Por que é tão difícil para Ceni dizer adeus

Vendo todas as homenagens pra mim parece que eu morri. Dizem que jogador morre duas vezes, mas essa, pelo menos, eu estava vivo pra ver. Aí cheguei em casa, vi minha roupa de concentração e pensei: morri mesmo. (Marcos, ex-goleiro do Palmeiras, em 2012)

Rogério Ceni teve tudo o que imaginava e um pouco mais como goleiro do São Paulo. Titular desde 1997, quando sucedeu Zetti na meta tricolor, o camisa 1 atravessou diferentes fases do clube nestes 25 anos de Morumbi.

O cidadão de Sinop, no Mato Grosso, chegou pouco antes de uma era absolutamente bem-sucedida no Tricolor, que era treinado por Telê Santana e conquistou entre vários títulos, o Brasileirão de 1991, a Libertadores e o Mundial em 1992 e 1993. Apesar de ter demorado para se apossar da posição, Rogério virou rapidamente um ídolo da torcida. Afinal, que outro goleiro faria grandes defesas em um momento, para que no outro fosse à frente bater faltas e pênaltis?

O primeiro grande título de Ceni no São Paulo foi a Libertadores de 2005, selando uma caminhada extremamente respeitável no esporte. A esta altura, já estava perto de sua melhor marca como artilheiro. Não precisava daqueles títulos para ser considerado uma lenda para os torcedores. Claro, eles facilitariam ainda mais a ligação com aquele período, assim como Telê marcou o bicampeonato mundial.

Só naquele ano de 2005, o Tricolor levantou o Paulista, a Libertadores e o Mundial, que aliás, teve atuação assombrosa do arqueiro. Machucado, Rogério voou para evitar um golaço de falta de Gerrard, um dos meias mais técnicos da história do futebol inglês. Mesmo que fosse Souza Ferrugem ali do outro lado, aquela defesa em especial faz parte de todo um imaginário que os são-paulinos guardam com carinho.

Tudo naquela partida foi fenomenal, até mesmo a pressão alucinada do Liverpool em busca do primeiro gol, que jamais saiu. Certo, o gol do título foi de Mineiro com um passe de Aloísio, mas o que você, torcedor, vai lembrar quando estiver mais velho? Da atuação de Rogério ou de um gol fruto de uma jogada que saiu de um espaço que nunca mais seria aberto, como um portal para outra dimensão? Difícil dizer.

AQUELA defesa na final do Mundial (Foto: VAVEL)

Já se passou uma década desde então. Estamos em 2015 e nesse interlúdio que é o futebol, Ceni já teve tempo de ser tricampeão brasileiro, campeão da Copa Sul-Americana e ‘M1to’. Muito se fala que o camisa 1 tem planos de se aposentar desde 2012, mas o próprio São Paulo tem sido tão oscilante, que até mesmo a vontade de aproveitar a vida sem a rotina de treinos tem sido traída pelo desejo de voltar a vencer. Há quem diga que Rogério não é o mesmo goleiro, prejudicado pelos seus 42 anos e por uma natural queda do desempenho físico. Tem sim falhado em jogos importantes, mas salva o time na mesma proporção.

Tudo indicava que 2015 seria o último ano que veríamos Rogério atuar. O capitão prometeu que cumpriria o contrato válido até agosto, quando a Libertadores se encerraria. Ele queria terminar o ciclo com mais um título sul-americano no currículo. Frustrado pela derrota nos pênaltis para o Cruzeiro, o grande jogador do São Paulo nos últimos 20 anos resolveu anunciar a data do adeus: 26 de julho, no Morumbi, contra o mesmo Cruzeiro que lhe tirou a chance de erguer outra taça continental. Algo nos diz que não será aí o fim da trajetória de Ceni na meta tricolor.

Convidado por Carlos Miguel Aidar para permanecer até o fim da temporada do Brasileirão, o goleiro garantiu que iria considerar a chance. Também não será nenhuma surpresa se ele decidir que jogará mais uma Libertadores, caso o São Paulo faça uma boa campanha e fique entre os quatro melhores na tabela. Aí viveríamos um novo 2015, com despedidas ali na esquina, um clima de tristeza por ver um ídolo se preparar para abandonar a carreira e entrar para a história. Ele mesmo disse que vai ser apenas um torcedor quando pendurar as chuteiras e luvas. Mas o que garante que isso esteja perto de acontecer? Fato é que só saberemos o que Rogério representa com exatidão nos primeiros meses em que ele não estiver mais lá.

Quando você é um competidor nato, como Ceni, é difícil obedecer o corpo e as limitações físicas que a idade traz. Você só quer ganhar, brigar por títulos, algo que o São Paulo se especializou em fazer desde a década de 1990. Como é que você vai se olhar no espelho, pensando que poderia estar em campo naquela semifinal de Copa do Brasil ou final de Libertadores que o Tricolor possa vir a disputar?

Aos que afirmam sem titubear que Rogério não passa de um frangueiro, alguns argumentos em vídeo:

(v Universidad Católica, Sul-Americana de 2013)

(v Santos, Paulistão 2015)

(v Internacional, Brasileirão 2015)

De repente, alguém resolveu dizer a Ceni que ele não servia mais para atuar em alto nível. Todas essas defesas dos vídeos acima mostram o contrário. É claro que conforme o tempo passa, elas ficam mais raras. O que de forma alguma desabona a presença do capitão debaixo das traves. O São Paulo não perderia só um goleiro na sua ausência. Perderia também um grande e incontestável líder. E como referência de um clube, Rogério vai permanecer até que seja insustentável mantê-lo ali. Ainda não parece ser o momento apropriado.

Mas quem sabe o que é a verdadeira hora de parar? É propício encerrar as atividades enquanto ainda os grandes feitos ainda se sobressaem as falhas, ou quando os erros cruciais virarem rotina? Difícil dizer. A decisão (complicada) está só na mente de Rogério, que foi a face de uma equipe vencedora nos últimos 18 anos. Para que ele abdique de ser um atleta, é preciso também renunciar a todas as próximas chances que o São Paulo terá para ser campeão. Pensamos mesmo que é simples virar as costas para isso?

É você que sabe onde é o fim da linha, Rogério.

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