Muitos times tiveram líderes. Só o Santos teve um gerente

Quando os soldados sabem que seus líderes cuidam deles como cuidariam de seus próprios filhos, eles amam os seus líderes como amam seus próprios pais. Isso faz com que queiram morrer na batalha, para recompensar a benevolência de seus líderes. (Sun Tzu, em ‘A Arte da Guerra’)

O jogador de futebol muitas vezes tem comportamento parecido com o de uma formiga. Sem que haja uma similar para guiar a sua horda na construção de complexos túneis subterrâneos, não há plano que vá adiante. Em um time, onze jogadores dividem responsabilidades e missões diferentes. Mas só um deles leva a faixa de capitão e tem o poder de falar a todos com um grito: o líder.

Zito era um desses atletas que foram e serão eternamente lembrados por conduzir um time ao sucesso. Não era o mais talentoso, afinal, alinhava com feras como Pelé, Pepe e Coutinho. Era o mais respeitado, o mais enérgico e o mais mandão. Porque era esse o seu trabalho. Pela imagem de chefe e dono do Santos, foi chamado de ‘Gerente’. Em campo, não era preciso sorrir e nem mostrar a outra face. Zito chegava com vigor para cumprir as tarefas que lhe eram passadas: impedir que o adversário progredisse para enfrentar a sua defesa e ainda ser o primeiro passe antes dos meias.

O Santos dos anos 1960 foi o que foi porque tinha uma voz estridente ali atrás. Um volante forte e combativo, que foi a raça e a defesa em um time extremamente ofensivo. Alguns dizem que o Peixe só sabia mesmo atacar, o que é imediatamente desmentido quando lembramos do trabalho de Zito, um jogador que tinha autoridade suficiente para deixar Pelé envergonhado após broncas dentro das quatro linhas.

Zito também foi um dos responsáveis por equilibrar o meio-campo da Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 1958, que começou com Dino Sani, improvisado um ano antes como volante. Sani se lesionou e deu lugar ao santista, que liberou Didi para ser mais armador e flutuar mais no setor, perto do ataque. Com Zito, entraram também Pelé e Garrincha e o resto da história você já sabe: vitória por 5 a 2 contra a Suécia, que rendeu o primeiro título do Brasil em Mundiais.

Em entrevista ao livro ‘Os dez mais do Santos’, de Thiago Arantes, Zito conseguiu se descrever como nunca nenhum outro atleta ou repórter ousou antes. O medo de irritar o homem por trás do bravo capitão santista impedia uma definição precisa.

“Meu jeito era guerreiro, sempre fui assim. Eu cutucava todo mundo mesmo, reclamava. Xingava mesmo. Dentro de campo, não tem essa de ficar com raiva. Às vezes, eles reclamavam do meu jeito, xingavam de volta. Mas escutavam o que eu dizia. Sempre escutaram. E isso era o mais importante”, disse.

E com esse jeito, o Santos foi nove vezes campeão paulista, bicampeão da Libertadores, do Mundial Interclubes, tetra do Rio-São Paulo e quatro da Taça Brasil. Pela Seleção, Zito foi bicampeão mundial em 1958 e 62, com a base que marcou época no Santos.

Na calada da noite de domingo, o Brasil e sobretudo o Santos, perderam um ícone. O Peixe ficou órfão não de seu maior craque, mas de seu grande líder, o homem que dava as cartas do seu melhor time. O cão de guarda e marcador incansável, o autor de gols surpreendentes e disputas pesadas como o campo e o couro da bola daqueles tempos.

Em um mundo com cada vez menos campeões de 1958 vivos, resta apenas a homenagem a Zito, o Gerente. O responsável por ganhar a bola que Pelé usou tantas vezes para castigar os goleiros adversários.

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