A comoção popular contra Ched Evans após caso de estupro é um avanço

Com a colaboração de Camila Franco

Um dos casos que mais movimentam a imprensa inglesa nos últimos tempos é certamente a possível volta de Ched Evans ao futebol. Condenado e solto após cumprir metade da pena de cinco anos por um caso de estupro, o ex-atacante do Sheffield United e da seleção de Gales virou alvo de uma polêmica de certa forma paradoxal. O choque entre ressocialização x mau exemplo para a sociedade ganhou o noticiário britânico.

Inicialmente, o Sheffield considerou integrar o atleta ao elenco, apenas para treinamentos. Mas só essa atitude irritou gente como a patrona (e apresentadora da TV do clube), Charlie Webster, e a homenageada Jessica Ennis-Hill, que dá nome a uma das arquibancadas no estádio dos Blades. As duas ameaçaram retirar o apoio ao time, que se viu numa situação delicada. Mas não foi só o Sheffield que acabou apedrejado por cogitar reintegrar Evans à sociedade.

É importante esclarecer no meio dessa polêmica que a vítima do estupro de Evans precisou mudar de identidade cinco vezes e até deixar a Inglaterra depois do crime. Tudo porque torcedores e outros sujeitos revoltados com a prisão do jogador a ofenderam e até a ameaçaram de morte. Até hoje, Ched afirma por meio de seu site oficial que é inocente da acusação.

Depois do Sheffield, Hartlepool e Oldham Athletic, de divisões inferiores na Inglaterra, também pensaram em contratar o atacante, que hoje tem 26 anos. Igualmente criticados apenas pela ideia, os dois clubes foram coagidos pelo público em geral a desistirem de Evans. Na última terça-feira, o técnico do Oldham declarou que a equipe arrumou um ‘problema’ ao ir atrás do atacante. Um patrocinador alegou que jamais continuaria com a parceria se Evans fosse contratado, pois entenderia que a agremiação apoia um estuprador condenado. Já na tarde desta quinta-feira, a tansferência de Evans para o Oldham foi cancelada em virtude da enorme pressão social.

Várias petições públicas tomaram corpo a cada vez que Evans era especulado a algum time do país. Ao menos isso mobilizou o povo a se posicionar contra uma ameaça real e silenciosa: por que a maioria dos presos merece ter uma ressocialização e Ched não? Pelo simples fato de ser um ídolo em potencial, um exemplo para os jovens, e claro, para a sociedade. Dar o sinal verde para o seu retorno significaria não só que ele mereceria uma segunda chance, mas que o estupro seria página virada. Não é bem assim.

Convidei a professora Camila Franco para opinar sobre o assunto. Evidentemente, o olhar dela deve ajudar a elucidar um pouco mais a questão, pouco discutida aqui no Brasil. Na visão dela, a chamada ‘ressocialização’ não deve ser considerada no caso de Evans, pelo mesmo motivo explicado acima.

O caso Ched Evans tem diversas implicações. Sabe-se que encarcerar um criminoso apenas para mantê-lo longe da sociedade não tem resultados; não reabilitá-lo após o cumprimento de sua pena também não. Porém, Evans sempre alegou inocência. Em sua opinião, não cometeu estupro.* Coloca em xeque a palavra da vítima que desde a denúncia do crime perdeu a paz, o direito ao anonimato e a uma vida normal. Evans tem o direito de se reabilitar, mas qual o direito da vítima?

A volta de Evans ao futebol transmite a mensagem de que não importa o crime, há sempre uma nova chance a perpetradores. É possível dar a volta por cima após ser violento com uma mulher. Evans pode se reestabelecer no esporte, ganhar títulos e dinheiro. Mas e a vítima? Conseguirá reconstruir sua vida ou será vítima de caça às bruxas eternamente? É certo dar nova chance a quem nunca reconheceu o crime que cometeu enquanto a vítima é perseguida por ser vítima?

Abrindo um precedente perigoso, o Oldham nadou contra a maré e quase fez o impensável, não exatamente para o lado que se esperava. E quem diz isso é a própria torcida. Caso você ainda não tenha tirado a sua conclusão sobre esse caso, vale ler também a coluna de ontem de Marina Hyde, no GuardianO estupro não é exatamente uma coisa que se apague do histórico ou que fique esquecida com o tempo. Mas os anos de opressão não vão passar diante dos nossos olhos apenas por causa de Ched ou qualquer outro famoso que seja encarcerado pelo mesmo crime. É preciso ter coragem e disposição para enfrentar o que já vem enraizado na nossa cultura.

*Nota do editor: Evans se desculpou com a vítima pela sua situação e pela repercussão na mídia, mas continua alegando inocência. Em nota oficial, o atacante comentou o ocorrido, nesta quinta-feira.

Continuo limitado ao que posso dizer, em virtude do inquérito em andamento na Comissão de Revisão de Casos Criminais, e ao mesmo tempo que mantenho a minha inocência no caso, gostaria de me desculpar do fundo do coração pelos efeitos que aquela noite em Rhyl (local do estupro) tiveram em muitas pessoas, não só à vítima.

2 pensamentos em “A comoção popular contra Ched Evans após caso de estupro é um avanço”

  1. Olha, se você acha que comoção popular acima da lei é um avanço, desculpe-me, mas você não entende nada de democracia.
    Basicamente, você está dizendo que a mídia e a comoção popular por ela causada são maiores do que as leis democraticamente editadas pelos representantes do povo, democraticamente eleitos.
    Eu não estou feliz em ver um estuprador ficar livre apenas após 2 anos e meio de cadeira . Com certeza, a população da Inglaterra também não está. Mas se esse for o caso, a solução é a população pressionar seus representantes para que editem leis mais duras, que prevejam a proibição de ex-estupradores ecercerem profissão-modelo.
    Veja bem, como graduado em Direito, não estou dando minha opinião. Eu não argumento com base em achismos. Estou falando de séculos de construções intelectuais que moldam nossa sociedade, nossa democracia, nossa liberdade.
    Quanto à vítima, eu não tenho solução. É lamentável sua situação, mas, novamente, não há, na lei democraticamente editada pelos representantes do povo, qualquer condicionante da liberdade do agressor a situação da vítima. Basicamente, um erro não justifica o outro.
    Para concluir, é preciso enteder o seguinte: hoje, a mídia proíbe um homem de trabalhar; amanhã, o que fará?

  2. o direito de um termina onde comeca o direito do outro.nao existem leis definindo que vai se tornar celebridade,famoso, etc… eh a sociedade (coletividade) que elege estas pessoas.no caso dele, a sociedade rejeitou
    que ele se torne uma pessoa famosa, aparece na televisao,etc… ele sempre poderar recompor sua vida de forma comum. no momento nao o querem como estrela, servindo de referencia para jovens e criancas.

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