Sobre Valdivia e a Síndrome de Estocolmo

Síndrome de Estocolmo (Stockholmssyndromet em sueco) é o nome comumente dado a um estado psicológico particular em que uma pessoa, submetida há um tempo prolongado de intimidação, passa a ter simpatia e até mesmo sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor. (Definição na Wikipedia)

Todo mundo já teve um ídolo no futebol. E dizem que a medida certa de continuar idolatrando um jogador é não conhecê-lo, porque na maioria das vezes a experiência pode ser decepcionante. Por mais que alguns caras sejam pontos fora da curva, é necessário o distanciamento.

Entre estas possíveis decepções está o chileno Jorge Valdivia. Friamente analisando, o meia chegou ao clube em 2006, pouco após a Copa do Mundo. Demorou a deslanchar em 2007, mas estourou mesmo em 2008, com a conquista do Paulistão. Saiu em 2009, vendido para o futebol árabe.

Agora, analisando como um torcedor: o carisma, a inspiração em clássicos e as provocações, além do bom humor, fizeram de Valdivia um ídolo rápido da torcida, que não teve grandes nomes para venerar na década de 2000. Foram poucos e é certo que o meia esteja entre eles, ou tenha estado. Ídolos se criam com boas histórias, vitórias e identificação. E isso, Valdivia conseguiu fazer com facilidade.

Quem não lembra do ‘chororô’ contra o São Paulo e o gol contra o Corinthians, na campanha do Paulistão de 2008? Polêmicas à parte, Valdas é uma figura bem curiosa na história do Palmeiras. É um desses exemplos em que a torcida ama ou odeia. Muitas vezes, os dois. Desde que voltou, em 2010, não conseguiu ter tantas boas atuações como na primeira passagem. Mas venceu a Copa do Brasil em 2012 e ganhou alguns créditos pelas atuações.

“Eu não sumi, estava na Disney”

A chapa nunca esteve fria para Jorge nos lados da Pompeia. Cercado por acusações de corpo mole e por nunca sair do departamento médico, o chileno já viveu episódios turbulentos extra-campo e quase foi vendido em 2014. Acabou retornando ao Verdão depois de passar alguns dias na Disney, o que rendeu uma das entrevistas mais memoráveis do futebol brasileiro.

O capítulo foi uma marca revoltante na trajetória do jogador no clube paulista. Muitos queriam a sua saída, mesmo rendidos pelo riso fácil proporcionado pela ironia do chileno. Várias outras entrevistas tiveram demonstrações de humor e sarcasmo dele em relação aos repórteres, que claro, ficavam de mãos atadas diante da cara de pau de Valdas, um ícone para os rebeldes com a imprensa.

Valdivia demora a entrar em campo, mas é decisivo na maioria das suas participações. Não fosse por ele, o time certamente teria sido rebaixado em 2014, fato que não aconteceu graças a um par de jogos resolvidos pelo camisa 10. Em 2015, no entanto, a magia ficou cada vez mais rara. Os dois últimos duelos com o Corinthians foram a amostra que o palmeirense queria para acreditar que é possível resgatar a relação.

Qual é o verdadeiro Valdivia?

Essa relação, aliás, foi sempre abusiva. Um dos lados se força a apostar em uma saída para a crise, enquanto o outro não faz o bastante e ainda prova que pode sim fazer melhor em uma quarta-feira chuvosa. O que não tem acontecido. Valdivia jogou pouco no ano e esse total acaba sendo decepcionante e ofuscando as boas jogadas que saem dos seus pés. É um tal de ‘ele não joga mesmo, mas quando é escalado, decide’. Nessa toada, ilusões foram criadas e cruelmente destruídas pelo destino. Pois é difícil avaliar o que é culpa de Valdivia e o que é realmente azar.

Nessa guerra de verdades, é certo que o palmeirense saia derrotado. Ou por se irritar com um jogador que não se empenha, ou por se ver sem o camisa 10, o Mago, o craque das respostas atravessadas e do passe enjoado para o atacante.

Uma hora, o sequestro acaba e ninguém vai saber se o trauma foi maior que o amor por Valdivia. Anos depois da sua despedida, ainda haverá dúvida no seu veredicto. Foi herói, um vilão como Ozymandias (ver Watchmen) ou um mero jogador que sabia ser engraçadinho e jogar futebol?

A julgar pelas atuações recentes pelo Chile, um baita jogador. Que por alguma razão desconhecida ou tão evidente que nossos olhos não veem, não tem o mesmo desempenho com a camisa do Palmeiras. Valdas tem vocação para ser Duas Caras, Batman, Ozymandias ou até o Homem-Aranha, aquele que leva todas as porradas possíveis e ainda aparece para salvar o dia.

Talvez, Valdivia não seja nem um herói e nem um vilão. Apenas alguém de passagem nessa loucura que é fazer parte do Palmeiras.

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