O herói nazista que virou ídolo no Manchester City

Seu pano de fundo dificilmente iria encantar os torcedores ingleses, ainda mais os do Manchester City, que por acaso eram em maioria judeus. Trautmann, que fez parte da ‘Juventude de Hitler’, era louro, alto, com olhos azuis. O retrato perfeito do ariano ideal. (The Guardian, no obituário de Bert Trautmann)

Bert Trautmann se consolidou como grande ídolo do esporte inglês nas décadas de 1940, 50 e 60. Era goleiro e brilhou por 15 anos pelo Manchester City. É mais famoso por ter quebrado o pescoço em uma decisão da Copa da Inglaterra, contra o Birmingham, em 1956. Bert, naquela ocasião, sofreu uma fratura, mas continuou jogando e foi campeão. Mas esse é só um detalhe da sua curiosa trajetória.

Alemão nascido em Bremen, em 1923, Bert estava predestinado a ser um esportista. Aos 10 anos, se juntou ao projeto ‘Deutsches Jungvolk’, que pode ser traduzido como ‘Juventude nazista’, que transmitia a jovens de 10 a 14 anos os ideais do partido liderado por Adolf Hitler através de diversas atividades físicas.

Desde sempre, Bert foi um sobrevivente

Foto: 2today
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Já em 1941, entrou de vez no quadro da Luftwaffe, a aeronáutica do exército alemão de Hitler. No alto de seus 17 anos, foi voluntário para as forças armadas e atuou como operador de rádio. Passou por enormes apuros e escapou da morte em duas explosões, fora o fato de ter sido feito prisioneiro três vezes.

Para se ter uma ideia do que Bert passou como soldado, é preciso falar mais sobre a Frente Oriental. A frente acabou sendo um dos combates mais letais de toda a guerra. Nesta batalha, 30 milhões de pessoas morreram, no capítulo mais sangrento dos confrontos. Foi também o início da derrocada do exército da Alemanha e por consequência do III Reich. Em 1945, o Exército Vermelho ocupou Berlim e os alemães se renderam.

“Olá, Fritz! Quer uma xícara de chá?”

Bert, um cara astuto, tinha enorme capacidade de sobreviver a situações críticas. Em 1942, foi um dos 300 sobreviventes em uma unidade de 1000 homens, após um ataque dos Aliados, na Frente Ocidental. Em 1944, já em Kleve, na Alemanha, escapou de outro bombardeio feroz e retornou com outros poucos companheiros para Bremen. Desertou do seu exército e precisava se manter anônimo para não ser morto por nenhum dos lados da guerra. Recebeu cinco medalhas de honra, entre elas a Cruz de Ferro da Primeira Classe, pelos serviços ao seu país.

Pouco antes da guerra cessar, chegou a ser capturado por americanos, mas fugiu antes de ser executado. Durante a fuga, caiu na frente de um soldado inglês. Bert contou posteriormente que o inimigo brincou com a situação e perguntou: ‘Olá, Fritz, quer uma xícara de chá?’, antes de levá-lo para o cárcere. Trautmann resistiu à prisões anteriores por russos e franceses, mas falhou em se desvencilhar dos ingleses. No fim da guerra, ele foi um de apenas 90 soldados do seu regimento a terem sobrevivido.

Em campos para prisioneiros, praticava esportes e jogava futebol, mas sempre como atleta de linha. Contundido, foi parar no gol em certa feita e lá ficou depois de se encontrar na posição. Ficou até 1948 como prisioneiro e em 49 passou a atuar pelo St. Helens, uma equipe amadora, já que recusou ser repatriado pela Alemanha. Alguns meses lhe deram fama como um dos goleiros mais notáveis da região, o que chamou a atenção do Manchester City.

Um longo caminho até a redenção

Foto: BBC
Foto: BBC

Bert foi inicialmente mal recebido pela torcida, que não gostou de saber que um ex-membro do exército nazista estava sendo contratado. E a missão de Bert era justamente substituir o ídolo Frank Swift. Jogou mais de 500 partidas pela equipe mancuniana e em 1956, viveu o momento que lhe consolidou como uma verdadeira lenda do esporte.

Rebaixado em 1950, o City voltou logo para a elite e seis anos depois, chegou a brigar pelo título do Campeonato Inglês. A boa caminhada culminou em uma decisão da Copa da Inglaterra em 1955, perdida para o Newcastle. No ano seguinte, os Sky blues enfrentavam o Birmingham na mesma competição, em busca da taça que escapou na temporada anterior.

100 mil pessoas lotaram o estádio de Wembley para o confronto, que foi épico pela circunstância vivida por Trautmann. O jogo foi duro e o City marcou primeiro, aos três minutos, com Hayes. O Birmingham deixou tudo igual, com Kinsey, aos 15. Na segunda etapa, Johnstone e Dyson marcaram para os Citizens, que se aproximaram da conquista.

Restando 15 minutos para o fim, Trautmann saiu do gol para tentar desarmar o atacante Murphy e foi atingido no pescoço por uma joelhada. Sentindo fortes dores e sabendo que o City ficaria com 10 em campo caso ele não pudesse continuar, Bert ficou até o fim e levantou a taça, incomodado por não conseguir mexer a cabeça.

Salvo por uma vértebra partida

Foto: Manchester City
Foto: Manchester City

Até aquele momento, ninguém sabia o verdadeiro drama. Foram três exames até que um médico pedisse um raio-x no local. A radiografia constatou fratura em cinco vértebras. O alemão só não morreu porque a terceira se quebrou em duas partes e foi forçada contra a segunda, evitando um rompimento total. O doutor David Lloyd Griffiths, da enfermaria real de Manchester, disse com todas as letras que ele deveria ter morrido com o choque e que foi irresponsável ter continuado em campo. Algo que o próprio Bert jamais desconfiaria.

Recuperado após quase um ano de tratamento, Bert jamais recuperou a velha forma e se aposentou em 1964 com status de herói, honraria que também conseguiu como soldado alemão na segunda guerra. Chegou a treinar vários clubes menores e deixou definitivamente o esporte em 1983, quando treinou a seleção do Paquistão. Se mudou para a Espanha, onde viveu por vários anos até 2013, ano de sua morte.

Em entrevista ao jornal ‘The Independent’, em 2006, o ex-goleiro falou sobre o golpe de sorte em 1956.

Eu ainda tenho alguma dor no pescoço se mexo minha cabeça de forma repentina. É como uma cãibra e dói muito. Até choro, mas depois de dois minutos, me recupero. É ok. Se não é nada pior que isso, posso conviver. Se o choque não fosse tão grande e a terceira vértebra não tivesse sido forçada contra a segunda, eu estaria morto. Ou paralítico, para dizer o mínimo. Um dos dois. Então, acho que fui muito sortudo, não?

Foi, Bert. Muito sortudo.

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