O descontrole de Neymar é o nosso também

O Neymar não está em seu equilíbrio normal. Ele entrou no meio dessa confusão aí… Não é isso que nós queremos ver. Para que essa cabeçada? Feio isso, não precisava disso. A imagem que passa é que ele foi pedir desculpas, mas, de qualquer maneira, não se pode fazer isso. (Galvão Bueno)

Neymar é craque. É o melhor jogador que surgiu no Brasil desde que Ronaldo e Ronaldinho explodiram para o mundo. É essencialmente uma boa pessoa, que aparece fazendo boas ações, sendo legal com fãs, atencioso. Tem uma ótima relação com o pai, mesmo com o progenitor sendo suspeito de lavagem de dinheiro na sua transferência com o Barcelona. Não fosse a fama, a grana e o talento, seria uma pessoa normal. Mas felizmente para ele, tudo isso nos coloca em um patamar diferente. Será mesmo?

Como ser humano, à parte de sua exposição pública exagerada, ele poderia ser você. E ontem, contra a Colômbia, como se viu, não estava em um bom dia no trabalho. Estava claramente descompensado emocionalmente e além de não fazer uma boa partida, acabou suspenso, expulso e tendo uma reação equivocada durante uma confusão. Poucos instantes depois de chutar a bola em Armero, que se jogou como se tivesse levado um tiro de canhão na Segunda Guerra, o capitão brasileiro ameaçou dar uma cabeçada em outro adversário e levou um baita empurrão de Bacca, que também foi expulso. São fatos.

O que passa para a questão de interpretação é se Neymar teria direito a fazer bobagens como essa. Evidente que tem. Inclusive, viveu o outro lado da catimba, já que na final da Copa do Rei, no mês passado, quis chapelar e humilhar jogadores do Athletic de Bilbao, que perdia por 3 a 1. Ontem, os colombianos novamente trataram de tentar tirar o camisa 10 do sério. E com muito pouco, conseguiram.

Quase todos os jogadores da Seleção Brasileira que falaram à imprensa, passaram a mão na cabeça do colega, acusando a arbitragem de errar e prejudicar o Brasil. Quem não pensava dessa forma, criticou Neymar, acusando-o de ser um monstro, um babaca, um ridículo e um chorão. Novamente, questão de interpretação, que eu particularmente não compartilho.

Em tempos que qualquer atitude pública vira pauta de discussão, Neymar pulou por cima da fogueira e acabou se queimando. Tudo isso por uma bolada em um rival, em um dia ruim. Se descontrolou, ainda que não causando nenhum dano grave. Errou, fim. A discussão sempre será polarizada para dois pontos: o suposto mau caráter de Neymar disfarçado pela mídia, e a benevolência com um jogador que é imprescindível e essencial no esquema da Seleção, que virou vítima da sua própria superexposição.

Você pode muito bem não gostar de Neymar pelo que ele representa. Brincalhão, com alma de moleque, firuleiro, fala um monte de besteiras no Twitter. Até onde podemos enxergar, ele lembra aquele seu vizinho bobão. Não há nenhum problema nisso. A questão é que é difícil rotular e descobrir como uma pessoa se porta no particular, somente por vê-la em campo ou dando uma entrevista na TV.

E sinceramente, qual é o interesse em bater o martelo para julgar se Neymar é de fato uma boa pessoa ou não? Qual é o interesse em saber se na intimidade, o garoto é isso que passa na Globo ou não? Se ele não é um cretino que teve sua vida toda trabalhada pelo marketing? O que obriga ele a ser gentil, educado, bem intencionado e feliz? Ah sim, o fato de ser exemplo. Se for só por isso, talvez seja válido analisar a fundo o caráter do menino. Muito embora: ser um exemplo para a sociedade e ser uma grande pessoa sejam coisas diferentes. Bem diferentes.

Com um pouco de distanciamento, é possível dizer que sim, ele errou, sim, ele esteve mal, sim, ele poderia reconhecer isso, não, não foi culpa do árbitro, sim, os problemas pessoais afetam o trabalho. O problema é que ele há de ser julgado por isso também. Passar a mão na cabeça de quem erra é igualmente nocivo. Ou a gente bate no peito e assume a bronca, ou vai passar a vida toda se escondendo atrás da própria ‘boa imagem’. Há quem use o canalha “alguma vez eu fui maldoso?” ou o “nunca fiz mal a ninguém”, que por si só já serve para desmascarar noções que temos de nós mesmos. Espero, inclusive, que Neymar não use essa carta. Pois todos nós já fomos maldosos e já fizemos mal a alguém.

Como se a gente nunca tivesse feito parecido, como se a gente não tratasse mal o amigo, como se os nossos erros fossem sempre perdoáveis e que o fato de não sermos famosos nos dá o direito de pisar na bola e pronto, deixa assim mesmo, segue o jogo.

Ontem foi uma bolada, mas poderia ter sido um soco ou um chute. E se amanhã Neymar tornar a fazer bobagens, é porque não aprendeu nada com a expulsão diante da Colômbia e precisa ser cobrado pelo treinador e pelos colegas.

E enquanto nós não tratarmos os jogadores como humanos que são, independente do salário astronômico que recebem, não teremos aprendido nada. A não ser que você pense que não precisa. Aí é outra história…

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