Times memoráveis do Brasileirão: 1991, o São Paulo de Raí

O São Paulo não jogou o futebol exuberante, idealizado por Telê, mas tampouco sucumbiu ao antijogo nem à táticas perversas para vencer. Buscou o gol explorando contra-ataques, sabendo usar o talento de Raí e Muller; e se defendeu como pôde, conhecendo as limitações do time. (Diogo Salles, para o ESPN FC, sobre a conquista do tri em 1991)

Se o São Paulo teve um time fantástico no início dos anos 1990, jogando de igual para igual com Barcelona e Milan em finais de Mundial, o pontapé foi dado em 1991, na conquista do Campeonato Paulista e Brasileiro. Telê Santana foi o arquiteto do São Paulo de 91, que foi o protótipo dos times de 92 e 93, verdadeiras máquinas.

Em um campeonato com 20 clubes, em pontos corridos, semifinais e final, o Tricolor liderou a primeira fase e avançou com vantagem ao lado do Bragantino de Carlos Alberto Parreira, que também somava 26 pontos. É importante lembrar, que naqueles tempos, uma vitória valia apenas dois pontos.

Para alcançar a glória no Brasileirão, o São Paulo somou 11 vitórias, quatro empates e quatro derrotas. A base da equipe era a seguinte: Zetti, Zé Teodoro, Antônio Carlos, Ricardo Rocha e Leonardo; Ronaldo, Bernardo,
Cafu e Raí; Macedo e Müller, que entraram em campo na decisão contra o Braga, no estádio que era então chamado de Marcelo Stéfani. De fevereiro a junho, Telê deu forma ao elenco para conquistar a taça. No fim do ano, levantou o Paulista, diante do Corinthians.

(Quase) ninguém saía vivo do Morumbi

Logo na estreia, contra o Atlético Mineiro, um show no Mineirão. 3–0, gols de Eliel (2x) e Flávio. Duas derrotas seguidas contra Flamengo e Santos não desalinharam o trabalho no Morumbi. Muito pelo contrário. Foram o alerta que despertou o grupo para a sequência da competição. Forte em casa, o São Paulo sempre fazia boas atuações no Morumbi. Só deixou escapar pontos contra o Santos e o Palmeiras. No restante, venceu todas as partidas que fez em seus domínios.

Os quatro classificados para as semifinais foram São Paulo e Bragantino, com 26, seguidos por Fluminense e Atlético Mineiro, com 24. Os dois primeiros levaram um ponto extra pela melhor campanha. Quando o mata-mata começou, o Tricolor encarou novamente o Galo e o Braga pegava o Fluminense. Aí foi que o sistema de Telê mostrou por que daria certo.

A defesa, bem entrosada entre o experiente Ricardo Rocha e o novato Antônio Carlos, deu liga. Se falhassem, o paredão Zetti estaria lá para resolver as coisas e praticar milagres. Como volantes, Ronaldão e Bernardo permitiam que Leonardo e Zé Teodoro pudessem dar mais apoio ao meio, formado por Cafu e Raí, incansável e dono de um chute fatal, sem falar nas cobranças de falta perigosíssimas. Mais maduro, o camisa 10 se consolidou como maestro e saiu da sombra do irmão Sócrates, que se aposentou em 1989, com a camisa do Santos. No ataque, Muller e Macedo dividiam a responsabilidade pelos gols. Muller, aliás, voltou cheio de vontade após uma passagem de três anos pelo Torino.

A hora da verdade

No Mineirão, contra o Atlético Mineiro, um jogaço. Um verdadeiro jogaço. Lá e cá, com gol de Mário Tilico para o Tricolor e de Cléber para o Galo. Muitas chances foram criadas e os goleiros Carlos e Zetti trabalharam para um mês naqueles primeiros 90 minutos.

Dono das ações, o São Paulo saiu na frente graças a um lance de genialidade de Raí. O camisa 10 dominou, ergueu a cabeça e chutou com força para o campo de ataque. Pegou toda a defesa atleticana desprevenida e achou Mário Tilico, que disparou à toda velocidade para cortar Carlos e bater rasteiro. 1–0. O zagueirão Cléber, que depois fez carreira no Palmeiras, empatou em uma cabeçada originada em uma cobrança de falta.

Para o jogo de volta, no Morumbi, novo duelo de gols perdidos. Só o São Paulo, poderia ter saído de campo com pelo menos três, enquanto o Galo desperdiçou uma finalização à queima-roupa, que bateu no peito de Zetti. Apesar de uma forte pressão no fim, a vaga ficou com o São Paulo, que tinha a melhor campanha.

Telê x Parreira: a batalha final

O São Paulo iria enfrentar o Bragantino, que superou o Fluminense após um empate e uma vitória em Bragança. Em cinco de junho, a equipe de Telê iniciou novamente dominando o adversário na partida do Morumbi. O ataque fluiu bem e Macedo quase espetou a primeira, depois de tirar o goleiro Marcelo. A bola bateu na trave, por capricho dos deuses.

O Braga reagiu e mostrou as suas garras. Em dois lances, Mazinho quase marcou e calou o estádio do adversário. Um cruzamento de Gil Baiano passou voando na área de Zetti, que saiu mal. A bola tocou na cabeça de Mazinho e ia entrando, quando um carrinho impediu o desastre.

Novamente no ataque, o São Paulo chegou com Bernardo, de cabeça. A bola explodiu no travessão, Muller furou e Tilico chegou para bombardear. 1–0, vantagem para o Tricolor. Em Bragança Paulista, um 0–0 selou a conquista são-paulina. O jogo foi de muita marcação e poucos erros. Marcelo, arqueiro do Braga, salvou algumas finalizações perigosas no primeiro tempo. Muller, que tentou aproveitar uma sobra debaixo da trave, isolou o chute e perdeu a chance da tarde.

Quando veio a noite em Bragança, o time da casa sabia que era hora de tentar tudo pela taça. E uma blitz quase deu em gol. Zetti e os defensores trataram de tirar a bola da zona de perigo. Pouco depois, Flávio, que estava há pouco tempo em campo, na vaga de Muller, saiu completamente livre e chutou da meia-lua, mas acertou o travessão. Quando José Roberto Wright apitou para o fim do duelo, a torcida visitante tomou conta e vibrou com o terceiro título do São Paulo.

Foi o prelúdio de uma era dourada. Depois disso, o Paulista de 1991, de 92, a Copa Libertadores de 1992 e 93, o Mundial Interclubes de 92 e 93. Com a base sólida do time de 91, regido por Telê no banco de reservas e por Raí dentro das quatro linhas.

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