Dedada não é do jogo, Jara

A batalha começou antes mesmo do pontapé inicial, quando o Estudiantes chutou bolas no Milan durante o aquecimento. Café quente foi derramado nos italianos quando eles subiam do túnel. Uma variação da tortura medieval de jogar óleo quente do alto de uma masmorra. Aqueles tempos remetiam os times às eras negras do passado. O que poderia remotamente ser chamado de jogo começou com uma vista grossa do árbitro chileno, que ignorou as pequenas indiscrições, enquanto os milanistas reclamavam de serem atacados com agulhas e murros. Giovanni Lodetti descreveu: “Quando você tinha a bola, alguém vinha e te acertava” (ESPN FC , sobre Estudiantes x Milan, no Mundial e 1969)

O futebol é sim uma questão de vida ou morte e merece ser encarado com toda a seriedade possível entre os jogadores. Não fosse assim, o esporte seria mais uma gincana em que o resultado pouco importa. Estamos em tempos em que a diversão dentro de campo é um sonho distante e apenas possível em amistosos. Quando vale algo, naturalmente, não há sorrisos.

Estamos lidando com um esporte que se reinventou bastante desde a sua criação, ainda no século XIX. Um esporte que começou a ser praticado de forma rude e se adaptou de forma gradual para preservar a integridade física dos atletas, coisa que não acontece no Rugby.

Cartões, advertências e suspensões trataram de disciplinar os mais violentos, o que diminuiu drasticamente o número de jogadas brutais ou sujas. O que não quer dizer, claro, que hoje em dia a sujeira, a podridão, a maldade e a trapaça não estejam em campo, mesmo que disfarçadas.

Não raro, vemos voadoras no peito, pés altos, tesouras no tornozelo, socos e cotoveladas fora do contexto de uma dividida. Contudo, vale repetir: o rigor para punir tem ajudado bastante a coibir a selvageria. Mas o que é jogo sujo e jogo limpo, afinal? Respeitar sempre o adversário, praticar o fair play, não fazer cera, não entrar em uma bola com uma postura que possa causar uma lesão no adversário (mesmo porque isso acontece sem querer), não danificar a honra do oponente? A competição é coletiva ou abre espaço para pequenas rixas pessoais? Vale a reflexão.

Pela Copa América, na noite de ontem, o chileno Jara tomou uma atitude controversa ao fazer uma colonoscopia não requisitada em Cavani, do Uruguai. O atacante charrua se revoltou com a dedada, naturalmente, e acabou expulso por quase provocar uma briga. Aí fica outra pergunta: isso é do jogo?

Sabemos que faltas e intimidações fazem parte de uma estratégia para minar ataques e as mentes dos jogadores, mas o limite não é ultrapassado quando envolve um toque retal ou um apertão nos bagos, como já vimos o brutamontes Vinnie Jones fazer em Gascoigne nos anos 1980?

Jara tem um histórico de provocar desta maneira, digamos, particular, os adversários. Em 2013, tentou amassar a genitália de Suárez em campo durante outro Chile x Uruguai. Para não dizer que focamos nas partes sensíveis, lembremos também as mordidas do próprio Suárez ao longo da carreira.

Vemos exemplos de velhas tradições sendo mantidas na sociedade e é perfeitamente aceitável que tentemos mudá-las com o tempo. O futebol não é uma bolha à parte disso e é questionável que hábitos nojentos continuem sendo eternizados, como os xingamentos homofóbicos, as brigas de torcida e os sacos de urina que ainda sobrevivem em estádios mundo afora. Não é questão de modernização, aquela ladainha de que tudo está ficando muito chato. O problema é que estamos em 2015 e as pessoas ainda não aprenderam a ser civilizadas.

Ao ponto de um jogador achar que é válido enfiar o dedo no rabo do coleguinha em campo, ou ofender a família de alguém, como Materazzi na final da Copa de 2006, não dá para usar a desculpa de que esse tipo de provocação é do jogo. Cavani não pode ser julgado pelo fato de se defender de um ato hostil como esse, assim como Zidane não poderia quando acertou uma cabeçada no italiano.

Jara não ficará marcado como o violento time do Estudiantes de 1969, pois o tipo de agressão é completamente diferente. Mas precisa ser punido para que o futebol mostre que essa conduta não é parte do espetáculo. No futebol não vale fazer de tudo para vencer e o torcedor precisa entender isso. E que parte da reeducação também passa por ele.

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