O primeiro título da Colômbia foi pura catarse em Bogotá

Gol, Gol, Gol, Gol. Gooool da Colômbia! Colômbia! Colômbia, minha pátria querida! Golaço colombiano! Golaço colombiano! Belíssimo gol com a cabeça! (Narrador da GOL TV após o gol da vitória de Iván Córdoba)

Enquanto o Chile tenta conquistar seu primeiro título jogando em casa, na edição de 2015 da Copa América, a Colômbia já sabe como é o gostinho desde 2001, quando derrotou o México na decisão. Em um torneio sem a Argentina e com um Brasil decepcionante, os donos da casa levaram o caneco e comemoraram pela primeira vez uma conquista, diante de um povo ensandecido em Bogotá.

O herói do campeonato foi o zagueiro Iván Córdoba, que acabou roubando a cena na decisão do El Campín. Muitos esperavam que o atacante Aristizábal seria o protagonista, o defensor foi o responsável por subir de cabeça e resolver o duelo com os mexicanos.

Primeiramente, é importante contextualizar o cenário colombiano em 2001. Assolado por conflitos entre as Farc e o exército local, o país chegou a ter cancelado o seu direito de sediar o torneio. A Venezuela estava preparada e iria receber a Copa América, quando em cima da hora, a Conmebol devolveu à Colômbia o papel de anfitriã.

Tudo foi resolvido em alguns dias, mas a Argentina não participaria, alegando que alguns de seus jogadores foram ameaçados de morte por membros das Farc. O Canadá, que já estava treinando, voltou para casa depois do cancelamento e se negou a participar do evento. Como solução para as duas desistências, Costa Rica e Honduras vieram de forma emergencial para disputar a competição. Tecnicamente falando, a Copa já tinha perdido um bom pedaço da sua qualidade. O que não quer dizer que tenha faltado emoção.

De 11 a 29 de julho de 2001, sete cidades foram sede da Copa América na Colômbia: Barranquilla, Medellín, Bogotá, Cali, Manizales, Pereira e Armenia. Mesmo com o temor de atentados terroristas por parte das Farc e de ameaças de bombardeios, o torneio transcorreu sem grandes problemas.

Não para o Brasil, que teve atuação vexatória e foi eliminado nas quartas de final para Honduras, perdendo por 2 a 0. Na fase de grupos, a Seleção, então treinada por Luiz Felipe Scolari foi derrotada para o México, mas se recuperou e conseguiu duas vitórias. Muito se falou após a queda para os hondurenhos, que aquele era o maior vexame da história da Seleção. É que eles não faziam ideia do que viria em 2014.

Voltemos à Colômbia. Forte, motivada e competente, a equipe da casa fez nove pontos contra Venezuela, Equador e Chile. Diante do Peru, nas quartas, Aristizábal marcou duas vezes e se consolidou como destaque da competição. O placar foi 3–0, o outro gol foi de Giovanni Hernández. Treinada novamente por Francisco Maturana, técnico nas Copas de 1990 e 94, a Colômbia era favorita para enfrentar Honduras, um time encardido e que já havia derrubado o Brasil. A semifinal terminou em 2–0 para os mandantes, com gols de Bedoya e Aristizábal.

Não podia dar errado. Todo o esforço dos jogadores havia sido crucial para uma campanha incontestável. Até a final, a Colômbia tinha cinco vitórias, sem sofrer nenhum gol. Coisa que a sua melhor geração de talentos não conseguiu no passado, com Higuita, Perea, Valderrama, Asprilla e Rincón. O impacto de ter o país ameaçado pela violência e pelos conflitos com as Farc foi profundo nas esperanças dos cidadãos colombianos. Coube à seleção cafetera mostrar que era possível acreditar em dias melhores.

Os dias melhores vieram a partir de 29 de julho, quando às 16h30, Colômbia e México adentraram o gramado do El Campín, em Bogotá. Maturana escolheu Óscar Córdoba, Yepes, Bedoya, López, Ramírez, Grisales, Vargas, Hernández, Aristizábal e Murillo como os incumbidos da missão de redimir o povo local, já sofrido por tantos anos desgraçados nas ruas de suas principais cidades.

A história estava mesmo escrita e encaminhada para um final feliz. A Colômbia pressionou demais e massacrou o México pelo direito de gritar o gol mais demorado da sua seleção. Quando Aristizábal sentiu uma lesão muscular e precisou sair, foi um verdadeiro baque. Mas os colombianos não podiam abandonar os jogadores naquele momento. Veio o intervalo e o placar seguia zerado. Aos 19 da segunda etapa, López teve uma falta para cobrar na intermediária direita. Os defensores colombianos subiram para a área mexicana para tentar um cabeceio.

A bola subiu no cruzamento de López e o tempo parou até que o destino escolhesse Iván Córdoba para subir de cabeça e acertar com perfeição o ângulo baixo de Oscar Pérez. Ali, Bogotá ficou pequena para tanta empolgação. O país explodiu em um só som: o gol, que libertou uma seleção da sua própria maldição de anos anteriores.

Para os jogadores, terminar a partida e sentir o calor das arquibancadas, levantar a taça em um gesto inédito no país, foi inesquecível. Ninguém mais será capaz de reprisar a catarse coletiva que Bogotá viveu naquela tarde.

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