Times memoráveis do Brasileirão: 1972, o Palmeiras de Ademir da Guia

Ademir impõe com seu jogo 
o ritmo do chumbo (e o peso), 
da lesma, da câmara lenta, 
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando 
no adversário, grosso, de dentro, 
impondo-lhe o que ele deseja, 
mandando nele, apodrecendo-o

(João Cabral de Melo Neto, sobre Ademir da Guia)

O Palmeiras conquistou mais um campeonato nacional em 1972 e abriu caminho para uma hegemonia no país. Liderado pelo ‘Divino’ Ademir da Guia, o Verdão teve a sua ‘Segunda Academia’ e levantou dois títulos do Brasileirão, que foi reformulado a partir de 1971 para virar o que conhecemos hoje.

Em campo, um dos times que não saem da cabeça do palmeirense mais velho, saudoso por grandes escalações e que tem naqueles onze heróis a imagem de um tempo em que o Brasil se curvou ao jogo fulminante e pragmático pregado por Osvaldo Brandão. Leão, Luís Pereira, Alfredo, Zeca e Eurico. Dudu, Edu Bala, Leivinha, Ademir da Guia, Madurga e Nei. Nomes que por muito tempo ilustraram botões e memórias de uma geração dourada no Parque Antártica.

O domínio verde na primeira fase

Depois do Atlético Mineiro, em 1971, o Palmeiras venceu uma competição que teve 26 clubes, número até pequeno em comparação à baderna que se viu nos anos seguintes. Na primeira fase, em 25 rodadas, foram apenas duas derrotas alviverdes, para Santos e Corinthians. No geral, foram quatro jogos perdidos, em 30 possíveis. Longe do aproveitamento magnífico do Inter de Falcão, em 1976, mas marcante para um campeonato tão equilibrado quanto era aquele.

Classificado entre os 16 melhores para a segunda fase, o Verdão liderou o Grupo B e avançou com Coritiba, Cruzeiro e Flamengo para os últimos quatro grupos, com quatro clubes. A briga então foi com São Paulo, Coritiba e América-RJ. Apenas um passava para as semifinais, e calhou deste time líder ser o Palmeiras, com derrota de 1–0 para o São Paulo e posteriores vitórias contra Coxa e Mecão, por 3–1 e 3–0, respectivamente. Leivinha marcou três gols naqueles dois encontros, passando por grande fase. Foi considerado o melhor jogador do torneio, marcando 15 vezes.

Não bastasse ter uma defesa equilibradíssima com Alfredo e Luís Pereira, o meio-campo do Palmeiras era uma verdadeira potência. Na frente, o argentino Madurga foi encarregado de fazer os gols, ao lado de Nei, outro atacante igualmente perigoso. Dudu era o cão de guarda, o marcador implacável, enquanto Ademir conseguia flutuar entre as linhas, ou aparecendo para finalizar do bico da área, com os seus chutes indefensáveis.

O regulamento ajudou

Dono da melhor campanha, o Palmeiras chegou na semifinal com a possibilidade de empatar os dois jogos. Foi chaveado contra o Internacional e empatou em 1–1. Nei marcou para o Verdão e Tovar empatou para os gaúchos. Para a decisão, contra o Botafogo, o Morumbi teve 58.287 pessoas nas arquibancadas. Era o Palmeiras de Ademir ante o Bota de Jairzinho e Fischer.

O empate da primeira fase disse muito mais do que a final (Tá aí! Esporte é Cultura!)

Sabendo que não precisaria vencer, o alviverde de Palestra Itália jogou no erro do Bota e não se expôs para levar um gol que custaria caro. É mais interessante retratar o que os dois fizeram no duelo anterior, do que propriamente na final. Na primeira fase, Palmeiras e Botafogo se enfrentaram no Pacaembu e também empataram, só que por 2–2. Em 20 de setembro, pela quarta rodada, Fischer derramou o primeiro sangue da partida, com um chute por cima de Leão, 1–0.

Depois de longa troca de passes entre Leivinha e Ademir, o Divino lançou para a área, onde Nei conseguiu aproveitar uma brecha para fuzilar o arqueiro Cao, 1–1. Fischer, novamente, chutou com espaço e venceu Leão, bem no canto da baliza alviverde, 2–1. Eurico apareceu na direita e levantou uma bola altíssima para a área. Leivinha testou e acertou o ângulo, 2–2.

Três meses depois deste belo duelo no Pacaembu, os adversários tornaram a se bater, agora valendo a taça. E um 0–0 selou o destino da competição a favor do Palmeiras, que por todo o percurso foi o mais consistente. Apesar do anti-clímax de um oxo em uma partida decisiva, o tédio de 23 de dezembro não foi maior do que toda a regularidade de fases anteriores. E acabou premiando o desempenho ímpar de Brandão e seus soldados.

As vitórias foram comuns no Palestra Itália até 1976, ano em que a fonte de conquistas secou. Depois disso, foram 17 longos anos de espera e tragédias que concretaram o que é ser palmeirense nos dias de hoje. Naqueles tempos, era possível sonhar com glórias e com jogadores prolíficos, os ídolos eram constantes e jogavam no seu máximo. A julgar por Divino, que sempre honrou as cores e a simbologia do seu número 10 nas costas.

1 pensamento em “Times memoráveis do Brasileirão: 1972, o Palmeiras de Ademir da Guia”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *