Nós somos todos idiotas em insistir na contratação de Ronaldinho

Eu vou fazer um leilão
Quem dá mais pelo meu coração
Me ajude voltar a viver
Eu prefiro que seja você
(César Menotti & Fabiano — Leilão)

Nós somos todos imbecis mesmo de dar mais valor a Ronaldinho do que ele realmente merece. Evidente que há uma certa gratidão ao jogador pelo que ele fez ao futebol e sobretudo por Barcelona e Atlético Mineiro. No entanto, é surreal o número de clubes que foram iludidos com o sonho de contar com o camisa 10 em seu elenco.

Desde que voltou do Milan, em 2011, virou um sinônimo de leilão pela sua assinatura. E a culpa maior é do seu irmão e empresário Assis, um hábil negociador que busca não um lugar ideal para os talentos do atleta, mas sim uma fonte maior de dinheiro. Porque a partir do momento que Ronaldo retornou ao Brasil e disse não ao Grêmio, ficou claro que a sua carreira não seria mais guiada pela competitividade.

Natural, para um jogador depois da faixa dos 30 anos. Que quando quer jogar bola, é absolutamente magnífico. Enxerga espaços como ninguém, consegue fazer passes milagrosos e ainda tem a capacidade de cobrar faltas e bater na bola para colocá-la onde bem entende. O problema é que cada vez menos isso tem acontecido.

Vamos relembrar rapidamente a carreira de Ronaldinho desde o seu desembarque no Brasil, em 2011: em um ano e meio, pelo Flamengo, o atleta demonstrava pouca vontade de decidir as partidas e quase sempre jogou abaixo do seu potencial. Foi para o Atlético Mineiro, desacreditado, com pecha de mercenário. Incrivelmente, recuperou o brilho e foi fundamental no maior período da história do Galo, com direito a título da Copa Libertadores e da Recopa Sul-Americana. Saiu poucos meses antes da conquista da Copa do Brasil em 2014. Ponto.

Por alguma razão, quis sair do Atlético, em 2014. Alguns diziam que propostas interessantes do exterior haviam virado a cabeça do veterano, que ainda tinha lenha para queimar no futebol. Não aconteceu bem o que a mídia esperava e R10 foi para o obscuro Querétaro, onde manchou ainda mais a sua história com sumiços e atrasos em treinamentos.

Foi praticamente chutado do clube mexicano, que nunca teve tradição alguma no seu país e busca o respeito que o brasileiro não conseguiu demonstrar na sua breve passagem. Agora, ele está praticamente acertado com o Antalyaspor, da Turquia, pouco depois de iludir o Vasco sobre um possível acordo.

O Vasco não foi o único iludido nessa história. O Cruzeiro, que por tantos meses tentou atrair o meia com cifras e mais cifras, acabou recusado. Nesse caso, em especial, Ronaldinho afirmou que não iria para o rival de um time por qual foi tão feliz. Há certo romantismo por trás desta enrolação, devemos admitir. Sem clube, o jogador passou perto de fechar com o Vasco e com a Raposa.

No ano passado, o Palmeiras assinou um atestado de trouxa ao levar a terceira negativa do atleta, no dia do seu aniversário de 100 anos. O presidente Paulo Nobre esperava anunciar o craque no jantar do centenário, mas acabou comendo um bolo sem graça e perdeu a contratação para o Querétaro. Não dá pra dizer que não foi merecido.

Agora, cabe voltar um pouquinho no tempo e atentar para um detalhe: em todas essas negociações, até mesmo a do Grêmio, que chegou a colocar caixas de som no gramado, anunciando que estava 99,9% certo com o meia, um elemento em comum serviu para tratar as conversas como um verdadeiro leilão: Assis. Ele, que adora fazer jantares em churrascarias para tentar vender os serviços do irmão. Ele, que assim como o pai de Neymar, viu uma chance de ouro de encher os bolsos, procurando ‘melhores ofertas’.

É ingênuo pensar que o dinheiro não faz diferença no futebol. Contudo, ninguém perde mais moral e idolatria que Ronaldinho, que acaba seguindo o rumo da grana, ignorando o que pode ser esportivamente melhor para a sua carreira. Ao contrário de Robinho, como tratamos aqui ontem, Ronaldinho está sim nos seus últimos anos. Aos 35, o meia ganhou tudo que um atleta poderia querer na vida. Copa do Mundo, Liga dos Campeões, Libertadores, fora os caminhões de dinheiro.

Assis trata como mero leilão de churrascaria uma trajetória vencedora, brilhante e invejável. Poucos deram dribles desconcertantes como Ronaldo, poucos tem o mesmo currículo, troféus e proezas como atleta. Estaria ele passando por um processo de Dariomaravilhização? Uma série de contratações desimportantes, atuações desinteressadas, só para que a torcida se sinta iludida por ter o jogador como atração no seu estádio?

E por que é tão caro contratar um veterano de 35 anos que oscila entre a preguiça e a genialidade, cada vez mais desapegado do esporte? (Novamente, com certa naturalidade, afinal, já são quase 20 anos de carreira) Nunca saberemos se Ronaldinho ainda quer viver do futebol ou se apenas continua nessa por exigência do irmão, um grande monetizador de talento.

Enquanto Assis quiser milhões para colocar seu irmão em Antalyaspors, Querétaros ou Américas de Teófilo Otoni da vida, nós é que seremos idiotas em pagar o preço que ele cobra. Como várias outras coisas supervalorizadas no mercado. É o chamado ‘custo-trouxa’, que ao contrário do que dizem, não é só uma lenda. Sempre que houver alguém disposto a pagar, há uma precificação exagerada. Pobre do futebol.

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