A vitória dos EUA contra a Alemanha também poderia ser um clichê de Stallone

Todo campeão um dia foi um desafiante que se recusou a desistir dos seus objetivos. (Rocky Balboa, o maior lutador fictício da história do boxe)

Na última quarta-feira, um amistoso internacional em questão dominou o noticiário esportivo. Alemanha e Estados Unidos jogaram em Colônia por uma reedição do confronto da Copa do Mundo de 2014, que valeu pelo grupo G. Vencer a Alemanha não era uma novidade para os americanos. Afinal, em outras três ocasiões, os tetracampeões mundiais provaram da força do futebol listrado e estrelado. A última, aliás, em 2013, terminou em 4 a 3.

Götze abriu o placar no primeiro tempo, Diskerud deixou tudo igual aos 41 e Wood foi o autor do gol que sacramentou a virada dos yankees, com 42 minutos na segunda etapa. 

Klinsmann, ídolo alemão e campeão mundial pela Alemanha em 1990, agora está do outro lado, tentando dar mais relevância a uma seleção emergente no cenário internacional. Com apostas em jovens desconhecidos do grande público, o treinador caminha a largos passos para ser o melhor que já passou pelo banco dos yankees.

O placar de 2 a 1 para os EUA, no frigir dos ovos, não foi nenhum milagre ou tampouco uma desgraça na vida dos alemães. Até mesmo porque ninguém sofre por amistosos. No entanto, para os americanos, a vitória teve um gostinho especial por ser justamente em cima dos atuais campeões mundiais, que escalaram seus titulares para a partida. Bem verdade que no ano passado, a Argentina também se vingou da final de 2014 em um simples amigável.

O sabor de um triunfo contra a Alemanha é muito melhor e mais inesquecível para os Estados Unidos, que há duas décadas mal sabiam o que era um futebol bem jogado. Receberam a Copa do Mundo em 1994 e passaram por uma transformação gradual até a consolidação da MLS como conhecemos hoje, atraente para o público que vai aos estádios e que se empolga com astros internacionais que vestem cada vez mais as camisas de times do país. Beckham, Gerrard, Lampard, Villa, Kaká são a nova geração do trabalho que era feito na década de 1970 com Pelé, Cruyff, Carlos Alberto e Beckenbauer. Exceto que hoje, na América, há um interesse muito maior em ter o futebol como um dos esportes a se acompanhar, mesmo que dividindo espaço com a NFL, a NBA e a MLB.

Bater na Alemanha, ainda que por 2 a 1, é sim uma medalha no peito de cada um que esteve em campo no Rheinstadion, em Colônia. Ainda mais para o jovem Wood, que ganha as suas primeiras chances como titular do USMNT. Se o time masculino não é tão vencedor quanto as meninas lideradas por Hope Solo e Abby Wambach, pelo menos a torcida do resto do mundo os rapazes já podem dizer que conquistaram. Atualmente, os alemães são o time a ser batido em qualquer competição. É nitidamente a equipe mais forte e com os melhores jogadores, embora ainda sinta a ressaca do tetra, um ano depois.

O filme de drama e superação dos EUA começou na semana passada, quando a equipe fez 4 a 3 na Holanda em outro amistoso igualmente histórico. Foi a primeira vez que a Laranja caiu diante dos americanos. Wood também teve papel crucial nesta partida, marcando duas vezes. Como se não bastasse passar pelo primeiro europeu, os Estados Unidos foram lá outra vez e derrotaram a temida Alemanha, terra do 7 a 1, do chucrute, de Gutenberg, do strudel, da Mercedes, da BMW, da cerveja quente e dos quatro títulos mundiais. Ja, ja, ja, 7–1 leicht! (Sim, sim, sim, sete a um foi pouco, em alemão)

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O filme: ‘América: o novo lar do futebol’

A trama começa com um país que aprende aos poucos a gostar de futebol, aquele que é jogado com os pés e um objeto esférico. Eles o chamam de soccer, só para diferenciar do bruto football, que é bem legal sim, claro, apesar de ter um grave erro conceitual no nome. Porém não vamos discutir isso hoje.

Nesse contexto de aprendizado e adaptação ao fato de não poder dar tackles nos coleguinhas, o treinador louro e esbelto Klinsmann ensina aos jogadores a furar o bloqueio alemão e a neutralizar os perigosos ataques. Por anos, o comandante preparou seus soldados, que carregam nomes pouco identificados com a cultura norte-americana. Alguns deles até naturalizados para a missão de transformar os Estados Unidos em um time campeão mundial. Mix Diskerud, o camisa 10, por exemplo, nasceu na Noruega.

Stallone, que vira preparador de goleiros, acompanha de perto a evolução de Brad Guzan, o titular na posição após a aposentadoria de Tim Howard da seleção. Os dois treinam em ginásios e em praias californianas, com camisetas regatas, calções curtos e polainas. Só porque era legal nos anos 80. Viraram grandes amigos e agora se abraçam do nada, já que a amizade não tem limites e o abraço é uma grande demonstração de afeto. Mantendo a virilidade e o profissionalismo, Guzan se consolidou como principal goleiro dos Estados Unidos e vai acumulando atuações elogiáveis enquanto o USMNT lutava por prestígio.

Em 2015, depois de duas vitórias seguidas contra México e Holanda, os Estados Unidos desafiaram a Alemanha para um jogo que valia o Cinturão Mundial de Seleções. Nada do que os americanos fazem é menos do que estratosférico, mundial ou interplanetário, daí saiu a ideia de um confronto que valesse a supremacia do futebol no planeta.

Stallone, Klinsmann e seus rapazes se achavam perfeitamente capazes de bater a forte Alemanha, que como Ivan Drago em Rocky IV, amassou sonhos e mais sonhos nos últimos anos com o seu futebol enérgico, ofensivo e mortal. Cada contragolpe de Müller e Götze era como um soco certeiro do soviético, no meio da cara. O Brasil que o diga, indo para a lona após cinco gols consecutivos, em plena semifinal da Copa. Há quem diga que Stallone chorou no Mineirão pela morte simbólica do time de Felipão e jurou vingança.

No dia 10 de junho de 2015, o tão esperado Cinturão Mundial de Seleções foi realizado em Colônia. Stallone presenteou Guzan com um par de luvas que ele utilizou nas gravações de Fuga para a Vitória, aquele filme dos anos 80 que tinha o Pelé, Bobby Moore e Michael Caine. O goleiro então transpirou intensamente pelos olhos e se concentrou para a partida que seria a mais importante na sua vida.

Aos 11 minutos, a Alemanha já havia imposto sua superioridade técnica. Em boa jogada pelo meio, Herrmann achou Götze, que bateu no canto de Guzan e abriu o placar. 1–0 e a torcida local gritava DEUTSCHLAND! DEUTSCHLAND!, ensandecida com mais uma possível festa de sua poderosíssima equipe de futebol. A minoria americana não se abateu. Seguiam com as suas bandeiras e camisas, respondendo de forma tímida com o clássico U-S-A! U-S-A! U-S-A!

Do banco, Stallone socou um isopor com garrafas de água e pediu mais empenho do setor defensivo. O time dos EUA então passou a atacar com mais frequência e atordoou os gigantes germânicos. Aos 40, o careca Bradley dominou a bola com calma e cruzou de forma esplêndida para Diskerud, na outra ala. O norueguês recebeu, deu um toque para amaciar e chutou para vencer o arqueiro Zieler. Festa em Nova York, onde 2 milhões de torcedores pararam a Times Square para acompanhar o bravo escrete americano. Fogos de artifício com as cores da bandeira nacional foram lançados assim que a rede alemã balançou com o chute de Diskerud.

Foto: New York Times
Foto: New York Times

Aos poucos, os yankees começaram a gostar do jogo. Era mesmo muito legal sentir a apreensão e a ansiedade na espera por um outro gol. E ele veio, aos 42, com Wood. O atacante dominou, girou para cima da marcação e bateu com força para deixar o seu país em vantagem. O momento foi tão marcante, que o pulo do alemão e a trajetória da bola transcorreram em câmera lenta. Um quadro mostrava a rede aguardando o movimento; outro exibia os torcedores, insanos e fora de controle, pulando e atirando cerveja para o alto, tamanha empolgação.

No momento em que a bola toca o barbante, uma vinheta de tom heroico toma a tela, como aqueles momentos em que o mocinho segura a vítima pela ponta dos dedos no precipício. Stallone invade o campo para abraçar Guzan, mesmo com dois minutos restantes no relógio do árbitro. O trecho final da partida é meramente protocolar. Crianças sorriam nos ombros dos seus pais, jovens comemoravam nas ruas e os mais velhos choravam, pois por muito tempo esperaram tal vitória.

Os Estados Unidos venceram a hegemonia e a eficiência alemã. A águia careca da liberdade sobrevoou os céus de Colônia para celebrar os novos ‘campeões mundiais’. E assim, o time de Klinsmann mostrou como é que se faz para derrubar uma potência do esporte. Se os germânicos eram reconhecidos pela sua técnica e meticulosidade nas jogadas, os americanos entraram para a história pelo seu coração determinado e pela vontade de vencer.

Alemanha 1–2 Estados Unidos e ‘may god bless America’.

[Fim, sobem os créditos com uma música feita pela banda Survivor]

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