Adeus, decepção

O futebol é mesmo o melhor palco para belas histórias. Quem se supera, quem faz o impossível ou quem luta contra si mesmo acaba ganhando projeção e entrando para a eternidade. A vida também não é muito diferente. Ela dá mais de uma chance para um final feliz. Foi exatamente isso que aconteceu hoje na Arena Corinthians, em Itaquera.

Primeiramente, parecia impossível bater um Corinthians invicto e fortíssimo dentro de seus domínios. Por essa razão e pelos quatro anos sem vencer os caras, o monstro cresceu ainda mais. Porém, por um momento, vamos esquecer que o jogo de hoje foi um dérbi entre Palmeiras e Corinthians.

Vamos pensar que era uma luta de gigantes em momentos diferentes. Um é o melhor do seu país no que faz, o outro já foi e tenta voltar a ser. Contra a sua própria desgraça recente e o pessimismo inevitável, o segundo gigante precisava se provar em desafios como este. Só prometer não basta, é preciso entregar. E nada é mais ilusório do que a promessa de sucesso imediato logo após uma visita ao inferno.

Ultimamente, este tal gigante se acostumou a ser a face da decepção, a voz da cobrança e o silêncio da desesperança. Destroçou sonhos, tornou reais os pesadelos e virou um fardo para aqueles que ainda defendem as suas cores. Não há nada como a relutância: a relutância de aceitar a sua decadência, de aceitar a derrota constante, de aguentar todo o riso e a chacota alheios.

O ano de 2015 começou como uma missão de redenção. Muito dinheiro, muitos jogadores, muitos olhares desconfiados sobre a mudança crítica a que o Palmeiras se submeteu. Era preciso acreditar e nós acreditamos. De tapas no peito a animais, de vitórias magras contra pequenos a triunfos com gols do meio da rua, de derrotas na nossa própria casa a empates heroicos no território alvinegro.

Neste domingo, tudo mudou. O nervosismo, o pessimismo e a sensação de derrota óbvia ainda estavam ali, sentados no sofá. A tensão cresceu a cada minuto desde que o relógio passou das 15 horas. Foram momentos de angústia até o combate que selaria mais uma frustração ou embalaria o sonho de novamente poder comemorar. Sempre estivemos cautelosos em relação a comemorar de forma efusiva e antecipada, hoje não seria diferente.

Pois o Palmeiras planejou ser um adversário difícil para o Corinthians, o melhor time do Brasil no momento. Se propôs a aniquilar o rival que bota medo e intimida com o seu elenco pra lá de entrosado, liderado por um treinador com estirpe vitoriosa. O Verdão OUSOU sair na frente do placar, mas acabou se contentando demais com o resultado parcial e cochilou. No intervalo, o 2 a 1 deve ter rendido vários soldados, o que é plenamente possível em um cenário que perder é normal. Não, perder não seria normal hoje e os jogadores mostraram isso.

A cada ataque, a cada chute, o empate ficava mais próximo. Perderíamos, mas pelo menos com muita garra e sem deixar a desejar. Não perdemos. O Palmeiras merecia ter vencido, muito embora o merecimento passe longe do placar final. O futebol não é lugar para a justiça. É talvez para o empenho e pela determinação de apagar um histórico vergonhoso.

A descrença se fez presente outra vez. Nos pênaltis, o nosso goleiro era provavelmente o nome menos apropriado para tentar pegar um chute e não sabíamos como os cobradores alviverdes se comportariam. Robinho bateu mal e provou que estávamos certos, mas nunca quisemos estar tão equivocados. O otimismo não era bem-vindo depois deste erro. Que bom que estávamos errados.

Eis que Fernando Prass defende o primeiro e cresce demais para pegar o segundo e decisivo pênalti de Elias, emulando os saudosos tempos em que Marcelinho batia muito bem na bola e chorava com o fato de Marcos voar para fazer a defesa. É claro que os quatro anos sem vitória ainda não foram exorcizados. Contudo, uma classificação nos pênaltis é um bom começo.

Apaguemos a decepção, esqueçamos que nos últimos anos tem sido tudo mais difícil. Lembremos que hoje o melhor do Brasil caiu diante dos nossos pés, como uma oferenda para os novos e gloriosos tempos que virão por aí. Nenhum caçador vira lenda por matar formigas. Temos de matar leões, ursos e até dinossauros se quisermos continuar essa peregrinação até a conquista final.

Hoje só é possível comemorar. Por isso comemore, meu amigo. Façamos um brinde à grandeza que nunca foi esquecida. Um brinde à nossa renovada fé. Outro brinde ao desejo de voltar a ser campeão, não por um desastre, mas por total merecimento e de maneira incontestável. Mais um brinde ao Palmeiras, que nunca deixou apagar essa paixão louca, ingrata e desgovernada.

E que esses gritos aprisionados lá no âmago sejam não apenas um aviso de que voltaremos, mas sim que já estamos aqui para retomar o lugar que nos é de direito. Este domingo foi a prova de que não podemos nos render jamais. Que a decepção pode escolher outro canto para se acomodar. Aqui não mais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *