A complexidade do homem: um ensaio sobre Paul Gascoigne

Gascoigne gol euro 96

Você aprende que, certo, todo mundo tem problemas. Mas quando elas ficam chateadas, por que elas começam a beber? Por que não conseguem dizer uma simples palavra: não. (Paul Gascoigne, sobre seu vício em álcool)

Paul Gascoigne foi um verdadeiro fenômeno do futebol nos anos 1980 e 90. Qualquer pessoa que queira diminuir o tamanho da lenda, provavelmente não entende o contexto ou a importância do que o atleta fazia em campo. Gazza amou intensamente o esporte e até hoje relata que não entendeu como seguir sua vida sem ele.

Já no fim de sua carreira, foi alvo da cretinice e da hipocrisia dos tabloides ingleses, que no afã de conseguirem boas histórias, passaram por cima da sua família e da sua honra. É preciso que se diga que a complexidade do personagem de Paul tem uma explicação. Ou melhor, duas: a morte de duas pessoas próximas a ele em momentos cruciais de sua história. Gazza não é nenhum ator e muito menos tem aptidão para esconder seus sentimentos. Mostrou isso no icônico choro contra a Alemanha em 1990. Um homem de convicções e de princípios que foram abalroados por um furacão de manchetes detratoras.

A primeira perda

Antes de ser famoso, Gascoigne já jogava futebol. Começou em Gateshead, sua cidade natal, próxima a Newcastle. Aos 10 anos passou por uma situação que pouquíssimas crianças precisaram vivenciar: a morte de um amigo próximo. Ao caminhar para o campo onde jogava com seus colegas, Paul resolveu correr com Steven, companheiro de time e vizinho. Como estava na frente, atravessou a pista e não viu que um carro chegava rápido. Steven foi atropelado e morreu no local. Chocado, Gazza precisou muito cedo de acompanhamento psiquiátrico para lidar com os traumas. Ele teria diversos durante a sua vida adulta. No entanto, foi dispensado do tratamento já na base do Newcastle, liberado por Jack Charlton, seu principal mentor.

Logo estreou pelos Magpies, em 1988, e estourou no país. Ninguém sabia driblar e sair da marcação como ele. Jogava com uma desenvoltura rara em campos ingleses, era uma tela colorida em meio a um cenário completamente cinzento. Por isso, e só por isso, virou a principal esperança da Inglaterra de retornar ao grupo dos campeões mundiais.

A consagração e o choro

A suspensão contra a Alemanha, na semifinal da Copa de 1990/ Foto: ITV
A suspensão contra a Alemanha, na semifinal da Copa de 1990/ Foto: ITV

Em dois anos como profissional, já estava na lista de Bobby Robson para o Mundial de 1990, na Itália. Como titular. Jogou uma bola bárbara até a fatídica suspensão diante da Alemanha, por levar o segundo cartão amarelo na competição. Chorou copiosamente quando viu que estaria de fora de uma possível final. Foi o melhor time da Inglaterra desde 1966, mas os alemães acabaram por destruir aquele sonho em uma disputa de penalidades. E Gazza nunca mais jogou uma Copa do Mundo.

Os anos foram se passando e os ingleses tinham em Paul um herói possível. O menino brincalhão, risonho e fanfarrão rompia os protocolos locais, se destacava entre as expressões sisudas, sérias e mal humoradas dos seus compatriotas. Deve ter sido o primeiro inglês com dentes a sorrir, já que Nobby Stiles, campeão em 66, não tinha a linha de frente em sua arcada dentária.

Gascoigne foi vítima da própria fama pela primeira vez, pouco após a Copa de 1990. Participou de uma matéria no ‘News of the World’, que falava sobre como pessoas asmáticas poderiam praticar esportes normalmente, desde que usassem adequadamente a bomba. Um primo dele, de 12 anos, ligou perguntando se podia voltar a jogar futebol, na condição de asmático. Paul respondeu que sim, que ele deveria praticar esportes e que isso ajudaria a melhorar a sua saúde. O menino morreu depois de 20 minutos jogando. Esqueceu de levar a sua bomba. Outro choque na vida de Paul, que passou por mais transtornos depois disso.

Cercado pela mídia

Alvo fácil da mídia, era caçado por fotógrafos e foi flagrado em inúmeras bebedeiras, antes de ser tarimbado como alcoólatra e decadente pela mesma imprensa que tinha obsessão em tratar a sua intimidade como notícia para o mundo inteiro. Gazza diz em seu documentário que o futebol era a única saída para lidar com todas as suas mazelas, todos os seus problemas pessoais. Em campo, ele se libertava dos fantasmas, podia caminhar e fazer o que sabia, ser feliz, como todos nós somos quando temos uma bola no pé. Só praticar o futebol e sentir o carinho da torcida era o apoio necessário para suportar o furacão que era ser famoso na Inglaterra.

Saiu do Tottenham e foi para a Lazio, um ano depois de sofrer uma grave lesão no joelho. Ainda se contundiu mais uma vez antes de deixar a equipe italiana com o status de ídolo, coisa que ele sempre conseguiu ser, com o seu jeito descontraído. Atuou pelo Rangers e chegou a receber ameaças de morte por ter feito uma comemoração anti-católica entoada pela torcida dos Blues, com claro objetivo de ofender os rivais do Celtic. Um membro do IRA, o exército republicano da Irlanda, enviou cartas a Gazza dizendo que iria matá-lo pelo gesto. Por seis meses, viveu paranóico com a possibilidade de ser morto em qualquer lugar da Escócia.

Gazza gol 1996 (guardian)
Foto: Guardian

Em 1996, novamente superou uma adversidade e entrou para a história da seleção inglesa com um gol simplesmente inesquecível contra a Escócia, na Eurocopa. O relógio em Wembley marcava 78 minutos, o placar era de 1–0 para os mandantes. Um contragolpe rápido chegou em Gascoigne, que era o último homem do ataque inglês. Marcado por Colin Hendry, o meia esperou a bola quicar e deu um toque para o alto. Um chapéu magistral que fez o escocês até perder o equilíbrio. Livre, Gazza fuzilou o goleiro Andy Goram. 2–0, vitória da Inglaterra, que acabou eliminada pela Alemanha na semifinal, em disputa de pênaltis.

De fora da lista de Glenn Hoddle para a Copa de 1998, Gazza não suportou o fato de não ser convocado e destruiu o quarto do treinador após descobrir que não estaria no Mundial. Nunca mais atuou pela Inglaterra. Era o primeiro grande ponto de decadência na sua carreira. Anos depois de sua aposentadoria, constantemente estampava as páginas dos jornais por ser visto bêbado, dirigindo sob efeito de álcool ou com comportamentos reprováveis. Também foi internado em clínicas de desentoxicação até 2014.

Muitos tendem a apontar os dedos para Gascoigne, que é sem dúvida um herói fragilizado ao longo dos anos. Rendido em várias ocasiões ao alcoolismo e seus problemas mentais, Paul já pediu ajuda publicamente para abandonar o sofrimento. No entanto, a sua desgraça particular interessa a quem vive de notícias ruins e dramas pessoais. Gazza ganhou neste ano uma ação nos tribunais ingleses contra tabloides que colocaram escutas no seu celular. Por dez anos, suas ligações e interações com a família foram vigiadas e publicadas nos jornais, o que colaborou bastante para que ele tivesse recaídas e mais recaídas com a bebida.

O dilema de Gazza não é muito diferente de casos que vemos na vizinhança ou na família. Ele não é o primeiro astro a cair na perdição e nem será o último a aparecer na mídia em estado lamentável. As situações que ele viveu não servem como justificativa para o comportamento muitas vezes inconsequente, mas ajudam a explicar porque é que a pessoa de Gascoigne era tão diferente do jogador. E como a falta do esporte na sua vida foi um verdadeiro empurrão para o abismo.

Não somos todos vulneráveis quando perdemos aquilo que nos prende à sanidade? Gazza é um grande exemplo de como os traumas podem afetar toda uma vida. E como qualquer julgamento público tem um efeito destrutivo. Mas talvez a gente nunca aprenda.

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