De Geoff Hurst a Laura Bassett: a maldição da seleção inglesa

Bom, eu não tenho um auxiliar russo para me ajudar com essa questão. Se apenas o bandeirinha Tofik Bahramov estivesse aqui agora, eu apertaria a sua mão e agradeceria a ele pelo meu hat-trick na final da Copa do Mundo. Eu carreguei este fardo comigo por mais de 40 anos, mas tenho de admitir que a bola não ultrapassou a linha. (Sir Geoff Hurst, sobre o gol polêmico da Inglaterra contra a Alemanha, na final de 1966)

A superstição tem um lugar especial no folclore do futebol, desde que o esporte é praticado pela aristocracia inglesa e por operários que aprenderam com Charles Miller a jogar bola no Brasil, no início da década de 1900. Temos grandes histórias sobre maldições ou mandingas que vingaram, como a de Béla Guttmann, que condenou o Benfica a passar 100 anos sem títulos na Europa por ter sido demitido após o bicampeonato da Copa dos Campeões. Outra que é tão importante quanto é a da Inglaterra.

Veja bem, os ingleses inventaram o esporte como conhecemos. Apesar de não terem feito muito para aperfeiçoá-lo ao longo dos anos, são mesmo considerados os ‘donos’ do futebol. Muitos se referem ao jogo como o ‘esporte bretão’, como forma de reconhecimento. Fato é, que, entre seleções, nas Copas do Mundo e em Eurocopas, os ingleses não conseguem desempenhar a sua tradição em campo.

O gol fantasma

Foto: The FA
Foto: The FA

O único título inglês em Mundiais aconteceu em 1966, em seu território, de forma controversa. Geoff Hurst comandou o time e marcou três gols contra a Alemanha, sendo o herói da conquista diante do seu povo. O placar terminou em 4 a 2, na prorrogação. Martin Peters marcou o outro gol dos anfitriões.

Mas você há de se lembrar que o terceiro tento da Inglaterra é até hoje o segundo mais polêmico de todas as Copas. Hurst recebeu um passe da lateral, dominou e girou. Chutou e a bola bateu no travessão antes de quicar no chão. O auxiliar Tofik Bahramov assinalou que viu gol e ajudou os mandantes a caminharem até a taça.

Depois desse gol, a Inglaterra nunca mais ganhou nada em suas seleções profissionais. Seus clubes fizeram sucesso, como Manchester United, Liverpool, Ipswich, Everton, Tottenham, Nottingham Forest, Aston Villa e Chelsea. Todos eles conquistaram a Europa em algum momento, seja pela Copa dos Campeões, Copa da Uefa ou Recopa Europeia. A nação, em si, vive à sombra daquele gol fantasma de 1966 e desde então viveu eliminações dramáticas como prova de que algum alemão rogou uma praga naquela tarde de 30 de julho de 1966, em Wembley. Provavelmente o goleiro Hans Tilkowski.

Todas as eliminações da Inglaterra (Mundiais e Euros)

1968, Itália: a primeira grande competição da Inglaterra depois de 1966 terminou em choro. Na Itália, pela Euro, a Iugoslávia levou a melhor nas semifinais, por 1-0. Dzajic foi o primeiro de muitos algozes ingleses em torneios internacionais.

*Apenas quatro clubes participavam da fase final da Eurocopa, até uma revisão do formato, em 1980.

1970, México: os ingleses chegavam com a pompa de defensores do título. O time era basicamente o mesmo e foi eliminado nas quartas de final. Contra quem? A Alemanha. A primeira vingança veio por 3–2, na prorrogação. Gerd Müller foi o algoz naquela ocasião.

1972, Bélgica: não se classificou para o torneio.

1974, Alemanha: não se classificou para o torneio.

1976, Iugoslávia: não se classificou para o torneio.

1978, Argentina: também não se classificou.

1980, Itália: caiu na primeira fase, no grupo B, com um empate, uma derrota e uma vitória (contra a Espanha, por 2–1)

1982, Espanha: depois de uma primeira fase empolgante, com três vitórias, a Inglaterra caiu no segundo agrupamento que definiria os semifinalistas da competição. Aí, contra Espanha e Alemanha, dois empates em 0–0 eliminaram a geração de Kevin Keegan e Glenn Hoddle.

1984, França: não se classificou para o torneio.

1986, México: caiu nas quartas de final, para a Argentina, com atuação esplendorosa de Diego Maradona. Em pouco mais de cinco minutos, o camisa 10 fez um gol com a mão e outro em jogada individual deixando cinco atletas para trás antes de balançar as redes. A partida ficou conhecida como ‘a Mão de Deus’. O placar foi de 2–1, Gary Lineker diminuiu no fim.

1988, Alemanha: foi lanterna do grupo B com três derrotas. Perdeu para Irlanda (1–0), Holanda (3–1) e União Soviética (3–1). Socorro!

1990, Itália: perdeu nas semifinais para a Alemanha, outra vez, agora nos pênaltis. No tempo normal, empate em 1–1, gols de Andreas Brehme e Lineker. Quando a segunda etapa esquentava, um lance desestabilizou a equipe treinada por Sir Bobby Robson: Paul Gascoigne entrou de carrinho em um adversário e levou o seu cartão amarelo no torneio. Avisado que seria suspenso, o meia caiu no choro e foi a imagem daquela Copa tediosa. Stuart Pearce e Chris Waddle perderam suas cobranças. A Alemanha foi campeã.

1992, Suécia: lanterna da chave A, com dois empates em 0–0 contra Dinamarca e França e uma derrota por 2–1 para a Suécia.

1994, Estados Unidos: não se classificou para o torneio.

1996: Inglaterra: 30 anos depois de vencer a Copa em solo inglês, a seleção liderada por Alan Shearer e Paul Gascoigne chegava para tentar levar a Euro pela primeira vez em sua história. Passou pela primeira fase com boas atuações, eliminou a Espanha nos pênaltis, mas caiu nas semifinais. Adivinhem para quem? Ela mesma, a Alemanha. Outra vez em penalidades. Com o placar de 1–1, (Shearer e Stefan Kuntz) O mesmo roteiro de sempre se repetiu, agora com Gareth Southgate como vilão, errando o último chute. Não foi desta vez, Inglaterra.

1998, França: a geração de Beckham também passou em branco. Foi eliminada pela Argentina, nas oitavas de final, em disputa de pênaltis. Ô time pra gostar de penalidades, hein? Michael Owen roubou a cena com um gol magnífico, a virada inglesa diante da Albiceleste. Beckham foi expulso por reagir a uma catimba de Simeone e o time desmontou a caminho da prorrogação. Zanetti fez 2–2 e contou com o goleiro Roa, que fechou o gol naquela tarde. Quando chegou a hora de bater penais, Paul Ince e David Batty desperdiçaram e mais uma vez, a Inglaterra caiu fora do torneio.

2000, Bélgica/Holanda: foi eliminada como terceira colocada no grupo A. Perdeu para Portugal por 3–2, ganhou da Alemanha (finalmente) por 1–0 e acabou caindo ao levar uma virada por 3–2 contra a Romênia. Ionel Ganea fez o gol da vitória romena, aos 44 do segundo tempo, de pênalti. Que horror.

2002, Coreia do Sul/Japão: mais um grande AGORA VAI na história da Inglaterra. Na primeira fase, sobreviveu ao grupo da morte contra Argentina, Suécia e Nigéria. Até se vingou da Argentina e ajudou a eliminar Batistuta e seus colegas. Passou da Dinamarca nas oitavas, com boa vitória e enfrentou o Brasil pelas quartas. Começou na frente, com gol de Owen, mas concedeu a virada. Rivaldo e Ronaldinho, naquele maravilhoso chute por cobertura, frustraram mais uma vez o plano dos ingleses, que eram treinados por Sven-Goran Eriksson. 2–1 no placar.

2004, Portugal: novamente, Eriksson x Felipão. Beckham era o capitão de uma equipe repleta de talentos, mas que por alguma razão, também fracassou em tudo que disputou. Contra Portugal, nas quartas, um belo 2–2 (Owen, Lampard, Rui Costa, Postiga) chamou as penalidades. Aí, meu amigo, a maldição falou alto. Beckham escorregou e chutou na lua, Vassel também errou e consagrou o goleirão Ricardo, que defendeu um e ainda bateu para eliminar os ingleses. Francamente…

2006, Alemanha: entre os maiores algozes da Inglaterra, certamente figura o técnico Luiz Felipe Scolari. Técnico do Brasil em 2002, Felipão treinava Portugal na campanha de 2006. Dois anos antes, pela Eurocopa, tirou os ingleses. Repetiu a dose nas quartas do Mundial, em um empate por 0–0 levado para os pênaltis. Aí, os portugueses fizeram 3–1 nas cobranças.

2008, Suíça/Áustria: não se classificou para o torneio.

2010, África do Sul: outra vez a Alemanha. Agora nas oitavas de final. Só que desta vez, o roteirista da Copa caprichou na ironia e resolveu castigar a pobre Rainha Elizabeth com uma vingança descarada por 1966. Não bastassem as outras quatro eliminações diante dos alemães, esta de 2010 foi a mais icônica.

Uma goleada por 4–1, com gols de Klose, Podolski, e Müller (2x). Upson diminuiu para a Inglaterra, que já estava desanimada no segundo tempo. O lance capital foi mesmo o gol de Lampard não marcado. O meia chutou forte e encobriu Neuer, antes de bater no travessão e quicar (lembra 1966?). Só que… dentro do gol. O árbitro Jorge Larrionda não assinalou o gol, para desespero dos ingleses. É triste mesmo passar por isso…

2012, Ucrânia/Polônia (Eurocopa): a Euro de 2012 foi bem legal, não foi? Apesar do bicampeonato da Espanha, tivemos boas histórias para contar. Entre elas, mais uma eliminação nos pênaltis da Inglaterra. Eu sei, eu sei, parece mentira, mas aconteceu. Contra a Itália, um modorrento 0–0 acabou provocando a prorrogação e mais penalidades. Ashley Cole e Ashley Young erraram e maaaais uma vez, ingleses fora. Detalhe: a Inglaterra disputou penalidades em sete ocasiões, por Copas e Euros. Só venceu UMA, contra a Espanha, em 1996. É o pior aproveitamento entre seleções que estiveram em pelo menos três decisões em penais. Aliás, até cansei de usar pênaltis, penais, penalidades, disputa de pênaltis neste texto. 

2014, Brasil: eliminada ainda na primeira fase como lanterna do grupo D. Perdeu por 2–1 para a Itália, por 2–1 para o Uruguai e empatou com a Costa Rica em 0–0.

Foto: Daily Express
Foto: Daily Express

2015, Canadá, Mundial feminino: para encerrar a série de desgraças, a Inglaterra acabou castigada até no seu time feminino. Na semifinal, contra o Japão, as leoas saíram perdendo com gol de Aya Miyama. Fara Williams empatou aos 40, e quando tudo caminhava para as penalidades, as temíveis penalidades, Laura Bassett foi tentar afastar uma bola e encobriu a própria goleira, Karen Bardsley. Isso aconteceu aos acréscimos da segunda etapa, em mais uma prova de que a maldição de 1966 é forte e não pode ser subestimada.

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