Lembranças de um Penta através das madrugadas

Uma imagem que eu tenho guardada é levantando o troféu. Tem uma cena que o Lúcio me pega no ombro e eu ergo a taça. O Felipão me colocou nos cinco minutos finais, só que Alemanha já tinha largado o jogo. Todo mundo ali com bandeira e eu doido para ir no banco também, porque tava com tudo pronto lá. O juiz apita o final de jogo, eu corro, pego a bandeira e volto para o campo comemorar. (Kaká, em entrevista ao Globoesporte.com, sobre o Penta)

A aura de que o Brasil tinha de ser campeão no Mundial de 2002 não brilhava desde o início da campanha. Meses antes, o time de Felipão conseguiu no maior sufoco da história uma vaga para a Copa, quase indo parar na repescagem. O elenco não parecia tão genial quanto no passado, mas de alguma forma, o povo continuava confiando como sempre fez.

Não fazia tanto tempo que o país era campeão. Oito anos antes, nos Estados Unidos, veio o tão esperado tetra, que falhou em 1982 com a maior seleção desde os tempos de Pelé. Coube a Romário redimir uma nação apaixonada pelo esporte. Mais ainda pelas vitórias. Nenhuma outra é tão mimada quanto a nossa. E assim, nos acostumamos ao curioso fuso horário da Coreia do Sul e do Japão, para uma Copa curiosa.

Acostumados com os feriados nacionais em dias de jogos do Brasil, os trabalhadores e estudantes se viram frustrados com os horários bizarros. Muito cedo, estávamos prontos, entre cobertas e xícaras de café, para ver as partidas. Lembro bem de tentar ver todos os confrontos possíveis antes de ir para a escola, até queria ter faltado como fiz em 2006 para acompanhar tudo.

Em 2002, eu cursava a sétima série (sim, desculpem, sou novo mesmo) e apesar dos últimos quatro anos do meu ensino fundamental terem sido iguais em termo de melancolia, a Copa ajudou bastante a empolgar a minha geração. Até mesmo porque, poucos meninos e meninas lembravam de 1994. O pouco que sobrou na cabeça se perdia entre brincadeiras e traumas. Tenho pedaços de 94 bagunçados na cabeça. Pênaltis tensos contra a Itália, uma cotovelada de Leonardo, um escudo de Camarões que vinha no chocolate Surpresa e de um Brasil x Holanda (da manchete ‘Koeman diz que vai parar Romário’) em Ourinhos, ao lado dos meus tios. Fora isso, mais nada.

Oito anos depois, eu vivia com a minha mãe, irmã e padrasto em São Paulo. A gente não tinha dinheiro para muita coisa, que dirá para uma camisa nova da Seleção. A última que tive antes de 2002, ainda com três estrelas no peito, se perdeu entre coisas doadas pela minha mãe. Eu estudava em uma escola pública que não colaborou muito na minha formação como cidadão. Aliás, teria sido um bandido mequetrefe se fosse um pouco mais influenciável. O colégio era barra pesada e eu sempre detestei aquilo, o que fez com que eu me distanciasse da vontade de estudar. Até hoje tenho aversão, não é segredo nenhum.

A febre a cada quatro anos

A Copa do Mundo sempre foi meu evento favorito, desde sempre. Adorava colecionar os álbuns, as figurinhas, desenhar os uniformes das seleções. Faz parte da nossa vida ligar certos eventos aos jogos mais importantes do campeonato. Eu sei bem onde estava em cada um deles até o penta. Começou com aquele dramático Brasil x Turquia, onde os turcos foram prejudicados pela arbitragem. Mais do que ver as partidas, queríamos ver as partidas e ficar em casa para festejar o clima de Copa. Precisávamos de um pretexto para faltar na escola, e o Mundial era o melhor deles.

Assisti a Brasil x China em casa, assim como os outros duelos até a final. Quase dormi durante o jogo contra a Costa Rica, estava muito frio e eu deitei no sofá, encolhido para torcer. Não me preocupei em não acordar a minha mãe com os gritos, pois o prédio todo levantou às 3h e pouco para ligar a TV.

Ronaldo, o redentor

Se quatro anos antes, Ronaldo preocupou o país inteiro ao ter uma convulsão pré-final contra a França, em 2002 ele estava no auge da forma. Recuperado de lesões no joelho, o Fenômeno foi o homem-gol que se esperava. Matador, letal, perigosíssimo, o ídolo que todos nós amamos naquele momento. Da minha idolatria clara, Marcos, Cafu, Roberto Carlos, Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho eram os favoritos. Também gostava bastante do Juninho Paulista, muito embora ele pouco entrasse ao longo da competição.

O camisa 9 estava claramente endiabrado. Só não marcou contra a Inglaterra, quando Rivaldo e Ronaldinho deram um show. Quem esquece daquele gol de falta quase do meio-campo, por cima de Seaman? Apesar de nenhum dos gols de Ronaldo terem sido pura arte como ele adorava fazer, driblando loucamente e arrancando com a bola, eles mostravam a capacidade ímpar de finalização. Não à toa, é considerado um dos maiores centroavantes do nosso tempo, rivalizando com Romário, claramente a referência para o ofício.

Por falar em Romário, eu também queria ele lá. Merecia um último adeus em grande estilo. Mesmo como reserva. Teimoso, Felipão preferiu levar Edílson e Luizão para o banco, ambos em fase melhor do que a do Baixinho.

O susto contra a Inglaterra

Depois de passar pela Bélgica (2–0), graças a Marcos, Ronaldo e Rivaldo, a Seleção enfrentaria a Inglaterra. Não era a primeira vez que o Brasil saía atrás no placar. Contra a Turquia, na estreia, o juiz deu uma forcinha para a virada, coisa que não aconteceu diante dos ingleses. O que decidiu aquela madrugada foi a genialidade de Ronaldinho e a aptidão de Rivaldo para jogos importantes. Alguém esquece da falha horrenda de Lúcio na saída, quando ele entregou a bola para Owen marcar? O Brasil só foi buscar o empate no intervalo.

Nos 45 minutos finais, era só correr para o abraço. Um chute que parecia destinado à lua acabou caindo na hora certa, no ângulo de Seaman, que foi um dos últimos atos do arqueiro pela sua seleção nacional. Se aposentou da Inglaterra meses depois, com outra falha icônica: levou um gol olímpico contra a Turquia.

Mais tensão contra a Turquia

Ronaldo tinha de ser o jogador crucial da semifinal contra os turcos, que chegavam com status de zebra, assim como a Coreia, empurrada pela arbitragem caseira na outra semifinal. No entanto, a Turquia vendeu caríssimo a derrota.

Como a memória também trai, precisei confirmar se a vitória brasileira saiu mesmo nos minutos finais do segundo tempo. Não saiu. O gol aconteceu no início do segundo tempo, com um bico providencial do Fenômeno, que durante os 90 minutos tentou bater o paredão Rustu. Uma vez que o Brasil estava na frente, seria quase impossível a pequena Turquia buscar o empate ou a virada. A emoção foi tanta, que valeu até uma viagem no tempo até aquela manhã de 2002. Dá até para sentir o mesmo arrepio e o frio na barriga de esperar outra final, a terceira consecutiva.

Quem dera enfrentar a Alemanha de 2002 em 2014…

Diziam naquele 30 de junho a mesma coisa que dizemos hoje em dia, em 2015. Aquela seleção alemã era fraca tecnicamente. Foi com eficiência e com os gols de Klose que o time treinado por Rudi Völler chegou até a final. Tanto que penou contra a fraca Coreia nas semis. Os únicos jogadores que destoavam do restante eram Kahn e Ballack, mas o meia foi suspenso e não enfrentou o Brasil.

Kahn, Linke, Metzelder, Ramelow, Jeremies, Hamann, Bode, Frings, Schneider, Klose e Neuville. Sinceramente, quisera o Brasil de 2014 pegar um adversário desses. Contudo, é aquela velha história: a tradição fala alto. Sobretudo a alemã, que sempre apresentou um futebol consistente, mesmo sem astros. Antes da Seleção de 2006, até mesmo o bonachão Galvão Bueno acertava quando dizia que a Alemanha jogava algo parecido com o futebol. Quando os germânicos aprenderam a jogar com o coração, coisa que aconteceu sob o comando de Klinsmann, no Mundial seguinte, houve uma melhora significativa até o massacre de 2014, como todos nós lembramos.

Fato é, que 12 anos antes do 7 a 1, a marcação cerrada e os contragolpes eram as principais armas da Alemanha em Yokohama, não a blitz ofensiva insana de hoje. Foi o Brasil que mandou no jogo. Sofreu alguma pressão em determinados momentos, mas foi senhor da partida. Entre pães de queijo e refrigerantes, eu sentia que o que separava a Seleção do penta era apenas o relógio. Recordo também do momento em que Edmílson se desentende com a camisa, que tinha duas camadas. O volante tentava a todo custo se desenrolar, enquanto o jogo parava. Até Pierluigi Collina riu da trapalhada. Estava com o meu pai na casa de um amigo dele e lembro bem de ter ouvido que ‘o Rivaldo era uma múmia’. É verdade, pai, eu não tô maluco não.

Fomos superiores e batemos os metódicos alemães em lances objetivos. O herói absoluto foi Ronaldo, mas poderia muito bem ter sido Kléberson, com aquele petardo no travessão. Para cada chute da Alemanha, o Brasil dava quatro, cinco, seis. Não foi exatamente um passeio. No entanto, ficou claro quem é que venceria desde o início. Um lance fortuito poderia favorecer Klose e seus colegas, o que seria um aborto da natureza. Coube a Marcos evitar a melhor chance deles, nos pés de Neuville, em uma bomba desviada para a trave, logo no começo do segundo tempo.

Ronaldo, Ronaldo

E daí, em um fuzuê perto da área, Ronaldo roubou a bola e saiu tabelando. Rivaldo chutou, Kahn falhou feio e o Fenômeno pegou o rebote. Ah, a explosão de alegria que foi aquele momento… Depois, a famosa deixadinha de Rivaldo para que Ronaldo ajeitasse e chutasse no canto. Não importava que ele estivesse com aquele penteado ridículo. Naquele 30 de junho, era permitido idolatrar o bizarro. O bizarro que superou a descrença geral e lesões gravíssimas no joelho para conquistar a última taça da Copa do Mundo pelo Brasil.

É claro que o jejum é só a metade do que a geração de 1970–94 passou antes de comemorar o tetra. Mas de alguma forma, com todo esse pessimismo e esses vexames, parece que nunca mais o Brasil vai ser campeão de nada. Essa sensação estranha de se apegar a uma vitória que nem foi tão épica, apesar de especial.

E entre tantas decepções recentes, cabe um tímido sorriso pela memória afetiva do que representa 2002. Pode não ter sido a Copa mais inesquecível, o time mais encantador e com histórias maravilhosas. Mas foi o último. Feliz 30 de junho de 2002, torcedor brasileiro.

Um pensamento em “Lembranças de um Penta através das madrugadas”

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