Sócrates e o futebol independente do atletismo

Num tempo em que ainda não tínhamos jogadores e clubes obcecados com um atletismo quase robótico, preparações exaustivas para os jogos e treinos que mais parecem rotinas militares, o futebol ainda podia ter resquícios de arte dentro das quatro linhas. Um destes últimos artistas foi Sócrates, ator da última Seleção Brasileira que fez sonhar. Fez sonhar pois tinha uma missão subentendida apesar de tudo: encantar, não vencer de qualquer jeito.

O futebol mudou muito desde 1982, o auge do Doutor com o Brasil. Os sinais de uma grande mudança estavam claros já naquele Mundial. Sócrates, um ponto absolutamente fora da curva, nunca se preocupou com a forma física. Não abria mão de sua cervejinha, de suas festas com os amigos e claro, as noitadas. Nem mesmo a rotina de profissional deu cabo de tirar o jogador da vida boêmia.

Sócrates, no entanto, tinha outras preocupações. Certamente era feliz enquanto aproveitava a sua juventude, defendia com afinco os seus ideais, como poucos da sua época. O meia era diferente em tudo que fazia. Até no seu porte físico nada atlético. Simplesmente porque Sócrates não dependia de um corpo de super herói para brilhar. Cansava rápido, é verdade, mas tudo que fazia e ganhava era na base do talento, do passe cadenciado, do calcanhar mágico.

Quando sonhamos com o futebol, dificilmente as imagens que aparecem são divididas bruscas, gols perdidos, jogadas entediantes e mecânicas. Enxergamos o tal do futebol arte. Um passe perfeito, liso, objetivo. Um cruzamento e um domínio com o peito ou com a parte de dentro do pé, fazendo o tempo parar. Sabe aquele toque de calcanhar que passa por entre uma linha que nenhum mero mortal enxergaria em campo?

Não havia nada comum em Sócrates. Dentro e fora dos campos. O consenso geral sobre ele é que se fosse um profissional mais dedicado e tivesse uma vida mais regrada, teria sido um dos grandes da sua época. Bobagem, a história de Magrão deveria ser contada deste jeito e de nenhum outro. Com as nuances, as decepções, redenções e lutas. O que torna Sócrates único é justamente a dualidade entre o anti-atleta e o craque que desequilibrava com a bola nos pés.

Sócrates foi gigante à sua forma, seja por Botafogo de Ribeirão Preto, Corinthians, Fiorentina, Flamengo, Santos ou Brasil. Cada um deles, ainda que em diferentes doses, pode se gabar do fato de um jogador deste naipe ter vestido a sua camisa. E claro, quem viu, também não esquece.

Enquanto a nossa geração se acostuma cada vez mais a ciborgues com fios de genialidade, os anos 1980 embalaram a fina estirpe de Sócrates, Zico, Falcão, entre outros que foram diminuídos por herdar o trono de Pelé com a camisa amarela. É cruel submeter qualquer um deles a comparações ridículas e descabidas. Cabe, no entanto, apreciar os feitos do Doutor, inigualável em centenas de quesitos. Um jogador que conhecia a bola como poucos e não precisava de treinamentos e esquemas extenuantes para brilhar.

Se foi extremamente vencedor ou não em sua carreira, pouco importa. Fazer o que Sócrates fez, naqueles tempos, é muito maior do que milhares de um a zeros pragmáticos e calculados.

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