Uma visita aos tempos de Arsène Wenger como jogador

Para mim, o Arsenal é um clube que tenta respeitar a sua tradição, estilo, honestidade e jogo limpo. Se você vier aqui e se comportar como um gângster, não vai durar muito. Os torcedores serão os primeiros a ficar insatisfeitos. Um clube precisa de valores. Se um clube não tem estes valores, não vai a lugar algum. (Arsène Wenger, em 2008, sobre o Arsenal. Um homem de respeito)

Arsène Wenger é com certeza um dos grandes treinadores que o mundo já viu. Grande tático, visionário do mercado e capaz de montar equipes ofensivas e vistosas, o francês sempre foi um exímio estrategista e um homem de princípios quase científicos aplicados no esporte.

Visto como ‘paizão’ para a maioria de seus jogadores, Wenger completará em 2016 a marca de 20 anos à frente dos Gunners, como responsável por contratações históricas que permitiram ao clube montar o melhor time possível para a incrível campanha de 2003, quando o Arsenal venceu o Campeonato Inglês de forma invicta.

Quando o Arsenal saiu de uma de suas fases mais gloriosas e entrou nos anos 1990 com olhares de incerteza, não houve quem protestasse integralmente contra as políticas da diretoria. Menos ainda quem dissesse que ‘o respeito voltou’, quando em 1996, os cartolas apresentaram um certo francês esguio e com cabelos louros, dono de um óculos que o fazia parecer uma senhora aristocrata inglesa.

Arsène Wenger vinha do Nagoya Grampus, do Japão, após um período bem sucedido de um ano. Antes disso, treinou o Monaco de 1987 a 1994 e montou equipes interessantes com o apoio de investidores que queriam que os rouge-et-blanc conquistassem a Europa a qualquer custo. Foi campeão francês em 1988 e da Copa da França em 1991, além de ter feito boas campanhas continentais.

Ao desembarcar em Londres e pisar no Highbury, Arsène provavelmente não sabia que os seus melhores tempos estavam pela frente. Já com certa moral por ser competente e pelo caráter promissor de sua passagem pelo Monaco, o treinador se preparava para esconder o seu histórico como atleta atrás de um enorme sucesso comandando os Gunners.

Um estudante em meio a atletas frustrados

Foto: Daily Mail
Foto: Daily Mail

É difícil falar em ‘lenda’ sobre os tempos de Wenger como jogador. Alto e magro, o francês nunca foi grande coisa enquanto atuava no meio e na defesa dos clubes em que passou. Como a sua família tinha outro plano para a sua carreira, o futebol para o jovem Arsène era encarado como hobby, já que aos 20 anos, ele se preparava para fazer um curso de economia. Desistiu pouco antes das cadeiras de medicina.

A família Wenger tinha uma loja de autopeças e um pequeno restaurante na região da Alsácia, próxima à fronteira com Alemanha e Suíça. Décadas antes do nascimento de Arsène, em 1949, a região, juntamente com a Lorena, foi anexada pelos alemães em 1870, durante a Guerra Franco-Prussiana. Tornou a fazer parte da França apenas após o Tratado de Versalhes, em 1918, que encerrou a Primeira Guerra Mundial.

O jovem Arsène deveria administrar os negócios da família e levar uma vida pacata, mas insistia em continuar jogando em horas vagas. Atuou por equipes amadoras até parar no Mutzig, em 1969, onde conheceu Max Hild, técnico e primeiro instrutor. Desde muito cedo, o rapaz gostava de ler revistas sobre futebol e se interessava em enxergar aspectos táticos para desenvolver e aplicar estes sistemas no seu time. Viajava para a Alemanha em folgas para acompanhar as partidas dos clubes locais, sempre vistos como de vanguarda no esporte.

A dúvida entre jogar ou coordenar

Wenger joga uma pelada em seus tempos de treinador no Monaco/ Foto: Daily Mail
Wenger joga uma pelada em seus tempos de treinador no Monaco. Foto: Daily Mail

Jogou no Mulhouse, uma equipe semi-profissional, em 1973, conciliando o esporte com os estudos. Com o passar dos anos, a vida dupla ficou complicada e o time também sofria para se manter na segunda divisão francesa. Escapou do rebaixamento por pouco em 1975 e acabou causando a saída de Wenger, juntamente com o treinador Paul Frantz. Arsène voltou à região da Alsácia para levar o time amador do ASPV Strasbourg à terceira divisão. Jogou sob a tutela de Hild, como líder intelectual e capitão. No meio-campo, conseguiu a marca de 20 gols em 80 partidas.

Em 1978, o velho conhecido Hild assumiu o time reserva do Strasbourg, onde também teria de acumular a função de olheiro. Levou Wenger para cuuidar do elenco enquanto viajava para acompanhar o desenvolvimento de outros atletas fora da cidade. Já aos 29 anos, Arsène se dividia entre a vida atlética e de treinador, algo que fazia muito bem já na juventude. A sua proposta principal era levar princípios de preparação física, cuidados com alimentação e táticas avançadas às rotinas dos jogadores. A tarefa de ser o auxiliar técnico dentro de campo construiu uma boa reputação do francês no país.

O auxiliar que quebrava um galho jogando na zaga

Foto: Daily Mail
Foto: Daily Mail

Deslocado para a zaga, Wenger atuava pouco pelo plantel titular. Como estava sempre ocupado cuidando de novas contratações e da implantação de novas filosofias ao lado de Hild e de Gilbert Gress, comandante do Strasbourg, não tinha tempo e era raramente relacionado para os jogos. Em 1979, o clube foi campeão francês, com escassas atuações do futuro manager do Arsenal, que já ensaiava planos para se tornar um treinador.

Se meteu em vários cursos de idiomas e outro em especial, para obter seu diploma, em 1981, ano em que abandonou a carreira como jogador. Não que tivesse feito muito antes disso. Jogou apenas 11 partidas pelo Strasbourg e tem o título de 79 no currículo. Aposentado, passou como assistente no Cannes e já em 1984, estava comandando o Nancy pela primeira divisão francesa. Ficou até 1987 lá e foi para o Monaco.

O resto, é história. A revolução promovida por ele na preparação e na armação do Arsenal são algumas das marcas de um gênio do ofício. Alguém que teve muito mais êxito do banco de reservas e pensando nas soluções e esquemas do que com a bola nos pés.

No futuro, hão de lembrar do grande estrategista e do excelente garimpeiro de contratações. Pobre do jogador Wenger, que viverá esquecido atrás das várias taças que ele mesmo como técnico conquistou.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *