Riquelme se aposenta depois de viver o papel do grande carrasco de brasileiros

Juan Román Riquelme pode ser facilmente considerado como um dos últimos grandes camisas 10 que o futebol produziu. Capaz de dar passes milimétricos e acertar chutes improváveis, o meia se aposentou do esporte no último domingo, aos 36 anos, e certamente deixará saudade por seu talento e importância para o futebol argentino, especificamente para o Boca Juniors.

Ao mesmo tempo em que ocupa um papel crucial como ídolo e astro que o Boca teve num dos períodos mais avassaladores de sua história, Riquelme é para muitos torcedores brasileiros a personificação do carrasco e da dor. Algoz de palmeirenses e gremistas, o meia gera um misto de admiração e rancor por parte dessas duas grandes torcidas. Três duelos específicos ajudam a explicar essa relação.

Um tango no Parque Antarctica

Traverso marca em La Bombonera durante ida da final de 2000/Crédito: Taringa
Traverso marca em La Bombonera durante ida da final de 2000/Crédito: Taringa

O Palmeiras chegava na Copa Libertadores de 2000 como amplo favorito ao bicampeonato, mesmo sem o grande time do ano anterior.  Passou pelo Corinthians nas semifinais, castigando o rival pelo segundo ano consecutivo no torneio. A confiança dos palmeirenses era tanta, que nem mesmo o baita esquadrão xeneize do outro lado metia medo. Mas em campo, as coisas se mostraram mais complicadas. Em La Bombonera, empate em 2 a 2. Marcaram Arruabarrena (Boca, 2x), Pena e Euller no jogo de ida. Na volta, no Morumbi, um pesadelo: 0 a 0, com penalidades, vencidas pelos argentinos, depois de Asprilla e Roque Júnior desperdiçarem suas cobranças. Se um ano antes o Verdão levou o caneco nos penais, diante do Deportivo Cali, em 2000 teve o destino inverso.

Mas não foi só isso. Riquelme ainda enfrentou o Palmeiras na semifinal de 2001, com os paulistas ainda mais enfraquecidos. Vindo de duas disputas de pênaltis contra São Caetano e Cruzeiro, os palmeirenses chegaram com o emocional em frangalhos depois de tanto sofrimento em fases anteriores. Em Buenos Aires, o árbitro Ubaldo Aquino chamou a atenção ao marcar um pênalti do zagueiro Alexandre em Barijho, e inverteu uma falta de Córdoba em Fernando, dentro da área xeneize. O volante alviverde ainda levou um cartão amarelo ao invés de sofrer um pênalti que mudaria a história do confronto. Alex e Fabio Júnior marcaram para o Verdão, Schelotto e Barijho marcaram para o Boca, num placar de 2 a 2, em La Bombonera.

No Parque Antarctica, para o jogo de volta, novo duelo emocional: outro 2 a 2 (Fabio Júnior e Bermúdez, contra; Riquelme e Gaitán) com direito a Riquelme entortando a coluna de Argel e quem quisesse tentar tirar a bola dos seus pés. Achou passes incríveis e por ineficiência dos colegas, não fez do Boca o vencedor no tempo normal na casa palmeirense. O lance do segundo gol boquense foi uma obra de arte. Román carregou e fintou até achar o mínimo espaço por entre as pernas do defensor e bater no canto de Marcos, um chute indefensável.

Riquelme apanhou bastante dos adversários enquanto prendia a bola com maestria. Irritava o jeito que ele dominava a pelota sem pressa, como se quisesse dar uma banana para o tempo que passava e desesperava o Palmeiras, aflito pela vitória e para escapar de mais uma disputa de pênaltis. Argel, Alexandre, Galeano: todos tiveram de comer o pão que o diabo amassou naquela noite de 13 de junho de 2001. E claro, o Boca venceu nos penais, com erros de Alex, Basílio e Arce. Dois anos, duas disputas de pênalti, dois bailes de Riquelme e duas vitórias do Boca.

Silenciando o Olímpico

Riquelme com a taça da Libertadores em 2007/Foto: Imortais do Futebol
Riquelme com a taça da Libertadores em 2007/Foto: Imortais do Futebol

Poucas finais de Libertadores foram tão resolvidas na base do talento como a edição de 2007. O Grêmio de Mano Menezes havia mostrado força em fases anteriores, ao derrubar São Paulo e Santos nas oitavas e quartas de final. No entanto, na decisão, o gigante Boca estava irresistível diante do Tricolor. Todo o trabalho parecia ter ido por água abaixo quando os argentinos fizeram 3 a 0, um placar irrepreensível, em La Bombonera.

Palacio, Riquelme e Patrício (contra), fizeram a festa de La 12 nas bancadas da casa boquense. O placar marcava 1 a 0, quando no segundo tempo, Román cobrou uma falta e mandou um canhão no canto de Saja para ampliar. Mesmo com a cascuda marcação gremista e a truculência de Sandro Goiano, o Boca matou os gaúchos com requintes de crueldade. Pouco antes do fim, Riquelme sambou na zaga do Grêmio instantes antes do gol contra de Patrício. A missão gremista seria quase impossível em Porto Alegre.

Pois nem a cantoria interminável dos tricolores intimidou o Boca de Riquelme, Palermo e Palacio. Román fez o que sabia melhor: segurou a bola e não largou dela, gastou tempo, irritou o adversário e esperou a hora certa para mostrar a cara do demônio no gramado. Toca daqui, toca de lá, 23 do segundo tempo: o 10 se mexeu até a ponta direita da área e recebeu de Ibarra. Com uma bomba que caiu rapidamente do arco que fazia para o alto, Román venceu Saja mais uma vez e colocou o Boca em vantagem. No agregado, 4 a 0.

Foi aí que aos 35 da segunda etapa, ainda sob pressão da torcida gremista, Riquelme armou um contragolpe contra uma resignada defesa e achou Palacio na direita. O atacante chutou, Saja deu a sobra e o 10 completou para as redes, selando o sexto e último título boquense na Libertadores. Palermo poderia ter ampliado para 3 a 0, mas errou um pênalti. Nada que os xeneizes pudessem reclamar: quem fez a festa em Porto Alegre foi um risonho Riquelme, com o seu chapéu de maestro azul y oro, abraçado com a taça que se acostumou a fazer carinho com a camisa do Boca.

Nesta segunda-feira, milhões de apaixonados pelo esporte devem prestar suas homenagens a um dos gênios do nosso tempo. Aquele que mesmo sem ter a velocidade e o carisma de outros famosos camisas 10, teve seu espaço e sua glória com uma magia característica. Inesquecível e inigualável é o legado de Riquelme, ídolo obrigatório de todo xeneize e sinônimo de futebol bem jogado.

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