Como o título da Argentina em 1986 pertence a Maradona

É para chorar, me perdoem! Maradonaaaaa!!!! Em uma arrancada memorável, na maior jogada de todos os tempos! O barrilete cósmico! De que planeta você veio? Para deixar tantos ingleses pelo caminho, para que o país seja apenas um punho fechado, gritando pela Argentina! Graças a Deus por Maradona, por estas lágrimas, por este Argentina 2–0 Inglaterra! (Victor Hugo Moralez, narrador argentino, após AQUELE gol de Maradona)

A Copa de 1986 foi toda de Maradona. Esqueça todos os outros craques que passaram pelo México naquele torneio. Nenhum deles fez 10% do que Diego conseguiu ao longo da competição. 29 anos depois do título contra a Alemanha, relembramos um pouco da façanha do maior camisa 10 albiceleste de todos.

Capitão e líder de um elenco treinado por Carlos Bilardo, Maradona entrou para a história do futebol por uma série de atuações fulminantes e decisivas. A mais notória delas, contra a Inglaterra, nas quartas de final. Com o pano de fundo da Guerra das Malvinas, Diego vestiu o uniforme reserva do seu país e encarnou o maior vingador argentino contra os ingleses.

Fez o que podemos chamar de o gol mais memorável da história das Copas e também o mais polêmico, a famosa ‘Mano de Diós’, onde ludibriou a arbitragem e tocou com o punho para encobrir Shilton. A Argentina venceu por 2 a 1, mas não houve maior triunfo do que o do próprio Diego, que se eternizou no imaginário do amante do futebol.

Antes desse duelo épico, a Argentina passou como líder do grupo A, à frente de Itália e Bulgária, com duas vitórias. Derrotou o Uruguai nas oitavas, por 1–0 e se credenciou a pegar a Inglaterra. Naquele dia, o futebol virou um instrumento de justiça para o povo, que queria punir os seus agressores. Símbolo de uma nação em busca de vingança, Maradona colocou os pés no campo e fez o que sabia melhor: driblou, infernizou, chutou e marcou. Castigou os ingleses, que pareciam meros meninos ingênuos diante da sua arte.

Rabiscou a defesa algumas vezes no primeiro tempo, mas só fez o inesquecível depois do intervalo. Quando arrancou e tabelou com Valdano, a bola subiu. Uma dividida pelo alto teve Diego como vencedor, mesmo usando a mão. Gol da Argentina. Até a picaretagem foi mágica. Na hora, os ingleses reclamaram da irregularidade da jogada, ignorada pelo árbitro. Castigo maior do que o gol roubado, foi mesmo o que Maradona tirou da cartola, quatro minutos depois.

Velocidade. Técnica. Determinação. Talento. Predestinação. Tudo isso foi somado em um só lance. Uma corrida maravilhosa de trás do meio campo até a pequena área. Neste intervalo, Maradona carregou o peso do mundo nas costas. O desejo de cada argentino de ser campeão, de ser novamente o melhor time do planeta. Uma explosão física que fez de Diego um alienígena, um barrilete cósmico, como bem criou o narrador Victor Hugo Morales.

A saga até o gol

E foi. Partiu em velocidade, com a pelota grudada na sua chuteira. Nem mesmo o mais rápido dos defensores poderia interromper a sua saga até as redes de Shilton. Dominou um passe vindo de trás e girou em cima de Beardsley e Reid. Adiantou a posse e disparou para o canto direito, perto da lateral. Dois ingleses já tinham ficado na saudade. Veio Butcher, que nem sonhou em levar a bola do adversário. Deu só um bote despretensioso e desapareceu após um drible curto.

Sansom, na entrada da área, ainda tentou agarrá-lo, abraçando a sombra e a lembrança de Diego, que já não estava ali. Quatro vencidos. Quando Shilton saiu no desespero, outro corte finalizou a jogada. Maradona bate. E Maradona marca. 2–0. Cinco ingleses deixados na pior pelo 10.

Não importa o quanto tentem recriar aquele gol. Nunca ninguém fará como Maradona. Abriu-se um portal a partir do momento em que ele arrancou e passou do meio-campo. Fechou quando a bola tocou as redes e Diego partiu para comemorar. Quem viu, viu, quem não viu na hora, ficará só com os vídeos, que pouco dizem sobre a enormidade daquela façanha. Lineker ainda diminuiu, aos 35, mas ninguém há de lembrar disso para todo o sempre.

Dois jogos, duas vitórias, duas taças

Veio a Bélgica de Ceulemans e Maradona novamente peitou os adversários e marcou dois gols. Argentina na final, em um jogo decidido na genialidade de Dieguito. Um por cima de Pfaff, outro com a marca de quem já tinha deixado meio mundo comendo a sua poeira. Em um espaço coberto por quatro belgas, o 10 fintou e achou o melhor lugar para um chute no canto. Tchau, Bélgica.

Ao contrário dos outros jogos, Diego não teve paz contra a Alemanha. Acompanhado de perto pelo leão Matthäus, o argentino mal conseguia andar em campo para tentar um passe. Em compensação, o resto do time encontrava brechas para trabalhar. Brown abriu o placar em uma boa cabeçada do meio da área. Os mexicanos já se encontravam encantados com a seleção albiceleste, ainda que não da mesma forma que em 1970, quando o Brasil de Pelé passou por aquele maravilhoso Estádio Azteca.

Enrique acionou Valdano, completamente desmarcado na esquerda. O atacante carregou até a entrada da área e bateu no cantinho de Schumacher. 2–0 para a Argentina. Era meio caminho andado para o bi, não fosse a reação alemã. Os robôs germânicos aguentaram o forte calor daquela tarde para buscar dois gols no fim. Rummenigge diminuiu em um rebote e colocou fogo no jogo. Völler empatou e pela primeira vez, a invencível seleção de Bilardo sentiu que a Copa escorria por entre os dedos. Não escapou por causa dele: Maradona.

Burruchaga, o último gol

Foi ele que com um domínio ligeiro e um passe inteligentíssimo, ousou chutar a bola entre dois marcadores e dois alemães na sobra. Burruchaga, sozinho, teve paz para correr como louco até a área. Briegel bem que tentou interromper a corrida do pequeno, mas teve de ver a bola passar lenta até o barbante. 3–2 Argentina, o último ato de um Mundial inesquecível. Mesmo muito marcado, Maradona armou a jogada que culminou no título.

Por este lance e por todos os outros relevantes ao longo da campanha argentina, Diego foi considerado o astro da Copa, o herói nacional e o craque que ofuscou Platini, Zico, Conti, Ceulemans, Matthäus, Rummenigge e tantos outros. Por isso ele é o grande vencedor e o dono da taça de 1986. Desde então, esperamos que outro jogador bata no peito, chame a responsabilidade e ganhe uma Copa como Maradona fez. Esperaremos até o fim de tudo. Ou até que Messi seja Messi e também chegue lá. Mas nem ele igualaria as proezas de Diego.

Se passaram 29 anos. Passarão 100 ou 1000 sem que tenhamos outro Maradona. Graças a Deus por ele e pelo futebol, diria Morales.

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