Times memoráveis do Brasileirão: 1980, o Flamengo de Zico

Ainda faltavam mais dois minutos de acréscimo. Mas a arbitragem não apenas não coibia a batalha campal. Não se atentava ao relógio. Era praxe. O jogo acabou antes do tempo. Iniciava ali um novo tempo no futebol carioca, brasileiro, sul-americano e mundial. (Mauro Beting, no livro ‘1981’)

Para qualquer rubro-negro que se preze, o Flamengo de Zico, no fim dos anos 1970 e início dos 80, era o melhor time da história do futebol brasileiro e talvez mundial. Recheado de craques que foram formados na Gávea, o Rubro-negro ganhou tudo e varreu o país, marcando uma época saudosa, com grandes craques e excelentes histórias. Raul, Marinho, Rondinelli, Leandro (Carlos Alberto) e Júnior. Adílio, Andrade, Zico, Carpegiani e Tita. Nunes (Carlos Henrique ou Julio César) na frente, uma escalação de Claudio Coutinho, aclamado como estrategista e motivador.

O futebol era de cinema, digno de Canal 100, artístico, de puro talento e que ainda não era acostumado a vender seus jogadores para o exterior. Zico era o camisa 10, líder, capitão, principal ícone. Qualquer criança que leia dois ou três textos na internet vai reconhecer o tamanho do Galinho naquele time. O Flamengo de 1980 casava perfeitamente com a trilha de ‘Na Cadência do Samba’, o gostoso ‘Que bonito é’, de Luis Bandeira.

A proposta do Flamengo de Claudio Coutinho não era nada revolucionária. Mas a enorme qualidade e a técnica em cada jogada faziam a diferença. Taticamente, o Fla beirava a perfeição, e com a bola, cada descida era um gol que se desenhava. Eficiente e capaz de abrir espaços na marcação adversária, o esquadrão flamenguista chegou no ano de 1980 como tricampeão carioca. Só faltava mesmo o título brasileiro, que veio com louvor em uma campanha quase impecável.

Na primeira fase, o Flamengo terminou em segundo lugar no Grupo C, com 13 pontos, dois a menos do que o líder Santos. De 40 clubes, 28 avançavam para a segunda fase, se juntando aos quatro melhores da Taça de Prata. Daí passaram mais oito grupos de quatro times, com turno e returno, até que sobraram 16 na terceira fase, em mais quatro grupos com quatro equipes. Bem louco mesmo. Apenas os líderes das chaves avançavam para as semifinais, onde o bicho começou a pegar de verdade. Mata-mata, sem espaço para erros, essas coisas.

Pela terceira fase, o Fla superou Santos, Desportiva Ferroviária e Ponte Preta para ganhar uma vaga nas semifinais. O adversário seria o Coritiba. Na primeira partida, no Couto Pereira, vitória dos cariocas por 2 a 0, gols de Zico, que recebeu bolas de Adílio para marcar de forma brilhante. No primeiro, Adílio passou por dois defensores e deixou o camisa 10 livre dentro da área para marcar. O segundo, uma paulada no ângulo, que sacramentou o resultado.

Só valia gol bonito

O Maracanã então recebeu uma partida disputada, onde o Coxa saiu com tudo para tentar uma reação. Sem Zico, que sentiu problemas musculares, o Fla começou mal. Taddei jogou por cima de Raul e abriu o placar para os alviverdes. Aladim recebeu um cruzamento e pegou de primeira para ampliar, em um golaço que assustou os torcedores locais. O improvável tomava corpo quando Nunes saiu em velocidade para chutar no canto. O homem gol fuzilou a defesa coxa branca, empatando para o Fla. Em descida pela direita, Carlos Alberto mandou um canhão e virou, 3–2.

Era o fim do Coritiba naquela semifinal. Anselmo achou tempo para driblar Moreira e bater por cima, em mais uma pintura naquela noite. Arte era pouco para descrever o último gol, feito por Luiz Freire. O ataque paranaense chegou na área adversária com um lançamento longo, um toque de calcanhar, uma matada no peito, um passe pelo alto de Escurinho e um chute de primeira de Freire, que encerrou com classe um jogo épico no templo carioca.

O trajeto do Flamengo até a decisão tinha sido tão intenso, que até os adversários em geral foram inspirados pelo grande futebol praticado pelos meninos de Coutinho. Para a final, viria outro time espetacular: o Atlético Mineiro de Reinaldo. O camisa 9, aliás, colocou o Galo em vantagem em um lance característico: dominou e acertou um chutaço no alto de Raul. 1–0. No Mineirão, quem saiu com a vitória foi o time da casa.

A primeira de muitas batalhas históricas contra o Galo

Três dias depois, a finalíssima, novamente no Maracanã. Clima tenso, a esperança de um grande confronto, que se concretizou. Nunes tocou na saída de João Leite e abriu o placar para o Fla, que igualava o agregado após a derrota em Belo Horizonte. Duas coisas se notaram no primeiro gol: o passe de Zico entre a defesa atleticana e a saída estabanada de João Leite, que estava fora da área no lance.

Valente, o Galo não se entregou. Reinaldo apareceu outra vez para balançar as redes. Com o pé esquerdo, o atacante contou com um pequeno desvio da defesa para empatar. Saiu com o braço esquerdo erguido e comemorando, de forma imponente, como se soubesse que aquele gol era histórico. No entanto, o craque estava enganado. O Fla voltou a estar em vantagem. Júnior pegou um chute de fora da área, a bola explodiu na defesa e sobrou para Zico, que quase deitado, acertou o ângulo de João Leite. Aí foi novamente a torcida que empurrou o esquadrão de Coutinho. 154 mil pessoas jogaram junto com os onze atletas, que naturalmente dominaram o Atlético conforme o tempo passava.

Se antes disso a torcida do Flamengo não era conhecida como ‘Nação’, aquele dia tratou de ser o principal cartão de visitas de uma massa fanática pelas cores do clube da Gávea. Mas a glória não foi alcançada facilmente. O Galo vendeu muito caro a taça de 1980. Reinaldo, oportunista, recebeu um cruzamento de Cerezo e tocou com calma de pé direito para o fundo das redes. 2–2. Quem decidiu foi a loucura e a ginga de Nunes. O camisa 9 flamenguista encarou Silvestre na ponta esquerda, fintou para um lado e para o outro antes de tirar o defensor do lance. Já dentro da área, só bateu alto e selou a conquista, a primeira na história do Fla em Brasileiros.

Depois desse título, vieram mais três durante a Era Zico, em 1982, 83 e 87. Fora o brilhante ano de 1981, com a Copa Libertadores e o Mundial Interclubes, uma surra no Liverpool de Dalglish.

1980 foi a largada para o período de enorme sucesso nacional do Flamengo, até hoje o sinônimo do futebol bem jogado e talentoso no Brasil naquela década. Não à toa, o Fla foi o adversário a ser batido até o fim dos anos 80. Capaz de desequilibrar uma competição, Zico ficou para sempre marcado pelos gols de placa e jogadas maravilhosas no Maracanã. Saudoso é pouco. Aquele Flamengo foi inigualável.

Faixa bônus: todos os gols do Flamengo no Brasileirão de 1980.

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