O calvário do Newcastle passa pela arrogância de John Carver

Alguns treinadores de clubes relevantes ao redor do mundo simplesmente não conseguem entender a complexidade do esporte e a dificuldade que é escalar a montanha até o sucesso. Dentre milhares de exemplos, está John Carver, comandante do Newcastle, que luta contra um novo rebaixamento no Campeonato Inglês. Qual é a verdadeira responsabilidade de um treinador que dispõe de um bom elenco, mas mesmo assim patina para se manter na elite?


A história de Carver com os Magpies não é nova. Ele foi um jogador mediano que atuou muitos anos pelo Gateshead, depois de ficar uma temporada no Cardiff, nos anos 1980. Sua trajetória como membro da comissão técnica começou em 2004, quando assumiu o cargo após a saída de Bobby Robson. Passou pelo Leeds também como assistente e foi o titular no Toronto, em 2009, sendo o segundo técnico da história da equipe canadense na MLS. Ainda esteve no Sheffield United e retornou ao Newcastle em 2011.

Pula para janeiro de 2015. Alan Pardew saiu para o Crystal Palace, o que fez com que Carver assumisse o posto de treinador interino do clube para o restante da temporada. Desde então, o time atravessou uma enorme turbulência e foi parar no bico da zona de rebaixamento, correndo sério risco de descenso, seis anos após a última queda para a Championship.

Em 16º lugar, o time parece uma terra de ninguém. O auge da temporada foi o quinto lugar, na 12ª rodada, após uma série de cinco vitórias contra Leicester, Tottenham, Liverpool, West Brom e Queens Park Rangers. Após a demissão de Pardew, em 8 de janeiro, o time já estava em 10º. Eis que Carver tomou conta do barco e as coisas mudaram bastante em Tyneside. Para pior.

Desde que Carver herdou a bronca, o Newcastle venceu apenas duas partidas, contra Hull City e Aston Villa. Do jogo contra os Villans em diante, foram OITO DERROTAS consecutivas, um empate e outro revés, contra o QPR, na última rodada. O drama dos Magpies ampliou ainda mais na segunda-feira, quando o rival Sunderland se salvou de uma possível queda, jogando os alvinegros para a fogueira. Agora é Newcastle x Hull na briga pela última vaga fora do Z3.

Como assim melhor técnico da Inglaterra?

Carver
Foto: Daily Express

Não são só os resultados que mostram o fracasso retumbante de Carver à frente do time. A sua postura nos vestiários e diante da imprensa também colabora para a espiral decadente do clube de St’ James’s Park. Mesmo após o pesadelo de oito derrotas, o técnico continuou inabalável. Disse no início de maio que é o melhor treinador da Inglaterra. Queria mérito por ‘mexer no ninho de vespas’ do vestiário do Newcastle. Curiosamente, as broncas não surtiram grande efeito nos astros do elenco. Evidente que John não citou nomes, mas a situação continua desesperadora, talvez agravada com o surto de estrelismo de um auxiliar que está em seu primeiro semestre como efetivo no cargo. Foram APENAS dois triunfos em 18 partidas.

“O que eu penso fazer a diferença é que sou otimista. Sou otimista e acho que sou o melhor treinador do país. É o que eu penso. Não há nada de errado com isso. Se eu tivesse as ferramentas certas, conseguiria fazer este trabalho. Faço o que posso, dentro das minhas habilidades e continuarei fazendo nas próximas semanas”, afirmou em 7 de maio.

Dois dias atrás, outra bomba surgiu na imprensa inglesa. Carver teve uma reunião com os jogadores e disse a eles que quem não quisesse entrar em campo no domingo, para decidir a permanência na primeira divisão, poderia simplesmente ir embora. De acordo com o comandante, ninguém quis sair, mas os efeitos de uma nova explosão interna serão medidos apenas após os 90 minutos contra o West Ham. Um alvo do ‘professor’ nestes tempos recentes foi o zagueiro Williamson, acusado por Carver de ter sido expulso propositalmente na derrota por 3 a 0 contra o Leicester.

“Eu disse a eles que se não quisessem encarar o desafio, se quisessem ser pessimistas, poderiam simplesmente sair pela porta. Disse a eles que estava pronto para lutar. Ninguém se levantou. Não acho que chegar rasgando a camisa de cada um seja o jeito de conseguir algo. Fiz isso depois do jogo contra o Leicester e não funcionou. Precisamos achar formas diferentes de lidar com estas situações. Se o rebaixamento acontecer, vai ser insuportável e eu não sei quanto tempo vamos levar para superar isso”, disse em entrevista coletiva na última quarta-feira.

Como se desgraça pouca fosse bobagem, o dono do clube, Mike Ashley, é alvo de protestos constantes da torcida do Newcastle. Os Geordies pedem que Ashley (acionista do Rangers e igualmente rejeitado pelos escoceses por pedir o reembolso imediato de um empréstimo de £5 milhões) saia após uma gestão trágica e que pode culminar em outra queda para a Championship. Pode ser o segundo rebaixamento da gestão Ashley, dono de uma rede de lojas de material esportivo, que chegou ao clube em 2007.

Para que 2009 não se repita, é preciso que o elenco esqueça as mazelas com o treinador e jogue a bola do fim de 2014, quando arrancou até a quinta posição. Caso isso não aconteça, os torcedores furiosos do Newcastle já terão a quem culpar: o ego de Carver e a omissão de Ashley como homem-forte do clube. Só a vitória interessa contra o West Ham. Um empate pode ser o fim, caso o Hull City passe pelo Manchester United.

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