Manchester United 2–1 Bayern: os detalhes do ‘Milagre do Camp Nou’

Foi um verdadeiro choque como conseguimos virar aquilo e até hoje, as pessoas me param na rua para dizer que naquela hora elas nem tinham terminado de comemorar o primeiro gol quando saiu o segundo. Gente que estava assistindo ao jogo em pubs ainda voltava da corrida do primeiro gol quando notou que celebraria ainda mais — Alguns nem perceberam que houve um segundo. Aconteceu muito rápido. (Teddy Sheringham, sobre o título do Manchester United em 1999, no Camp Nou)

É difícil lembrar de uma final tão dramática e memorável quanto a da Liga os Campeões de 1999. No Camp Nou, Manchester United e Bayern de Munique duelavam pela taça mais importante daquela temporada. Até aquele momento, era visível que no quesito tradição, os alemães estavam em vantagem. Eram três títulos contra apenas um.

Quem dera fosse fácil taxar uma equipe completamente favorita apenas ao olhar o seu currículo. Se o futebol fosse só uma questão de tradição, não teríamos tantas zebras adoráveis e viradas incríveis, momentos em que os grandes sucumbiram diante da motivação dos menores. Mais do que um título emblemático, as histórias que saem de uma noite como aquela, em 1999, valem todo o imaginário, transformam-se em verdadeiras lendas.

O dia 26 de maio de 1999 teve uma temperatura agradável e bom público nas arquibancadas do Camp Nou. Foram 90.245 pessoas presentes em um duelo épico do esporte. Por gerações e gerações, torcedores vão se referir à final da Champions como AQUELE jogo. Desde então, poucos foram tão ricos em emoção como este, é preciso que se diga.

Dias antes, o United havia conquistado o Campeonato Inglês e a Copa da Inglaterra. Era o ano de consagração de Ferguson, que já havia sido tetracampeão inglês, mas não sabia como era ser vencedor da Liga dos Campeões. O Bayern era o campeão alemão e queria uma dobradinha.

Para o United, o título seria o primeiro de uma equipe inglesa na Europa desde o banimento de 1985, após a tragédia de Heysel, entre Liverpool e Juventus. Alex Ferguson ainda era só Alex Ferguson e Lothar Matthäus não era campeão europeu. Aliás, o capitão do tri mundial da Alemanha acabou nem sendo.

A geração de 1992 nos Red Devils, que virou até filme, estava começando a ganhar reconhecimento pelos seus feitos em Old Trafford. Beckham, Giggs, Scholes, os irmãos Neville e Butt foram cruciais na caminhada para a tríplice coroa, talvez a conquista mais importante da Era Ferguson.

Sem a mesma força e os mesmos craques de hoje em dia, o Bayern podia levantar a sua quarta taça europeia com a marca da eficiência do trabalho de Hitzfeld, da dedicação de Matthäus e dos gols do grandalhão Jancker. Não era exatamente a melhor geração alemã, apesar dos bávaros terem sido a base da seleção nacional naqueles tempos.

O Bayern de Ottmar Hitzfeld veio a campo com Kahn, Matthäus, Kuffour, Linke, Tarnat e Babbel, Effenberg e Jeremies, Basler, Jancker e Zickler.

Já o Manchester, de Sir Alex Ferguson, entrou com Schmeichel, Stam, Johnsen, Gary Neville e Irwin, Butt, Beckham, Blomqvist e Giggs, Cole e Yorke.

Às 20h45, a bola rolou em Barcelona. Firme na marcação e no ataque, o Bayern foi à frente para tentar fazer uma blitz ofensiva. Aos seis minutos, Johnsen cometeu falta em Jancker, perto da área inglesa. Basler tomou distância e bateu com curva no canto direito, vencendo Schmeichel. Sem nem ter tempo para se aquecer de forma apropriada, o United já estava atrás no placar, 0–1.

Dominando as ações, o Manchester tinha claros problemas na criação. Desfalcado de Paul Scholes e do volante Roy Keane, o time de Ferguson não encontrava um bom caminho para perfurar a defesa germânica. Aos poucos, o Bayern começou a explorar os contragolpes e levou muito perigo.

Na segunda etapa, o confronto esquentou de vez. Perto da segunda metade, os dois times passaram a se atacar. Desesperado pelo empate, o United deslanchou, enquanto o Bayern procurava matar o adversário de vez com outro gol. A entrada de Scholl na vaga de Zickler quase teve efeito imediato, quando o meia dominou bem uma bola, puxou para um espaço livre e acertou a trave de Schmeichel, batendo por cima. Pouco depois, Jancker virou uma bicicleta no travessão dos ingleses, mostrando que os alemães não estavam contentes com o resultado parcial.

As duas mexidas de Ferguson (Sheringham por Cole e Solskjaer por Blomqvist) eram as últimas esperanças para uma reação final. A essa altura, depois dos 40 minutos da etapa complementar, era empatar ou empatar. Muita correria e toques acelerados, não existia mais tática, era só coração. Só uma enorme superação serviria. Um bando de robôs jamais conseguiria encontrar motivação para dar o máximo ou além em busca do título. Talvez nem aquele Bayern conseguisse, se a situação fosse inversa.

A dupla de substitutos de Fergie causou impacto e forçou Kahn a praticar grandes defesas. O jogo passava dos 40 e a vitória do Bayern se aproximava. Agora, era só questão de tempo para Matthäus e seus colegas entrassem para a história. O capitão, aliás, via o resto da final do banco de reservas, apreensivo no aguardo do apito derradeiro de Pierluigi Collina. Não poderia fazer mais nada além de torcer e pedir calma aos jogadores.

Em um escanteio aos 46, até Schmeichel foi para a área. A bola passou raspando na cabeça do dinamarquês e sobrou para Yorke, que rolou para Giggs. Um pouco atrás, o galês chutou de qualquer jeito e por acaso, encontrou Sheringham livre e em posição legal para empurrar. Gol do Manchester, 1–1. Kahn pediu impedimento, mas um defensor mal posicionado dava condição. A decisão voltava a estar em aberto. Do banco, Matthäus não acreditava no que via. Apareceu na transmissão com um olhar perdido, uma expressão chocada e quase pálida. Mas era só o empate.

Agora o momento era dos ingleses. Que contavam com a sua torcida para subir ao ataque e aterrorizar a defesa alheia. No minuto seguinte ao gol, Solskjaer dominou na esquerda e chamou Kuffour para o baile. O ganês tocou para fora e cedeu outro escanteio. Beckham na bola.

Quando Beckham cruzou para a área, Sheringham subiu alto e cabeceou bem. Solskjaer, quase em cima da linha, tocou com o pé e acertou o ângulo. Novamente o Bayern tinha um jogador que dava condição legal, portanto, o norueguês jogou na rede sem impedimento. 2–1, a torcida foi à loucura e Schmeichel também, que resolveu dar uma estrelinha e correr com os braços levantados.

E Solskjaer ganhou! O Manchester United alcançou a terra prometida! Ole Solskjaer… Os dois substitutos marcaram os dois gols nos acréscimos! A tríplice coroa fica bem mais próxima! (Clive Tyldesley, narrador da ITV)

Depois disso, os Red Devils ainda foram campeões da LC em 2008, nos pênaltis contra o Chelsea. No entanto, a grandeza não se compara ao ‘Milagre do Camp Nou’ em 1999, quando ‘o mais sortudo venceu o melhor’, nas palavras de Matthäus. Foi apenas uma dessas situações, Lothar.

A partir daquele dia, o mundo conheceu o ‘Fergie Time’, a especialidade dos times de Ferguson em marcar gols nos acréscimos.

Foto: AFP
Foto: AFP

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