Está mesmo muito fácil ser árbitro no Brasil

Não pude deixar de fazer um reclamação formal, educada, ao árbitro. Trabalhei nos EUA e na Inglaterra, dois países líderes do mundo, onde se respeita o ser humano. Lá pode falar com o árbitro. Não sabia que no Brasil os árbitros eram figuras intocáveis. (Juan Carlos Osorio, depois da expulsão no intervalo de Palmeiras x São Paulo)


Toda rodada eles são o centro das atenções. O campeonato tem vários gols, clássicos, histórias curiosas e entrevistas coletivas divertidas, mas são os árbitros que acabam ganhando as manchetes no fim das contas. Na velha crônica esportiva, quando os jornalistas e comentaristas ainda usavam o termo ‘football’, ‘scratch’ e ‘corner’, muitos tinham a crença de que um árbitro bom é aquele que não aparece na partida, que não carece ser criticado nem positivamente e sobretudo negativamente.

Assim como todas as velhas tradições do esporte, ter um árbitro ‘invisível’ é absolutamente uma coisa do passado. Antes de mais nada, é crucial que se diga: os erros não são sempre fatais e geralmente são aceitáveis. Não podemos esquecer o fator humano no trabalho, que é sim desgastante e envolve demasiada pressão. No entanto, ultimamente, o problema não tem sido bem a frequência dos erros, mas sim a arrogância e a postura dentro de campo.

A situação ficou tão insustentável, que o ex-árbitro e comentarista da ESPN, Sálvio Spínola, reconheceu que seus colegas estão exagerando e passando dos limites na conduta e na punição dos atletas e treinadores. Nunca antes tivemos tantos cartões por reclamações, fossem elas educadas ou não. Criou-se a cultura de que é proibido contestar uma marcação. Logo o futebol, um esporte tão questionável, do goleiro até a altura e a qualidade da grama.

Onde a comissão de arbitragem planeja chegar com essas determinações? Qual é a verdadeira intenção por trás de coibir o diálogo e advertir ou expulsar jogadores que querem argumentar ou se defender após uma marcação? Aparentemente, os homens de preto viraram incontestáveis. São figuras superiores dentro das quatro linhas, muito embora ganhem a vida da mesma forma que os jogadores. Sabíamos que nas regras do jogo, estava escrito que alguém precisa ter autoridade no gramado para conduzir as partidas. Contudo, vê-se que esse conceito de autoridade claramente foi distorcido em um sentido que nem a polícia tem tanto poder para se sentir inatingível como os rapazes do apito.

O que faz com que árbitros e policiais tenham algo em comum? A necessidade de mostrar autoridade. Como se ninguém soubesse que aquele cara de uniforme preto, com o apito na boca, fosse a autoridade a ser respeitada dentro das quatro linhas. Como se ninguém entendesse o que estar fardado e dentro de uma viatura representa.

Toda essa volta serve para contextualizar dois fatos extremamente imbecis do último fim de semana no Campeonato Brasileiro. No sábado, o Corinthians recebeu o Figueirense e parte da torcida protestou contra o árbitro Carlos Amarilla, que apitou o fatídico jogo do Timão com o Boca Juniors, pela Libertadores de 2013. Dois anos depois, veio à tona que o árbitro poderia ter facilitado a classificação dos argentinos com marcações duvidosas, por uma ligação com o ex-presidente da AFA, Julio Grondona, desmascarado como grande manipulador de resultados no seu país e na própria Libertadores desde os anos 1960.

Uma porção pequena da Fiel estendeu uma faixa com os dizeres: “Amarilla 2013: a vergonha do futebol”. Pouco antes da bola rolar, o sr. Igor Junio Benevenuto ordenou que a mensagem fosse retirada da arquibancada. Alegou desrespeito ao seu colega Amarilla, um coitado e uma vítima da vida que infelizmente prejudicou um clube, sem querer, mesmo tendo ligação com um canalha do calibre de Grondona. Igor ainda anotou sobre a faixa em sua súmula e o Corinthians pode ser punido. Quer dizer, além de ter sido prejudicado em 2013, o torcedor não tem nem o direito de se indignar por essa ocasião. Isso é revoltante até para o são-paulino, para o palmeirense, o flamenguista. Todo torcedor deveria se sentir lesado, pois amanhã pode ser ele a ser censurado dessa forma.

Pulamos para o domingo. Palmeiras e São Paulo duelavam no Allianz Parque e no intervalo, o técnico Juan Carlos Osorio se dirigiu ao fortão árbitro Anderson Daronco e comentou que ele havia se equivocado ao amarelar o lateral Bruno. Tudo isso de forma educada e tranquila. Foi expulso. Na própria súmula de Daronco, consta que Osorio não se excedeu e pontuou a sua insatisfação. Mesmo assim, rua.

Santos e Internacional jogavam no Beira-Rio. O Santos cometeu uma falta com David Braz, que meteu a mão na bola. Dewson Freitas da Silva. Após o gol de Valdivia, nesta falta, o defensor foi reclamar com o árbitro e acabou vendo o vermelho. Revoltado, foi dialogar com o bandeirinha, sem sucesso. Foi preciso que Serginho Chulapa (!!!!) levasse o santista para os vestiários depois do lance. No Bate-Bola da ESPN, após a rodada, não houve nenhum indício que mostrasse uma falta de educação ou ofensas de David, que naturalmente ficou possesso por ser expulso.

A orientação, agora, é de dar cartão amarelo aos reclamões. Claramente, ignorando o contexto. Abriu a boca, leva. Então, ninguém mais conversa com o árbitro, ele é a lei, não pode ouvir nenhum pio. E assim, vamos caminhando para que haja um ou mais degraus entre jogadores e juízes. Mais um fato triste da série do “não deveria ser assim”. Tanto rigor servirá mesmo para reeducar o jogador? Ou só vai reacender o ódio contra a classe dos árbitros, em um verdadeiro tiro no pé?

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