A balada de Günter Netzer

Se você começa com quase nada, as pessoas se concentram muito mais em te ouvir. E daí, quando vier o estouro, o impacto será muito maior. (Herbert von Karajan, famoso maestro da Filarmônica de Berlim)

Günter Netzer não era nem um pouco convencional no seu estilo de ser e de atuar dentro das quatro linhas. Lembrado na Alemanha por grandes atuações entre os anos 1960 e 70, o meia foi um ícone de rebeldia, muito embora recusasse o rótulo.

Ele não foi exatamente o jogador mais vencedor que a Alemanha já viu, visto que atuava pelo rival do Bayern de Munique, o maior campeão local. Era o capitão e o líder intelectual do Borussia Mönchengladbach, que rivalizou com os bávaros pela hegemonia alemã nos anos 1970. Não só rivalizou, aliás. Dominou o futebol do país com uma proposta moderna que seria aprimorada pela Holanda de 1974.

Antes da Copa de 74, Netzer e seus Potros (apelido dado ao M’gladbach pela alma jovem de seus atletas) já mostravam que o sucesso seria o caminho natural para tanto talento. Uma década após a criação da Bundesliga, o time da Renânia mostrava as garras e formava craque atrás de craque para conseguir a soberania nacional, plano que foi atrapalhado por Colônia, Bayern e Hamburgo.

O M’gladbach conquistou cinco vezes a Salva de Prata da Bundesliga entre 1969 e 77, só perdendo a coroa para o Colônia de Dieter Müller, em 78. A conquista de 77 foi a última na história do Borussia no Campeonato Alemão.

Nesse contexto, Netzer iniciou a sua carreira justamente no ano de fundação da Bundesliga, em 1963. Com 19 anos, o menino magro e feio havia nascido e crescido em Mönchengladbach, usando a bola como seu passatempo predileto. Muito novo, já fazia parte das categorias de base do time da cidade. Quando estreou pelo elenco titular, não demorou a engrenar. Virou peça-chave de uma equipe que buscava a promoção à elite alemã. Conseguiu isso em menos de dois anos como profissional.

Günter ainda usava cabelos curtos e anos mais tarde, revelou em uma entrevista que só adotou o visual surfista com costeleta a pedido de uma namorada, já que ele se considerava muito feio e que seu rosto teria menos destaque com as longas madeixas e a costeleta quase Elvispresleyana.

Em campo, logo ficou conhecido como um maestro. Era tão respeitado, que ganhou o apelido de ‘Karajan’, em homenagem ao regente da Filarmônica de Berlim, Herbert von Karajan, o músico clássico mais bem sucedido na indústria fonográfica, com cerca de 200 milhões de discos vendidos. Günter, por sua vez, tinha uma habilidade especial de mirar o passe em um lugar planejado meticulosamente na sua cabeça. Corria bem, apesar de não ter um perfil atlético e preferir dar seus passos com a bola nos pés.

As suas jogadas eram uma alternativa interessante ao futebol burocrático praticado pelas seleções europeias naquela época. Sem se deixar influenciar pelo catenaccio italiano ou pela blitz alemã, Netzer era o que os ingleses chamavam de ‘one of a kind’, ou único, por assim dizer. Tudo nele era especial, exclusivo ou diferente. Até mesmo as suas contradições.

Em 1971, durante a campanha da Copa dos Campeões, o Borussia encarou a Internazionale pela segunda fase. Na Alemanha, o placar foi de 7 a 1 contra os nerazzurri. Netzer marcou duas vezes, Jupp Heynckes e Ulrik Le Fevre também. Klaus-Dieter Sieloff marcou o sétimo. Roberto Boninsegna, autor do gol de honra interista, foi o personagem da partida.

Graças a uma lata de coca-cola atirada em sua direção, a Uefa anulou a partida, que tinha tudo para ser épica na caminhada dos Potros até o título. A Inter venceu na Itália por 4 a 2 e empatou em 0 a 0 em Berlim, conseguindo a vaga. Uma das maiores partidas da vida de Netzer acabou esquecida pelos arquivos da competição, tudo por causa de uma lata de refrigerante.

Curiosamente, Netzer esteve só em dois dos cinco títulos do M’gladbach na década de 1970. Participou do primeiro e do segundo, em 70 e 71. Mas estas pratarias não se comparam ao emblemático jogo da final da Copa da Alemanha em 1973, contra o Colônia.

Negociado com o Real Madrid, o meia conversou com o treinador Hennes Weisweiler e acabou sendo colocado no banco de reservas no que seria o seu adeus. O time claramente sentiu a sua falta, apesar de fazer o primeiro gol, justamente com o substituto do seu capitão, Herbert Wimmer. Herbert Neumann deixou tudo igual para os Bodes, aos 40. No intervalo, Weisweiler percebeu o erro e avisou Netzer que ele entraria. Ouviu um não do atleta, que permaneceu sentado no banco. Günter acompanhou ao segundo tempo e ficou inquieto com o domínio do Colônia. Aos 91 minutos, antes do início da prorrogação, se levantou, tirou o agasalho e avisou o treinador:

“Eu estou entrando”.

Christian Kulik saiu para dar lugar ao camisa 12. Günter demorou a tocar na bola, mas quando conseguiu, menos de três minutos depois, foi acionado pela primeira vez. Dominou a bola e carregou por alguns metros antes de fazer um passe. Se movimentou para dentro da área para receber a devolução e marcou o gol da vitória. Até o fim da prorrogação, os Potros seguraram o resultado e comemoraram o título, que marcou a despedida de Netzer em grande estilo, também traçando a sua personalidade forte. Anos mais tarde, o atleta diria que o gol foi um acidente. Assim que ele dominou a bola antes de correr, um tropeço quase fez com que o defensor do Colônia conseguisse o desarme. É um desses “quases” que fazem toda a diferença entre homens normais e mágicos do esporte.

O M’gladbach de Weisweiler era o mais kamikaze do seu tempo. Se arriscava para conseguir resultados improváveis e ganhou fama por começar a trabalhar melhor a movimentação de seus jogadores.

“Nossa grande vantagem sobre todos os outros times é que os atletas estão constantemente em movimento. Quando Netzer está com a bola, ele pode escolher quatro ou cinco atletas para passar”, disse Weisweiler.

Antes disso, foi titular na campanha do título da Alemanha na Eurocopa de 1972. Também esteve entre os campeões mundiais em 1974, como reserva de Wolfgang Overath, ídolo do Colônia que se aposentou em 1977. Um destes jogos pela seleção é considerado como uma das maiores atuações do século passado, diante da Inglaterra, em Wembley, pelas Eliminatórias da Eurocopa de 72. Passeou em campo. Ninguém tomava a bola enquanto estava grudada nos seus pés. Netzer armou contragolpes fatais e ainda achou tempo para fazer um gol de pênalti, que aliás, bateu em uma trave e rolou quase em cima da linha antes de parar nas redes.

Para muitos, Netzer era um rebelde e um precursor do estilo ‘boleiro’ de ser. Apesar de ter pinta de galã e até lembrar um outro esportista mulherengo dos anos 1970, James Hunt, o alemão era constantemente visto com carros velozes e caros. Dono de uma boate em Mönchengladbach, chamada Lovers Lane, Günter entrou de cabeça na era da discoteca nos anos em que esteve na Alemanha. Teve seu último brilho pelo Real Madrid, a partir de 1973, ao lado de Paul Breitner, com quem foi bicampeão espanhol na época em que o rival Barcelona contava com Johan Cruyff e Johan Neeskens.

Parou de jogar pelo Grasshopper, da Suíça, em 1977. Não muito depois, virou dirigente do Hamburgo e foi um dos primeiros diretores esportivos da era moderna no futebol alemão. Ousado nas contratações e na forma de gerenciar o plantel, Netzer teve bons frutos em pouco tempo. Tricampeões alemães em 79, 82 e 83, os Dinossauros também levantaram a taça da Copa dos Campeões de 83 contra a Juventus de Platini e Boniek, sob o comando do brilhante Ernst Happel. Foi a era mais bem sucedida do Hamburgo, que hoje se contenta em lutar contra o rebaixamento na liga local. No entanto, desde 1963, ano de criação da Bundesliga, é o único time a nunca ter caído da primeira para a segunda divisão.

Autêntico e convicto de tudo o que fez para ser reconhecido, Günter é o retrato de alguém que não gosta de olhar para trás e se arrepender. Afinal, cada ação traça o que somos ou queremos ser.

“Meu estilo de vida era bem excessivo às vezes, mas a chave é que o futebol sempre foi o mais importante para mim. Sempre soube que o esporte era a minha prioridade e eu tinha de dar o meu melhor. Se não fosse assim, eu teria certamente sido chutado pelas coisas excêntricas que fiz. Não tenho dúvida que elas teriam consequências graves se eu não tivesse desempenhado meu máximo potencial. Me aceitavam e diziam: “ele é maluco, mas joga bem”. Este reconhecimento me ajudou a existir”, afirmou Netzer em entrevista ao site da Fifa, em outubro de 2014.

Ainda bem que ele foi reconhecido. Para cada atleta considerado maluco, há uma grande história. E bem, nós gostamos de grandes histórias, não?

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