. Uma tabelinha de outro mundo, feita de cabeça por Escurinho e Falcão até a finalização do meia, de dentro da área. Mas em 1980, o desfecho seria diferente.

Em 21 e 25 de maio, Galo e Colorado fizeram o tira-teima da segunda fase, agora valendo uma vaga na final. E aí, Reinaldo e seus colegas apareceram. O camisa 9 voltou a marcar e deixou um gol em cada partida. No Mineirão, 1–1, gols do Rei e de Cléo. Dias depois, o Atlético se consagrou de vez.

Toninho Cerezo carregou a bola pela intermediária esquerda e cruzou na cabeça de Reinaldo, que só apareceu para complementar e balançar a rede, na saída de Gasperini. O vacilo de Mauro Galvão, ainda muito jovem, custou caro aos gaúchos no lançamento de Cerezo. De falta, Éder ampliou e encaminhou a vitória, ainda no primeiro tempo. Quando voltaram do intervalo, as duas equipes continuaram praticando um grande futebol.

Mauro Galvão carimbou o rosto do goleiro João Leite, em uma chance clara de gol. A defesa inusitada evitou o gol do Inter, que podia reagir na partida. Os mandantes sofriam muitos contragolpes em velocidade e estiveram perto de levar uma goleada. Gasperini salvou um chute de cara para Angelo, evitando o terceiro. Palhinha acertou a trave e o placar seguia em um teimoso 2–0 para os visitantes. Perto dos acréscimos, Mario Sérgio deu um pontapé em Éder para evitar um drible e acabou expulso. O ponta, como forma de dar o troco, tabelou com Cerezo e mandou um canhão, a sua marca registrada, no canto de Gasperini. Galo na final.

A maior final da história do Brasileirão

Qualquer um dos dois que vencesse as duas partidas seria um campeão merecido, justo e extremamente competente. Em 1º de julho de 1980, o Maracanã coroou o Flamengo de Zico, o esqueleto de um dos times mais fascinantes da história do esporte. No entanto, poderia muito bem ter sido o Atlético a levantar a taça, nove anos depois do seu primeiro e último título brasileiro.

Em Belo Horizonte, três dias antes, Reinaldo marcou e deu a vantagem ao Atlético. Só que no jogo do Maracanã, os mineiros não contavam que a sua principal esperança iria sofrer com problemas musculares, se arrastando em campo. No Rio, Éder não conseguiu salvar a pátria atleticana. E os 90 minutos finais daquela edição do torneio foram simplesmente fantásticos. Puro futebol de ataque, dois timaços lutando com todas as forças pelo título.

Nunes espetou primeiro, ao sair em disparada rumo à área do Galo, batendo rasteiro e evitando a defesa de João Leite, que tentava barrar a ofensiva flamenguista. O passe de Zico também foi qualquer nota. Mas o Atlético não se rendeu e botou fogo na partida. Na pequena área, do jeito que ele gostava, Reinaldo bateu por cima e mandou de canhota nas redes de Raul. Cercado por três, o camisa 9 deu um rápido corte para a esquerda antes de puxar a bomba. A bola desviou na zaga e traiu o arqueiro rubro-negro.

Bate e rebate na área alvinegra. Júnior tentou chutar de fora, mas a finalização explodiu na defesa. Sobrou nos pés do iluminado Zico, que acertou o alto da meta de João Leite, vencido pelo 10 da Gávea. 2–1. Outra vez, o Atlético precisou buscar a igualdade. E ela veio, em novo lançamento perfeito de Éder. A bola viajou até o meio da cozinha flamenguista e Reinaldo, sempre ele, apenas deu um toque maroto para vencer Raul, que ainda tocou na bola antes dela entrar. 2–2. Mancando, o Rei erguia o punho para comemorar diante da torcida.

O fim da história foi igualmente genial e definido na ginga. Mas o herói não foi o ferido guerreiro com a 9 atleticana. Foi Nunes, o outro matador da noite no Maracanã. Que em duelo com Silvestre, contou com um rebote do marcador antes de uma finta fatal e um chute à meia-altura para anotar o terceiro gol do Fla. O último da noite e do campeonato, vencido pelos donos da casa.

A derrota que ficou para a eternidade

Foto: Imortais do futebol
Foto: Imortais do futebol

Mesmo que a marca de Zico e seus colegas tenha ficado na história da competição, a memória jamais irá apagar os feitos de Reinaldo e seus colegas. Um time que não pôde fazer frente ao gigante daquela década. E que não deixa de ser importante, mesmo com a derrota.

Dizem que a história não contempla os segundos colocados. O que não poderia ser uma mentira maior, já que o Galo de Reinaldo merece o seu lugar entre os grandes, ainda que sem uma taça para exibir no salão nobre. O troféu atleticano é a garra, a técnica e a presença de craques como Luisinho, Cerezo, Éder, Palhinha e claro, Reinaldo.

O Brasileirão pode até não ter se curvado à aquele esquadrão, mas a torcida e os amantes do bom futebol, sempre vão recordar o Patrão, o Bomba e o Rei. Figuras do maior vice-campeão que o país já viu, por capricho do destino.

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