O último gol de Laurie Cunningham

O Real Madrid via ele como um dos mais distintos atletas da Europa. Era um período onde não aconteciam grandes transferências internacionais e o clube fez um esforço financeiro para contratar Laurie, uma estrela. Porque todo o resto era basicamente cria dos times juvenis. (Vicente Del Bosque, ex-atleta madridista, sobre a contratação de Laurie Cunningham em 1979)

Quando Laurie Cunningham deixou o West Bromwich em 1979, com o status de lenda, para assinar com o Real Madrid em uma transferência histórica. Afinal, o atacante era um dos primeiros negros a estourar no cenário inglês, somente na década de 1970.

Cunningham, em ação pelo West Brom, em 1978. Foto: BBC
Cunningham, em ação pelo West Brom, em 1978. Foto: BBC

Membro de um ataque lembrado como ‘The Three Degrees’ (uma referência ao trio norte-americano de cantoras na década de 1960) ao lado de Cyrille Regis e Brendon Batson, Laurie era um dos grandes atletas ingleses de seu tempo. Apesar de não ser escolhido por Ron Greenwood na seleção nacional, o jogador teve enorme impacto no país com a camisa do West Brom. Começou a carreira no Leyton Orient, em 1974 e depois passou três anos com os Baggies, de 1976 a 79.

Notável garçom dos companheiros e homem-surpresa nas finalizações, Cunningham era um dos favoritos da torcida pelo seu talento. Driblava muito bem e fazia grandes passes em linhas pouco usuais do campo, mostrando excelente visão de jogo. Fez 21 gols em 86 atuações pelo West Brom, até que veio a famosa proposta do Real Madrid. Um jogo memorável contra o Valencia pela Copa Uefa, em 1978, atraiu os olhares dos espanhóis.

O homem de 950 mil libras

Dirigentes do Real Madrid foram até a Inglaterra para negociar a contratação do atacante. As conversas aconteceram na casa de Ron Atkinson, treinador do clube de Hawthorns, que contou detalhes à BBC, em entrevista de 2009.

Eles começaram oferecendo £250 mil e nós pedíamos £1.5 milhão. Ninguém falava a mesma língua, exceto o tradutor. Então fomos escrevendo em pedaços de papel as propostas, que eles respondiam e ajeitavam conforme necessário. O papel passou de um lado para o outro várias vezes. Quando eles falaram que queriam pagar £250 mil, até meu cachorro latiu. Virei para o tradutor e disse: “ei, olha só, até meu cachorro sabe que isso não está certo”. (Ron Atkinson, sobre a negociação com o Real Madrid)

Cunningham desembarcou em Madrid por £950 mil na metade de 1979 para ser o novo jogador do Real. No elenco madridista daquele ano, figuravam nomes como Vicente Del Bosque, Jose Antonio Camacho, Uli Stielike e Santillana. O clube foi campeão espanhol, da Copa do Rei e semifinalista da Copa dos Campeões da Europa na primeira temporada de Laurie como titular.

O inglês entrou em campo 42 vezes e anotou 11 gols pelos madridistas, facilmente conquistando a admiração dos torcedores e da imprensa. O único ponto baixo daquela campanha foi a goleada sofrida para o Nottingham Forest, na semifinal europeia. Os Reds fizeram 5–1 e viraram o agregado depois de um 2–0 para o Real em Madrid. Posteriormente, a equipe de Brian Clough levantaria a taça da competição pela segunda vez, contra o Hamburgo.

O problema para Laurie, a partir de 1981, foi o fato de estar sempre lesionado. Quebrou um dedo, teve rompimento de ligamentos do joelho, problemas musculares e foi atormentado até finalmente sair do clube, em 1982, para o Manchester United do seu velho chefe Ron Atkinson. Antes disso, passou por outro drama ao ser expulso na derrota por 5–0 para o Kaiserslautern, nas quartas de final da Copa Uefa, em 82. Foi escalado apenas oito vezes na temporada e repassado ao United, sob olhares desconfiados a respeito de sua forma.

O início da tormenta

A vida ficou ainda mais difícil para Cunningham. Claramente dono de uma técnica invejável, o atleta ficou refém de sua frágil forma física. Constantemente afastado do jogo para ser tratado no departamento médico, passou por Sporting Gijón, Marseille e Leicester, antes de ser contratado pelo Rayo Vallecano, clube pelo qual teve seus últimos lampejos de alegria e genialidade, ainda que pela segunda divisão. Abalado por não conseguir ter sequência, o atleta aos poucos perdia o interesse no esporte.

Se exilou na Bélgica quando jogava pelo Charleroi, mas novamente ficou impedido de atuar em virtude de contusões graves. Emprestado ao Wimbledon, conquistou a Copa da Inglaterra em 1988, entrando no segundo tempo contra o Liverpool. Os Wombles venceram por 1–0, gol de Lawrie Sanchez. O interim pelo Wimbledon foi um enorme contraste entre o perfil do jogador (técnico e preciso) e do restante da equipe, que fazia um jogo duro e muitas vezes violento.

O último ano

Milagrosamente, Laurie viveu a temporada de 1988–89 sem grandes problemas. Recuperou o bom futebol e precisou se adaptar a não mais depender do físico pelo Rayo Vallecano. Entrava quase sempre na segunda etapa para emprestar seu talento ao time madrilenho na reta decisiva da segundona espanhola.

O Rayo acabou na vice-liderança da competição, atrás apenas do Castellón. Em 21 de maio de 1989, o Rayo Vallecano enfrentava o Real Madrid Castilla, quando Laurie entrou aos 62 minutos. Marcou aos 75 e garantiu o resultado de 2–0 para os visitantes. Atuou pela última vez contra o Salamanca, em 4 de junho, em derrota por 1–0. Pouco se encontra na internet sobre aquele campeonato e nem mesmo os jornais sabem descrever como é que foram os últimos momentos de Cunningham como jogador profissional.

Em 15 de julho de 1989, aos 33 anos, Laurie estava no carro com a sua mulher, na estrada para La Coruña. Ao tentar desviar de um motorista que estava com um pneu furado, o inglês bateu no muro e foi lançado para fora do parabrisa. Morreu na hora. Não estava usando cinto de segurança.

Uma quase-lenda

Os Three Degrees: Cunningham, Batson e Regis, no WBA de 1977. Foto: Guardian
Os Three Degrees: Cunningham, Batson e Regis, no WBA de 1977. Foto: Guardian

Cunningham virou uma espécie de ídolo cult na Inglaterra, sobretudo para os torcedores do West Brom. Vários companheiros e ex-treinadores elogiavam o jogador, afirmando que ele tinha tudo para ser uma lenda do esporte. E foi, pelos Baggies e pelo Real Madrid, ainda que por curto espaço de tempo.

A trajetória de Laurie foi meteórica e não foram poucos os que o reconheceram como um dos melhores da Europa. Foi o destino que acabou soprando para o lado contrário do sucesso do inglês, que viu seu prestígio ir pelo ralo após problemas médicos. De coringa e mágico da ponta-direita para uma incógnita, um ponto de interrogação, uma sombra do que ele mesmo conseguiu fazer no seu ápice.

Talvez, reconstruir a sua história e imaginar um roteiro menos trágico seja um exercício frequente na cabeça dos seus principais amigos como Ron Atkinson e Cyrille Regis, que visitaram Laurie em Madrid pouco antes de sua morte.

Os mais novos, que cresceram vendo Alan Shearer, Paul Gascoigne, Michael Owen, Theo Walcott e Wayne Rooney talvez não saibam que o fenômeno nos anos 70 era um brilhante rapaz londrino que atuava no improvável West Bromwich. Sabem menos ainda do seu drama e da sua morte, o fim de uma espiral triste que trata de decadência e sonhos partidos por lesões comuns no esporte.

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