Times memoráveis do Brasileirão: 1976, o Inter de Falcão

A alegria do time colorado chama-se… Dario! Núuuuumero nove! Correu todo, todo o campo e ficou no colo de Manga! (Celestino Valenzuela, narrador da TV Gaúcha, no primeiro gol do Inter contra o Corinthians)

Depois da hegemonia do Palmeiras, que durou de 1972 a 1973, o grande time do Brasil era o Internacional. Liderado pelo craque Paulo Roberto Falcão e por outras feras do futebol local, além do histórico zagueiro Figueroa, o time gaúcho conquistou o seu segundo Brasileirão em 1976. Bicampeão, o Colorado conseguiu naquele ano a melhor campanha da história do torneio. Apesar de não ter sido invicto como em 1979, ergueu a taça com o melhor aproveitamento, com 19 vitórias, um empate e três derrotas.

Em 1975, ao derrotar o Cruzeiro de Raul, Nelinho, Piazza, Palhinha e Joãozinho, o Inter já havia encantado o povo ao jogar um futebol extremamente objetivo. Se defensivamente o esquema funcionava muito bem com o paredão Manga, Figueroa, Cláudio, Marinho Peres e Vacaria, do meio para o ataque era ainda melhor. Caçapava, Falcão e Batista seguravam muito bem a bola e sabiam o que fazer com ela. A Máquina ainda contava com Valdomiro, Lula e o matador Dario, um dos maiores artilheiros do Brasil.

Para que o Inter conseguisse manter a sua regularidade e se consolidasse como grande força nacional, era preciso errar pouco. Errar pouco e dominar todos os rivais. No Rio Grande do Sul, o Colorado já fazia isso, ao doutrinar o Grêmio. O Tricolor teve o mesmo triste destino de todos que cruzaram o caminho da equipe treinada por Rubens Minelli, que foi a síntese do que entendemos por esquadrão.

No primeiro turno, com outros oito clubes, o Inter atropelou e conseguiu uma incrível média de gols. Só perdeu para o Caxias, por 1 a 0, mas detonou o Figueirense por 6 a 0, o Avaí por 4 a 0, a Desportiva por 4 a 1, e o Rio Branco. Passou fácil por Palmeiras, Santos e Grêmio antes de avançar para a segunda fase.

Um empate com o Fluminense, por 1 a 1, poderia ter indicado que dali em diante, os gaúchos não teriam mais vida fácil. No entanto, o rolo compressor voltou a amassar os adversários: foram mais quatro vitórias consecutivas contra Goiás, América-RN, Fortaleza e Botafogo-SP, nenhuma por só um gol de vantagem. Só no terceiro turno que o Colorado experimentou mais derrotas. Perdeu para o Coritiba por 1 a 0 e para o Corinthians por 2 a 1; triturou o Santa Cruz por 5 a 1 e o Botafogo-SP por 4 a 1, se vingou do Caxias por 2 a 0, detonou a Portuguesa por 3 a 0, se classificando para as semifinais.

Dario… Escurinho, Falcão, Escurinho, Falcão…

Pelo mata-mata, o momento seria outro. Qualquer vacilo seria crucial na caminhada do Inter até a defesa bem sucedida do título. Falcão vinha comendo a bola, Batista foi cerebral, Valdomiro e Lula serviam ao esquema com perfeição e Dario era o responsável por balançar as redes.

O Atlético Mineiro de Paulo Izidoro, Marcelo Oliveira e Toninho Cerezo chegou às semifinais com a dura missão de impedir o domínio colorado. Com as suas limitações e visivelmente inferior ao escrete de Minelli, o Galo saiu na frente com gol de Vantuir, aos 30 do primeiro tempo. Martelando a defesa atleticana até o fim, o Inter reagiu de uma vez quando Batista acertou um foguete na gaveta de Ortiz, em um golaço para incendiar a torcida no Beira-Rio.

A virada veio aos 45 e 35 em um dos lances que marcaram a história do futebol brasileiro: a tabelinha de cabeça entre Falcão e Escurinho até a área alvinegra. Dario levantou, Escurinho deu de cabeça para Falcão, que veio para a meia-lua e devolveu também de cabeça. Escurinho se mexeu para dentro da área e testou para Falcão, que chegou batendo. A bola ainda bateu e Ortiz em entrou. Simplesmente épico. Vitória do Inter por 2 a 1, vaga na final.

Do outro lado, outra história sensacional: a invasão corintiana ao Maracanã, para a semifinal contra o Fluminense, que empatou em 1 a 1 no tempo normal. Nos penais, o Timão levou a melhor por 4 a 1 e eliminou o forte Tricolor de Edinho, Carlos Alberto Torres, Rivellino e Doval.

De dois times, apenas um deles era incrível

Em apenas um jogo, no Beira-Rio, o Brasil conheceria o seu campeão. E ele não seria novo. Mais valente do que exatamente técnico, o Corinthians não foi páreo para o Inter, que não deu chances para o adversário estragar a sua festa diante da torcida. Aos 29, Zé Maria segurou Falcão perto da área e cometeu falta. A cobrança estourou na barreira e subiu. Caiu quase na marca do pênalti, onde estava o dono de 16 gols no Brasileirão: Dario. Ele, o homem que parava no ar e que não acreditava em gol feio. Dadá, Dario, Dadá Maravilha, qualquer um destes, testou e abriu o placar contra o arqueiro Tobias.

A forma como o Inter envolveu o Corinthians com o seu toque de bola foi uma lição de como praticar o esporte. Uma palestra de como o futebol deve ser jogado. A aplicação de cada um, a doação, a técnica e o suor foram os fatores determinantes na arrancada de Batista, que só parou quando foi derrubado no bico da área por Ruço, que chegou de carrinho para evitar o inevitável.

Falta sim, senhor, seu Ruço! (Celestino Valenzuela, na transmissão da TV Gaúcha)

Ruço catimbou, ficou na frente da bola e tentou ajeitar a barreira corintiana. Valdomiro se preparava para a batida. Ele, que há muito tempo não encestava uma bola daquela, disse Celestino Valenzuela, icônico narrador da TV Gaúcha. Quando estava valendo, o atacante mandou uma pancada que bateu no travessão e caiu dentro da meta de Tobias, irremediável. 2–0 para o Inter, bicampeão brasileiro. Uma curva sinistra e perfeita. Essa era a marca de um time que não fazia mágica, só praticava um futebol exemplar.

Coroado como campeão brasileiro pela segunda vez consecutiva, o Internacional terminou a sua campanha com incríveis 84,1% de aproveitamento, até hoje a melhor marca. O segundo colocado na estatística, curiosamente, o Inter de 1979, teve 79,7%, sem perder nenhuma partida. Por isso e pela terceira taça nacional, em 79, o Colorado de Falcão entrou para a história como um dos maiores e melhores vencedores do Brasileiro. Com justiça e uma competência enorme.

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