O homem que ousou enfrentar o catenaccio italiano. E perdeu

Na história do futebol, as defesas sempre ganharam dos ataques. Por exemplo, o futebol italiano é bem diferente do brasileiro, pois os brasileiros defendem com quatro atletas e os italianos com oito. É outro estilo. A Grécia, que foi campeã europeia em 2004, dava um ou dois ataques e se preocupava excessivamente em defender. (Michel Platini, sobre o catenaccio praticado pela Itália)

Nos anos 1960, a Itália ganhou fama internacional pelo perfil defensivo e que corria poucos riscos em campo. Forte na marcação e eficiente nas saídas de contragolpe, naturalmente o país formava mais bons zagueiros, laterais e líberos do que atacantes, muito embora tivéssemos atletas de fina classe neste ofício nas décadas seguintes. Baggio, Donadoni, Giannini, Del Piero, Vialli, Totti, Signori, Mancini, entre outras feras.

Pois bem, o catenaccio, que serviu para tirar toda a magia de um esporte que na prática deveria ser aquele praticado por Pelé e Garrincha, virou escola na Itália e demorou até ser substituído por sistemas mais atraentes aos olhos. Até hoje, algumas heranças da filosofia iniciada por Karl Rappan na seleção da Suíça estão presentes na Velha Bota. Curiosamente, apesar dos times do país terem se tornado vencedores com esta tática cautelosa e retranqueira, pouco se fez para que a criatividade tivesse lugar nos planos de jogo.

A defesa e o controle do líbero na bíblia do catenaccio

Quem joga o catenaccio, assume que a eficiência é a chave para a vitória, não a determinação e o talento. O sistema consiste, de forma resumida, em trabalhar para tirar os espaços dos atacantes através de marcação por zona, e, caso eles percam a bola em posição desprivilegiada, a armação de contragolpes é a arma principal desta escola.

Os líberos, ícones do esquema, ficavam com a marcação pessoal, com o apoio aos outros marcadores e por fim, coordenavam o avanço das linhas de trás. Nomes como Baresi, Beckenbauer e Matthäus são os principais nesta função. Não raro, as partidas dos grandes italianos na Europa, assim como as da própria Itália, terminavam com vantagem mínima.

O imponderável, o drible, a arte, a surpresa e a emoção só vieram mesmo com os atletas estrangeiros, que povoaram as equipes das Series A e B a partir da década de 1980. Brasileiros e argentinos ajudaram a colorir um pouco o futebol rudimentar e tedioso praticado naqueles gramados. Por mais que a Juventus de Platini, a Roma de Falcão, a Fiorentina de Antognoni e o Napoli de Maradona não fossem equipes que priorizavam a defesa ao ataque, o estrago à reputação dos italianos já estava feito por anos de mesmice e rigor tático pelos homens da zaga.

O surgimento do tcheco fumeta

Coube a um homem tentar tirar o esporte na Itália da pasmaceira: o tcheco Zdenek Zeman. Chegou ao país na década de 1970, com a ajuda do tio Cestmir Vycpalek, técnico da Juventus, e assumiu inicialmente equipes jovens do Palermo, onde começou a implantar os seus ensinamentos. A preocupação de Zeman era inovar o futebol o bastante para ser lembrado eternamente pela sua contribuição.

O que ele fez desde o início? Mudou a mentalidade de seus jogadores para que eles buscassem o gol a qualquer custo, com passes diretos e pressão na saída de bola do adversário. Com esses ideais, passou pela base do Palermo e treinou o Licata, o Parma, o Foggia e o Messina sem grande impacto, até voltar ao Foggia, em 1989. Aí começou a magia do tcheco.

O período de ascensão da equipe rossonera ficou conhecido como ‘Zemanlândia’, um oásis ofensivo no meio dos sonolentos duelos que aconteciam no país. O Foggia era destemido e muitas vezes pagava o preço pela sua postura ultrajante de querer fazer vários gols na mesma partida. Foram duas temporadas para que o time deixasse a terceira divisão para figurar entre os grandões da Série A. E nem assim Zeman aprendeu a se resguardar.

Mas era bonito ver aquele Foggia. Que não trabalhava com a predisposição de cansar a defesa adversária com passes, mas fazia os espaços aparecerem com uma movimentação inteligente e rápida. Qualquer brecha do oponente era convite para um chute. E assim Zeman ficou famoso na Itália com o seu insolente 4–3–3. Treinou o Foggia até 1994 e foi para a Lazio. Dizem que foi o responsável pelo lançamento de Alessandro Nesta à equipe titular. Fez boas campanhas e brigou pelo título até ser demitido em 1997, quando assinou com a Roma. Nesse período, ajudou no desenvolvimento de um certo jovem chamado Francesco Totti.

O doping na Juventus

Enquanto a Juventus competia na frente europeia, Zeman ficou intrigado com o desempenho dos atletas e chegou a acusar o clube de dopar seus principais craques. Del Piero e Vialli eram os alvos. Mesmo assim, a Juve nunca encarou nenhuma punição esportiva grave, quando a Justiça provou que houve mesmo doping no início da década de 1990.

A atitude de peitar a supremacia juventina custou caro a Zeman. Passou a ser odiado por grande parte da torcida como um detrator da potência bianconera. Seus trabalhos, que apenas rendiam campanhas dignas e nada mais, passaram a ser questionados. A ‘Zemanlândia’ virou uma forma simplista e romântica de atacar quase que de forma inconsequente, deixando a defesa desguardada para o ataque. O que sempre foi a principal falha no plano do treinador.

Os zagueiros das formações do tcheco sempre atuavam muito adiantados, tentando acionar a linha de impedimento. Em virtude disso, sofriam três, quatro gols em partidas normais. O desequilíbrio tornou o sistema kamikaze em mais um mero fracasso no futebol italiano.

A queda

Depois de sair da Roma, em 1999, Zeman viveu anos de nômade, Europa afora. Treinou Fenerbahce, Salernitana, Avellino, Lecce, Brescia e Estrela Vermelha de Belgrado antes de reencontrar o Foggia, em 2010. Assumiu o Pescara no ano seguinte e subiu de forma memorável com a equipe para a Serie A.

Na campanha em questão, o título do Pescara veio com 83 pontos, os mesmos do vice-líder Torino. Mas com uma peculiaridade: o cartel de 26 vitórias, 5 empates e 11 derrotas. Foram 90 gols marcados e 55 sofridos, com saldo de +35. O Toro, que ficou logo atrás, por exemplo, marcou 57 e sofreu apenas 28. Além de ter perdido apenas sete duelos. Com Zeman foi sempre assim: matar ou morrer. E este homem morreu diversas vezes com o seu peito de aço e sua expressão mal-humorada por detrás da fumaça dos seus maços de Marlboro.

A ressurreição e a nova queda de Zeman

O sucesso ofensivo e a revelação de nomes como Insigne, Verratti e Immobile no Pescara serviu como credencial para que Zdenek retornasse à Roma, em 2012–13. Mas a volta foi um pesadelo na sua carreira. Sabe como é viver na montanha-russa? então, Zeman curtia um passeio enquanto acendia seus infindáveis cigarros no banco de reserva.

Foto: Tuttosport
Foto: Tuttosport

Enquanto a enfisema pulmonar não vinha, ele estava lá, à beira do campo, maluco e berrando com seus jogadores. A sua Roma foi a marca de uma desgraça. Estava em oitavo na tabela, com o time sofrendo para não levar mais de dois gols por jogo, quando foi demitido em fevereiro de 2013. No fim, a equipe acabou em sexto, com incríveis 12 derrotas e 56 gols sofridos. O seu ex-clube, Pescara, coitado, caiu como lanterna e com 84 tentos concedidos.

Quando Zeman finalmente foi demitido para impedir mais um calvário romanista, o meia Pjanic falou à imprensa e criticou as táticas do tcheco.

Alguma coisa tinha de mudar, mas não tínhamos o equilíbrio correto. Tudo isso conta para o que consideramos como melhor para a Roma. Nosso estilo totalmente ofensivo era a principal arma, mas também nosso ponto mais fraco. Precisamos trabalhar duro para subir novamente na tabela. (Pjanic, após a queda de Zeman)

O seu último trabalho foi com o Cagliari, em duas passagens durante 2014 e 2015. A última durou apenas cinco rodadas e o time conseguiu apenas um ponto nesse intervalo. O time da Sardenha foi rebaixado.

O que Zeman conseguiu com a sua ousadia? Quase nada. Foi campeão da C2 com o Licata, da Série B com o Foggia em 1991 e com o Pescara em 2011. Muito pouco para quem queria revolucionar. A excursão de Zeman à Itália terminou com o dissabor de ter falhado com a sua proposta, que pode até ter sido interessante e anti-catenaccio, mas não conseguiu provar que a velha escola italiana precisava se reinventar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *