Como são forjados os ídolos no futebol

Herói é uma figura arquetípica que reúne em si os atributos necessários para superar de forma excepcional um determinado problema de dimensão épica. (Wikipedia)

O futebol, como esporte coletivo, por vezes se mostra mais individual do que a sua premissa. Afinal, vemos craques se destacarem por façanhas, gols históricos, jogadas antológicas e posturas extra-campo. Nesse contexto, alguns atletas ultrapassam a relação profissional para se lançarem à fama, à idolatria ou à eternidade.

Há quem diga que ter a chance de conhecer um ídolo é o primeiro passo para desconstruir uma imagem idealizada por anos a fio. Porque, de alguma forma, superamos a distância que há entre nós. Um ídolo passa a ser uma pessoa comum se sujeitada aos mesmos hábitos comuns e mortais. Claro, eles também passam pelas mesmas mazelas que nós, mas por alguma razão, o destino nos diferencia.

São muitos ao longo da história do futebol que deixaram o status de meros atletas para se tornarem heróis. Muito menos do que pensamos. Pode ser o autor do gol daquele título que tirou seu time da fila, ou da primeira conquista internacional. O que deu uma bicicleta em uma final, ou mesmo o que tirou a bola em cima da linha e garantiu a permanência na elite do campeonato.

Entre estes ilustres e inesquecíveis jogadores, está o argentino Sergio Agüero. Sergio foi revelado pelo Independiente e muito cedo foi parar no futebol espanhol, para defender o Atlético de Madrid. Em 2011, foi vendido para o Manchester City, novo rico da Inglaterra e que estava sedento por títulos e reconhecimento mundial.

Como dizer em 2012, que aquele time que gastou tubos em novos jogadores seria o campeão inglês, justamente em cima do rival United, o maior vencedor da liga daquele país? As piadas eram intermináveis.

Chamado de primo pobre dos Red Devils, o City passou uma vida à sombra do arquiinimigo. Até aquele momento, o clube havia vencido apenas duas vezes o Inglês, em 1937 e 68.

Foto: Divulgação/Umbro
Foto: Divulgação/Umbro

Era mais conhecido no resto do mundo por ser o time de Noel e Liam Gallagher (foto acima), integrantes da banda Oasis. Verdade seja dita, o City era um dos exemplos de equipe tradicional que se perdeu entre os tempos. Somente entre 1983 e 2001, os Citizens amargaram quatro rebaixamentos.

Em maio de 2012, mais precisamento no dia 13, a maré virou em Manchester. De repente, o United não era mais o campeão inglês e pela primeira vez em muito tempo terminava um campeonato atrás do City. Anos antes, em 2009, empresários árabes investiram uma bolada de dinheiro para reestruturar e salvar o time da falência. Nomes como Robinho, Elano e Samaras foram alguns dos jogadores que acrescentaram certa relevância ao elenco em território nacional.

Para que falemos mais do dia 13 de maio de 2012, é preciso citar a entrada do Sheik Mansour, que mudou o patamar do City dentro e fora dos campos. Hoje, a agremiação como um todo é um modelo de gestão a ser copiado por outros grandes que não souberam fazer a transição para os tempos modernos, ou como o seu professor de história adora falar: globalização.

Foto: Manchester City
Foto: Manchester City

Desde que o Campeonato Inglês passou a se chamar Premier League, em um processo lento de consolidação no resto do mundo, o City era um dos vira-latas do país, mesmo tendo sido um dos fundadores da nova liga como conhecemos hoje.

Todo esse complexo foi obliterado na tarde daquele sábado. Um dia inesquecível para todo torcedor que se preze. Não que existam muitos aqui no Brasil. Talvez entusiastas do fenômeno que o clube se transformou, algo que o Chelsea conseguiu fazer anos antes nas mãos de Roman Abramovich. Se a estrada até o sucesso foi longa e tortuosa, a consagração veio de forma emocionante.

Como falávamos de heróis, talvez o City tenha três deles. Na última rodada do Inglês, os dois rivais de Manchester chegavam com 86 pontos. O United pegava o Sunderland e o City recebia o Queens Park Rangers, no Etihad Stadium.

Aos 39 minutos, Zabaleta, o primeiro herói, colocou os sky blues na frente. A essa altura, o United vencia o Sunderland com gol de Rooney. Após o intervalo, as coisas ficaram consideravelmente mais tensas para os torcedores locais no Etihad: Cissé empatou aos três da segunda etapa e Mackie colocou os Hoops em vantagem, aos vinte. Perdendo, o City via a chance de título escapar por entre os dedos e de forma trágica. Era a volta do cachorro resignado de outrora?

O jogo foi para os acréscimos e o 2–1 para o QPR era desolador para todos que foram ao estádio esperando um dia de festa. O relógio marcava 45 minutos quando Balotelli cabeceou uma bola e tirou do goleiro, mas o lance acabou saindo pela linha de fundo. Lágrimas. Aos 46, Silva levantou na área e achou Dzeko, que estava no lugar certo e empatou de cabeça. Muita gente estava em puro desespero nas bancadas. Homens roíam as unhas, mulheres choravam, crianças não queriam ver. Sobe vinheta de filme onde o mocinho fica na beira do precipício e escorrega depois de ver um pedaço de terra desabar sob seus pés.

48 minutos. O United fez a sua parte e bateu o Sunderland, somando 89 pontos. Com 87, o City ficava com o vice. Uma vida se passou até que a defesa recuperasse uma cobrança de lateral na intermediária. Toques de bola rápidos e desesperados marcaram os batimentos de todos os corações que estavam ao redor do gramado.

48 minutos e meio. De Jong carregou e tocou para Agüero, que entregou para Balotelli, quase caído. Balotelli devolveu imediatamente para Agüero, que rasgou rumo à grande área. O argentino teve tempo de dar uma finta de corpo no zagueiro antes de bater firme na bola. Gol do Manchester City, que era campeão pela primeira vez desde 1968. Com 89 pontos, superou o rival apenas no saldo de gols.

Foto: Evening Post
Foto: Evening Post

A catarse foi tão grande que o City demorou mais de um minuto para retornar ao gramado. Os jogadores se empilharam na lateral, o técnico Roberto Mancini pirou na sua área e os torcedores simplesmente não sabiam mais o que fazer e se aquilo era real ou uma grande fantasia impulsionada pela determinação em finalmente sair da fila.

Quatro anos depois, a maioria das figuras que proporcionaram o título daquela tarde já não fazem mais parte do elenco. O City ainda foi campeão em 2014, com Agüero marcando 17 gols e sendo o quarto artilheiro da competição. Yaya Touré, que joga como meia-armador, marcou 20. Nasri e Kompany foram os responsáveis pelos gols contra o West Ham.

Agüero acabou esta temporada como artilheiro do Inglês, somando 26 gols no vice-campeonato da sua equipe. O argentino é certamente um dos favoritos das crianças que torram a paciência dos pais por uma camisa ou por um pôster na parede do quarto. Coisa que muitos de nós já fizemos em algum lugar do passado, em que gols significam heroísmo e títulos são pedaços saborosos de uma lembrança ligada ao futebol.

Vivemos desses altos e baixos, do sofrimento inevitável de perder e da alegria indescritível de vencer. Vivemos para que um dia nossos netos lembrem daquele time que tinha aquele craque. Para muitas gerações de mancunianos celestes, Agüero é o astro responsável pelo início de uma era recheada de conquistas. Se hoje o City entra como um dos favoritos ao título inglês, em 2011 não passava de um candidato munido de muita grana para construir seu plantel.

Tudo começou naquele gol aos 48 minutos do segundo tempo. Um big bang que mudou o destino de um clube. Um gol que transformou um jogador profissional em um conto quase impossível e um personagem de centenas de relatos de Citizens que foram arrebatados nos acréscimos de uma batalha épica. E assim se faz um herói. Poderia ter sido Agüero, Balotelli, Touré, Silva ou mesmo Zabaleta. Tinha de ser Agüero. Foi Agüero e sempre será, até que alguém possa lembrar e escrever sobre aquele dia.

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