A incrível saga de Shevchenko no Santo André

Se hoje em dia a internet é palco de preconceitos, debates políticos infantilizados e de um campeonato mundial de brigas pessoais, em 2011 as coisas eram bem diferentes. A julgar pelo Twitter, que teve seu auge criativo naquele ano. Uma história em particular merece ser relembrada e otimizada aqui na Total Football: o incrível boato de Shevchenko no Santo André.

Para quem não sabe, tudo foi obra do amigo Léo Rossatto, célebre torcedor do Ramalhão. A brincadeira começou em 2010 e o próprio Léo explica tudo neste link aqui. Logo, sites desprestigiados e sem nenhuma credibilidade passaram a repercutir a especulação, entre eles o nosso estimado Futebol Interior, ou Country Football. O buxixo foi tanto que até o Diário do Grande ABC comprou o barulho e foi falar com o presidente do Santo André, que claro, negou.

Então vamos propor o seguinte: como é que seria se tudo isso fosse verdade e o ucraniano desembarcasse no ABC para defender as cores do Ramalhão? É sabido que Shevchenko estava em fim de carreira e se aposentaria em 2012, após a Eurocopa na Ucrânia/Polônia. De repente, surgiu um desafio novo na carreira do artilheiro, que estava no Dynamo Kiev.

Reforço de peso para tentar o acesso à Segundona

Foto: Editoria de arte da TF
Foto: Editoria de arte da TF

O Santo André iria jogar a elite do Campeonato Paulista e disputar a Série C do Brasileirão. Era preciso um reforço de peso para que os adversários respeitassem a força do Ramalhão. No entanto, o teste para o craque seria no Paulistão. Em parceria com uma empresa coreana de celulares, que pagou a estrela durante a sua passagem, o clube apresentou Shevchenko no estádio Bruno José Daniel, diante de 10 mil pessoas.

O elenco do Ramalhão não era mesmo grande coisa. Como destaques, apenas os concorrentes de Sheva na posição: o veterano Camanducaia e Nunes, homônimo d’aquele que jogou no Flamengo e também pode ser considerado AQUELE. O goleiro Neneca seguia no time, salvando as eventuais bobagens da zaga. Vitor Hugo, este que está no Palmeiras, era uma das promessas do setor defensivo.

No Paulistão, Sheva demorou a se entender com os colegas e fez apenas sete gols, metade dos 14 marcados pela equipe em toda a competição. Um deles, de voleio, contra o São Paulo. No entanto, o Tricolor ganhou por 3 a 1. O Santo André terminou em último e acabou rebaixado. Capitão e líder do elenco, o ucraniano usava um intérprete na preleção, onde ressaltava a necessidade de vencer e provar que cada jogador poderia ser grande no esporte, se tivesse inspiração. Enquanto isso, o técnico e ídolo da torcida, Sandro Gaúcho, observava e endossava o discurso do seu camisa 7. Ainda que não tenha surtido grande efeito em cada atleta.

Era difícil encontrar algo favorável num plantel tão fraco. Um ano antes, o Ramalhão disputava o título estadual com o Santos, perdendo na decisão por uma diferença mínima. Triste pensar que na edição seguinte só houve choro e lamento. A última vitória na malfadada competição foi contra o São Caetano, por 1 a 0. A escalação do Santo André era: Neneca, Magno Silva, Sandoval, Marcelo Godri, Anderson, Allan, Walax, Dênis, Aloísio, Rychely e Shevchenko, que fez seu último gol no torneio. Derrotas para Barueri, São Bernardo e Corinthians afundaram a equipe do ABC, que entrou na Série C sob forte pressão. Shevchenko, mais ainda.

Exigência por resultados

O Brasileiro começou em julho e o Ramalhão começou mal, em casa, contra o Brasil de Pelotas. Uma derrota por 3 a 2 no Bruno José Daniel desanimou a torcida. Shevchenko fez os dois gols e pediu o apoio das arquibancadas, vibrando como nos seus bons tempos de Milan. É claro que os reflexos não eram os mesmos, nem a técnica. Mas Sheva sabia o caminho da rede.

Outra derrota para a Chapecoense, fora, agora por 3 a 0, estremeceu as estruturas. Shevchenko sentiu uma lesão na coxa e precisou ficar de fora por duas rodadas. Na primeira ausência do ucraniano, o Santo André passou pelo Caxias por 1 a 0, gol de Nunes. Depois, sofreu uma derrota para o Joinville, por 2 a 0. A torcida então perdeu a paciência. A Fúria Andreense foi até os treinos do time para pedir mais empenho do seu capitão. Sheva conversou com alguns torcedores e acalmou a situação. Seria bom se no reencontro com o Joinville, no ABC, o placar não fosse 1 a 1, frustrando aos que ainda esperavam uma atuação digna. O ucraniano perdeu um gol de cabeça quase embaixo das traves e saiu de campo novamente reclamando de dores musculares. Daí em diante, só drama.

No sacrifício

Aos 34 anos, o corpo de Andrey cobrou o preço de anos infernais por Dynamo e Milan. Não era a hora para mais uma ausência e então, o capitão foi para o sacrifício contra o Caxias, fora de casa. Foram 45 minutos exemplares por parte do gringo, que marcou duas vezes antes de sair de maca, quase chorando de dor. Foi aplaudido pelos 13 fiéis torcedores que viajaram até a Serra Gáucha para prestigiar o time do coração.

O Santo André ganhou por 3 a 1 na quinta rodada e evitou o descenso, já que o Brasil de Pelotas tomou de 5 a 2 do Joinville e não tinha mais chances de alcançar o Ramalhão na tabela do Grupo D. Por incrível que pareça, a permanência na terceira divisão foi motivo de festa pelos lados azulinos. Shevchenko, depois de vários títulos nacionais e internacionais, se viu com um sorriso amarelo por garantir que a equipe apenas ficasse na Série C, longe de qualquer protagonismo.

Uma proposta do Dynamo para que o atacante encerrasse a carreira em 2012 veio à tona. Após a derrota na penúltima rodada, para a Chapecoense, por 2 a 0, em pleno Bruno José Daniel, a imprensa andreense passou a especular pelo menos três vezes na semana o interesse de clubes chineses, árabes e do próprio Dynamo na contratação de Shevchenko. Uma suposta despedida estava marcada contra o Brasil de Pelotas, longe do ABC paulista.

O adeus à massa andreense

O atacante marcou uma entrevista coletiva antes do jogo para falar sobre a sua situação. Otimistas queriam que o jogador permanecesse no clube para ter ritmo para a Eurocopa, enquanto os detratores pediam a saída imediata do camisa 7, que ficou devendo em sua breve passagem.

Nem tudo era lamento para o Santo André. Nunca as vendas de uniformes foram tão altas, nunca jornais de fora do Brasil vieram visitar as instalações do Ramalhão para conhecer a rotina de Shevchenko. Nem mesmo os mais fanáticos esperavam que na Ucrânia, fãs do jogador criassem uma conta no Twitter chamada @SantoAndreUKR, que acompanhava em tempo real as partidas da equipe andreense país afora.

Ainda que o artilheiro não tivesse o desempenho esperado, seu impacto no futebol nacional foi enorme. Toda semana, o Globo Esporte fazia uma matéria com as desventuras do astro no Bruno José Daniel. Em uma dessas reportagens, Ivan Moré foi até a casa de Sheva e bateu bola com o anfitrião, contou piadas, fez brincadeiras sem graça alguma e constrangeu o capitão do Ramalhão, que já não aturava mais aquele mala forçando a amizade. O retrato do jogador, que saiu no Esporte Espetacular, foi o de um homem sério e dedicado ao trabalho, mas que provavelmente estaria infeliz em sua empreitada. Culpa de Moré, um chato de galocha.

Alguém pode ter sonhado com títulos e reconhecimento internacional, o que era mesmo demais para um veterano nos últimos momentos da carreira, lidando com lesões que o atormentavam desde a segunda passagem no Milan. O último gol de Sheva pelo Santo André foi no estádio Bento Ribeiro, diante de 2 mil pessoas nas bancadas.

A TV Brasil transmitiu ao vivo o que foi um lance instantaneamente épico: o placar estava 1 a 0 para o Xavante, até que aos 35 da segunda etapa, o camisa 7 recebeu um passe longo de Walax, dominou no peito e puxou a bola para a perna esquerda. Com espaço, correu para a diagonal e mirou a grande área. Anderson Bill tentou o desarme e levou um rolinho, ficando completamente desnorteado. Galego apareceu e veio de carrinho para derrubar Shevchenko, falhando e levando um corte humilhante. Quando o arqueiro Vanderlei saiu para salvar o inevitável, tomou um golaço de cobertura, em um toque de classe. Até a torcida local aplaudiu o lance.

O narrador da partida delirou e cravou: que golaço do Santo André. Que golaço do Santo Andrei. E assim as capas dos jornais por todo o Brasil deram um pequeno destaque ao ucraniano, que saiu chorando de campo após o apito final, dominado pela euforia de um lance genial. Acenou para a caravana andreense e anunciou em um português meio macarrônico que iria voltar para a sua amada Ucrânia.

Em uma coletiva na terça-feira seguinte, levou o filho com uma camisa do Santo André para a sala de imprensa e contou que já havia aceitado o último convite do Dynamo. Iria jogar a Eurocopa e se aposentar. Agradeceu aos que lhe apoiaram e ganhou a chave de cidadão honorário de Santo André. Viajou na quinta-feira para a Europa e a Netshoes já não tinha mais nenhuma peça do uniforme titular com o seu nome. Esgotaram-se todas após o gol contra o Xavante.

Dizem que até hoje na Ucrânia se referem ao Ramalhão como Santo Andrei.

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