Times memoráveis do Brasileirão: 1998, o Corinthians de Marcelinho

Tecnicamente não dá para comparar. Aquele time é totalmente superior. Tínhamos um quadrado no meio de campo que não dá pra comparar, um ataque que não dá comparar. É muito desproporcional. (Marcelinho Carioca, sobre o time de 1998/99)

Depois de alguns anos comendo o pão que o diabo amassou, o Corinthians voltou a ser campeão brasileiro. Em 1998, um time simplesmente incrível foi escalando até a conquista, em uma campanha impecável sob o comando de Vanderlei Luxemburgo.

No auge, o técnico montou uma estratégia que tirava o máximo dos seus atletas, igualmente em grande fase. Marcelinho Carioca, o capitão e líder do elenco, jogou o fino da bola até a decisão. Tanto é que o ‘Pé de anjo’ foi o vice-artilheiro, com 19 gols, dois a menos que Viola, que estava no Santos.

A formação era sólida e contava com grandes pilares em cada posição. Nei e Maurício se revezavam na meta, o monstro Gamarra liderava a zaga ao lado de Batata (ou Cris). Sylvinho e Índio faziam as laterais, (Gilmar Fubá) Vampeta e Rincón fechavam os espaços como volantes, Ricardinho, Marcelinho, Edílson e Mirandinha completavam o meio e o ataque, com Didi e Dinei alternando em algumas ocasiões.

A arrancada

Logo de cara, para a primeira rodada, o Timão enfrentou o Vasco em um grande jogo no Maracanã. Venceu por 1–0, com um golaço de falta de Marcelinho. O chute pegou uma curva maldosa e venceu o arqueiro Caetano. O Cruzmaltino até tentou empatar, mas esbarrou em Gamarra, bem posicionado em cima da linha após uma finalização de Juninho Pernambucano. No geral, os paulistas criaram mais chances e mereciam um placar maior.

Novas vitórias fizeram o Corinthians de Luxa embalar: 4–0 contra o Juventude, 2–1 contra o Grêmio e 5–1 contra o Atlético Mineiro. A equipe começou a oscilar com alguns empates e derrotas fora de casa. Tudo voltou ao normal na 11ª rodada, quando o Timão fez 3–0 na Portuguesa.

A máquina que também tirava cochilos

Um jogo maluco foi o destaque na 13ª jornada, quando a equipe de Parque São Jorge pegou a Ponte Preta, em Campinas. Os visitantes chegaram a abrir 5 a 1 de vantagem, mas Sandro Gaúcho brilhou e quase conseguiu o empate para a Macaca. O atacante, que teria status de ídolo no Santo André, fez três gols. Vander marcou o outro pontepretano. Final: 5–4, quem diria?

A partida contra a Ponte deixou o Corinthians desnorteado com os quatro gols sofridos. Depois disso, foram três derrotas seguidas para Cruzeiro (1–2), Santos (0–2) e Palmeiras (1–3), um empate em 2–2 com o Goiás e uma surra fora de casa sofrida contra o Flamengo (1–4), chegando a estar com 4–0 contra. A dúvida começou a rondar o Parque São Jorge, e, prestes a iniciar a segunda fase, o time voltava a jogar bem um dia e se distrair demais no outro.

Individualmente, os corintianos estavam com um desempenho absurdo. Sobretudo Marcelinho, que decidiu muitos confrontos com seus passes e bom posicionamento para finalizar. Edílson fez jus ao apelido de ‘Capetinha’ e infernizou os beques com as suas fintas ligeiras. Nem dentro da área ele se sentia inibido para driblar. Tanto que terminou com 15 gols na competição.

As memoráveis séries de três partidas

Foi a partir da 21ª rodada que o Corinthians bateu no peito e mostrou que seria campeão. Com três vitórias contra São Paulo (2–1), Vitória (3–2) e América-RN (2–1), o Timão terminou em primeiro lugar na tabela, com 46 pontos, um a mais do que o Palmeiras, que vinha logo atrás. Somando 14 vitórias, quatro empates e cinco derrotas, o esquadrão alvinegro parou de vacilar na hora do mata-mata.

Foto: IG
Foto: IG

Como o regulamento do Brasileirão previa um play-off de três partidas, o Corinthians se cansou de desafiar o perigo e bateu o Grêmio após três duelos equilibradíssimos, com duas vitórias. Venceu por 1–0 no Olímpico, com um golaço de Rincón fora da área; perdeu no Pacaembu por 2–0 em um jogo eletrizante (Itaqui e Clóvis); e depois bateu novamente os gaúchos, fechando a série, no Pacaembu. Edílson, de cabeça, quase em cima da linha, resolveu as quartas de final para o Timão. 1–0.

Clima quente contra o Peixe

Para as semifinais, o Corinthians pegou o Santos de Emerson Leão e fez a primeira partida na Vila Belmiro. Escoltado pela polícia, Luxemburgo ouviu gritos de ‘MERCENÁRIO! MERCENÁRIO!’ enquanto era atingido por moedas que voavam das arquibancadas. Em campo, um jogo acirradíssimo. No começo, Gamarra subiu para marcar de cabeça e colocar o Timão em vantagem. Mas Viola e seus companheiros não iriam facilitar as coisas. Robson Luís empatou ainda no primeiro tempo. Quando o confronto se aproximava do fim, o abafa santista deu resultado. De cabeça, Viola testou para virar, 2–1.

No Pacaembu, a história da tarde de 6 de dezembro foi marcada pela grande atuação corintiana. Muitas tabelinhas de efeito, jogadas que mostravam o talento de um elenco predestinado. Não fosse Zetti, o placar teria sido elástico para os donos da casa. De pênalti, após uma confusão com Viola e Argel, Marcelinho bateu rasteiro no canto direito e fez o primeiro. Narciso foi expulso antes do intervalo. Quando caiu a tarde no Pacaembu, Marcelinho achou um belo cruzamento, bem na cabeça do baixinho Edílson. 2–0.

Foto: Corinthians 1910
Foto: Corinthians 1910

Três dias depois, o terceiro embate. Novamente no Pacaembu, já que o Timão era dono de uma melhor campanha e podia decidir em casa. Luxemburgo e seus comandados só precisavam de um empate e foi exatamente isso que conseguiram. A vontade era tanta, que Marcelinho e Rincón discutiram em campo após um lance meio fominha do camisa 7. Foi o primeiro de muitos entreveros dos dois atletas.

Viola, sempre ele, aproveitou boa descida de Robson Luís pela direita e só cutucou para a rede, dando tons de drama ao clássico paulista. 1–0 para os santistas. Foi o último gol do atacante no torneio, antes de sair com um cartão vermelho, revoltado e levado pela polícia para os vestiários. Ele acabou como o maior goleador do Brasileirão de 1998. Coincidentemente, a campanha do Peixe também terminaria ali, em um lance imprevisível de Edílson. O Capetinha recebeu de Índio, ajeitou com a esquerda e limpou a marcação para bater seco no canto. Uma pintura, que deu a vaga na final, 1–1.

Reencontrando o algoz Cruzeiro

O Cruzeiro de Levir Culpi vinha embalado com Muller, Fabio Júnior e Marcelo Ramos a todo vapor. No Mineirão, para o primeiro jogo da decisão, Muller e Valdo (de falta, com desvio na barreira) abriram vantagem para a Raposa, que vencia por 2–0 já no início do segundo tempo.

A reação alvinegra veio com Marcelinho, Edilson e… Dinei. O atacante recebeu um passe curto do Capetinha dentro da área, após boa jogada coletiva. Meio sem jeito, o grandão empurrou para o gol, no canto de Dida. Nei quase levou um frango em jogada de Marcelo Ramos, mas o Corinthians escapou do terceiro.

Mais tarde, outro contragolpe corintiano. Outro lance bom de Dinei. Ele cruzou na cabeça de Marcelinho, que de frente para Dida, testou para o fundo do barbante: 2–2. Embalado, o Timão apertou os donos da casa e por pouco não conseguiu a virada.

Dinei, o salvador improvável

O Morumbi lotou em 20 de dezembro, para o segundo ato da final do Brasileirão. Diante de sua torcida, o Corinthians saiu para o ataque para tentar abrir o placar cedo no primeiro tempo. Rincón fez de cabeça, em rebote de Dida no meio da área. Porém, o auxiliar forçou a barra e anotou impedimento, mesmo com Valdo dando condição por questão de metros ao colombiano, no outro canto.

Quando Luxemburgo trocou Didi por Dinei, na segunda etapa, o magrão novamente mostrou resultado. Entrou na área, dominou já aplicando um chapéu em Dida e soltou ainda no ar para que Marcelinho chegasse batendo. 1–0. O empate cruzeirense veio em lance ousado de Muller: o atleta cruzou no segundo pau, Nei errou a saída, Caio tocou para trás, em cima da linha de fundo e Marcelo Ramos completou, 1–1. Mais uma vez, igualdade no placar e na decisão.

O troco final

Foto: O Tempo
Foto: O Tempo

Novamente podendo empatar, o Corinthians entrou para enfrentar o Cruzeiro em uma terceira oportunidade na decisão, a quarta no campeonato. Até aquele momento, dois empates e uma vitória cruzeirense. Era a hora do troco?

O único problema era que Dida estava inspirado e não iria deixar o Timão vencer com facilidade. Para a Raposa, a única coisa que interessava era a vitória, que passou longe de se concretizar no Morumbi, em 23 de dezembro de 1998.

A Fiel ganhou um ótimo presente de natal. Com o atropelamento praticado pelo Corinthians na segunda etapa, o título virou questão de tempo. Nos últimos 25 minutos, o Cruzeiro mostrou suas garras e quase chegou lá, com Fabio Júnior, que naquele momento, não foi carne e unha com a bola. O chute saiu rente à trave de Nei. Cinco minutos depois, Edílson recebeu um passe magistral de Dinei por entre a defesa, saiu para dar o drible em Dida e rolou para o gol. 1–0.

O mesmo Dinei, endiabrado, dominou na direita, fintou o zagueiro e cruzou para o meio. Desmarcado, Marcelinho correu para dar o peixinho que consagrou uma campanha avassaladora, apesar dos tropeços na primeira fase e do sufoco contra o Grêmio, nas quartas. Se o Pé de anjo ainda precisava de um grande título para entrar de vez no coração do corintiano, aquela taça de 1998 deu cabo no serviço. Foram muitos gols de falta e com habilidade marcados até aquele toque de cabeça, na saída de Dida.

Corinthians bicampeão brasileiro, com a genialidade de Marcelinho, os gols surpresa de Edílson e a aparição crucial de Dinei nos jogos finais. No ano seguinte, a mesma base de atletas conquistou novamente o Brasileirão, em cima de outro mineiro, o Atlético. Mas aí teríamos de contar outra história…

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