Como Hagi virou ídolo e comandante do Galatasaray

Foi algo especial para todos que estavam no Galatasaray naquele tempo. Que acreditaram que podíamos vencer o Arsenal e ganhar a taça? Eu joguei bem, apesar de ter sido expulso. Mesmo depois de tantos anos, não penso que merecia ter levado um cartão vermelho, mas aquilo de forma alguma se sobrepôs a como foi maravilhoso um time turco vencer pela primeira vez um torneio europeu. Essas memórias e o carinho da torcida vão ficar comigo para sempre. (Gheorghe Hagi, sobre o título da Copa Uefa, em 2000)

Gheorghe Hagi é um dos únicos jogadores do mundo que conseguiram ser mais famosos que o seu país de origem. Romeno e líder da sua seleção em uma icônica caminhada para as quartas de final da Copa de 1994, Hagi é até hoje e de longe, o maior atleta que a Romênia já viu em sua história. Também o mais talentoso deles.

Mais uma estrela na constelação dos anos 1990

Para que se entenda o fenômeno que ‘Gica’ representou no seu auge, é preciso levar algumas coisas em consideração. Primeiro, o fato de ele sair de um país que não tinha tradição em revelar grandes jogadores (O mesmo se aplica à Bulgária de Stoichkov, contemporânea do romeno). Em segundo, uma enorme concorrência de craques igualmente brilhantes. No fim dos anos 1980 e início dos 90, tivemos caras como Gullit, Laudrup, Baggio, Raí, o próprio Stoichkov, Zidane, Cantona, Valderrama, Maradona, entre outros astros internacionais. Por último, a dificuldade de se acertar em uma equipe grande.

Hagi começou em 1982, no Farul Constanta, passou pelo Sportul Studantesc e Steaua Bucareste, esses só na Romênia. Em 1990, depois de uma boa Copa do Mundo, assinou com o Real Madrid. Teve dificuldades em se firmar e foi vendido em dois anos para o Brescia. Tragicamente, o time italiano acabou rebaixado logo na sua temporada de estreia e só voltou antes que o meia disputasse a Copa do Mundo, nos Estados Unidos, uma das suas grandes atuações na carreira.

O Mundial de 1994 rendeu uma venda ao Barcelona, onde Hagi passou mais duas temporadas. Chegou como grande astro, mas passou em branco sem títulos, assim como no Real. Havia sido campeão só pelo Steaua, em três edições do Campeonato Romeno e duas da Copa da Romênia. Foi em 1996 que o atleta deu o último passo de sua trajetória, assinando com o Galatasaray, aos 31 anos.

O Rei de Istambul

Foto: Libertatea.ro
Foto: Libertatea.ro

Era hora de mostrar que poderia ser campeão por uma equipe de massa. Tanto é que Hagi foi fundamental no processo de popularização do Galatasaray no fim da década de 1990. O time virou um dos queridinhos da Europa pelas suas façanhas e claro, pelo título da Copa Uefa em 2000. Considerado o ‘Maradona dos Cárpatos’, o romeno chegou com status de rei em Istambul para vestir a camisa 10.

Muito se esperava do jogador como referência e líder de um clube sedento por títulos. Com Hagi, eles vieram. Então, logo, a espera de um casou com a agonia do outro. Um time que precisava de um maestro que soubesse o caminho para as vitórias e um atleta que precisava de um lugar para reinar. Ao longo de cinco anos, os torcedores do Gala sentiram como era ter um time que batesse de frente com os grandes do continente. Real Madrid, Milan, Arsenal, para falar apenas em decisões, sentiram a fúria de Gica e seus colegas.

Foram 192 jogos, 73 gols, quatro títulos do Campeonato Turco, dois da Copa da Turquia, uma Copa Uefa e uma Supercopa da Uefa, esta em cima do Real Madrid, com direito a humilhação em cima de Roberto Carlos. Um drible que ficou para a história. O resto, um verdadeiro baile dos turcos contra os madridistas. 2–1, mais uma taça para o Gala.

A primeira e única conquista de um time turco na Europa

A maior provação que aquele Galatasaray passou, certamente foi contra o Arsenal, em uma final europeia. Era uma luta com toda a tradição dos Gunners, um time espetacular que três anos depois conquistaria o Campeonato Inglês de forma invicta. Toda a superioridade de Wenger e seus comandados, foi transformada em poeira pela determinação dos azarões.

Sim, você pode dizer que um empate em 0–0 pouco importa em um confronto assim, mas para o Galatasaray, significou um bilhete de entrada no hall dos campeões europeus. Ali, pela primeira vez, um representante da Turquia era o melhor do continente. Anos e anos complicando a vida dos gigantes finalmente valeram de algo para Hagi e sua destemida equipe.

Treinado por Fatih Terim, o mais notável técnico que a Turquia já teve, naturalmente o Galatasaray foi amadurecendo até virar um verdadeiro concorrente. Reforçado por astros estrangeiros como Taffarel e Popescu, além de Hagi, obviamente, o esquadrão tomou forma.

Cuidado com o azarão

Curiosamente, na primeira fase da Liga dos Campeões de 1999–00, o Gala se classificou como o terceiro da chave H, atrás de Chelsea e Hertha, assim como o Arsenal, que perdeu de Barcelona e Fiorentina. Redirecionados para o terceiro round da Copa Uefa, os dois arrancaram até a decisão.

Foto: Fanatik
Foto: Fanatik

Os turcos derrubaram o Bologna, o Borussia Dortmund, o Mallorca e o Leeds antes da final. Em Copenhagen, valendo o caneco, Taffarel fechou o gol e foi considerado o homem do jogo diante dos Gunners. Durante o tempo normal, o Gala criou as melhores chances, mas falhou em balançar as redes de Seaman. Nas penalidades, 4 a 1 para o Galatasaray. Suker e Vieira desperdiçaram suas cobranças, coroando o romeno e seu bravo elenco.

Além dos estrangeiros do plantel, talentos formados na Turquia foram cruciais para a ótima campanha do país na Copa de 2002. Korkmaz, Penbe, Davala, Buruk, Unsala, Erdem, Sukur e Sas estiveram na Coreia e no Japão, onde terminaram em terceiro lugar no Mundial.

Hagi, por sua vez, se aposentou aos 36 anos. Na campanha de 2000–01, o Galatasaray caiu nas quartas de final da Liga dos Campeões, justamente para o Real Madrid. A Supercopa Europeia contra os madridistas foi a última de muitas conquistas do camisa 10 com as cores do clube de Istambul. Ídolo absoluto da torcida, Gheorghe é chamado de ‘O Comandante’ pelos turcos.

E Gheorghe ficará com a enorme honra de ter sido o maior jogador do Galatasaray e da seleção da Romênia.

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