Um dia você lê, Alex

Alex, eu vou ser bem franco com você: no meu coração, um cara que vive de futebol desde moleque, você não é o único grande ídolo que eu tenho. Seu lugar na minha memória é dividido de forma justa com o Marcos e o Totti, caras que aprendi a venerar desde moleque. Vocês três são de suma importância na minha paixão pelo esporte, e como você provavelmente deva ser o único do trio que vá ler isso, aqui vão algumas coisas que eu sempre quis dizer e nunca pude.

Pode me chamar de egoísta, eu não vou ligar, mas eu queria que você fosse palmeirense. Não que eu não ache maravilhosa a história que você tem no Coritiba, provavelmente a mesma que eu gostaria de ter se estivesse no seu lugar. Como não estou e nem jogador de verdade sou, apenas guardo comigo um pequeno ciúme de você não ser palmeirense.

Sei bem que você fez além do seu melhor pelo Palmeiras, mas que nem isso bastou para que a nossa torcida, histórica e compreensivelmente corneteira não te cobrasse em campo. Sinceramente, isso pouco me importa. Me importa o que vi, o que senti e o que aprendi com os anos em que você esteve aqui. De verdade, eu quis muito que você tivesse assinado com a gente quando rescindiu contrato com o Fenerbahçe. Meu pai, igualmente seu fã, tinha um assunto certo comigo a todo semestre: ‘será que ele volta agora? ele tá pra rescindir, pode ser’ ‘ah, tomara, depois ele aparece aí’, a gente se perguntava a cada notícia exagerada sobre a sua saída da Turquia.

Você não veio, e em certo ponto a gente até culpou o Felipão por supostamente ter impedido o seu retorno. O Bigode é outro que merece estátua no estádio novo, mas de verdade, a gente preferia que fosse você ali vestindo a camisa. Quem sabe assim o nosso destino nesses dois anos tivesse sido diferente. Sonhamos até o último dia que você voltaria, mas você vai se aposentar. Paciência. Quem te viu, viu, quem não viu, não verá mais.

Não tem problema. Você vai continuar sendo o nosso camisa 10. Talvez não o do meu pai, que viu o Ademir, mas certamente o meu. Aliás, não só do Palmeiras, mas da vida. A gente vê você se engajando, se dedicando, e só dá pra pensar “porra, o cara é foda mesmo”. Muita gente deve te dizer isso, você já está acostumado, creio eu. Mas eu não ligo, precisava te dizer isso do mesmo jeito.

No próximo domingo, eu vou te ver ali na outra tela dizendo adeus. Sim, ao mesmo tempo estarei com o coração apertado enquanto torço pra que o Atlético Paranaense não dificulte a nossa sobrevivência. Pode ter certeza que vou. Seu adeus me é tão importante quanto a nossa queda ou permanência, acredite. E nesse jogo de escolher entre um ou outro, eu vou revelar uma falha de caráter minha, espero que você perdoe: acontece que eu me vi perdidamente apaixonado e envolvido com uma moça, sabe, (e peraí que isso tem a ver contigo de alguma forma). Ela é atleticana, cara…

Eu, que estive simpatizando com o Coxa por sua causa e pelo Rodrigo (ele mesmo, esse cara que conversa contigo no Twitter e é dono do Quinta Coluna, no ESPN FC), que ainda tenho três camisas do Coritiba no meu armário, não sou coxa-branca de nascimento e nem sei como foi passar uma vida nas bancadas do Couto sentindo essa paixão. Aqui de longe, eu só podia simpatizar mesmo. Chegou um momento na minha vida, em que ficaria estranho misturar uma admiração com o amor que eu sinto de verdade, e rivalizar sem necessidade com ela por causa disso. Ela é fanática, antes que você levante as sobrancelhas. Daí que eu resolvi doar duas dessas três pra não contrariar demais a mulher, sabe como é, espero que você entenda. E aí que tá a graça dessa história: a única camisa do Coxa que vai ficar no meu armário, entre as minhas favoritas, é a que tem o teu nome. Lembro bem da conversa:

– Como é que você vai namorar uma atleticana com essas três camisas do Coxa?
– Não, espera, eu já tinha elas antes de estar com você…
– Não interessa! É do Coxa do mesmo jeito!!!
– Tudo bem, eu vou dar um jeito nelas, trocar, doar, sei lá. Menos uma… a do Alex. A do Alex, não.
– Mas é do Coxa!
– É do Alex.
– É do Coxa do mesmo jeito!
– É do Alex.

Ainda hoje, a gente não chegou a um consenso, Alex. Mas eu juro que essa daí não sai da coleção. Porque só eu sei o que ela representa, que é um elo com a minha infância que você tanto ajudou a transformar na de um torcedor feliz. Dias atrás, eu disse ao Rodrigo que não poderia jamais entender o que você representa pro Coxa, mas que como palmeirense, sabia bem o seu peso histórico.

Boa sorte no que você decidir depois da tua aposentadoria, Alex. Daqui, de longe, como sempre, eu queria que você se sentisse abraçado e agradecido pelo gol contra o River, na semifinal da Libertadores de 1999, quando você matou no peito, deu um toque e um chutaço. E claro, não poderia faltar, aquele gol de placa contra o São Paulo, a nossa única alegria em 2002. Aliás, a última contra eles no Morumbi. Eu revejo constantemente aqueles dois chapéus, só pra lembrar o quanto a gente era abençoado naqueles tempos. Você deve ter feito algum gol mais bonito, mais difícil ou mais improvável que aquele, mas é desse que eu vou lembrar. Obrigado pelas lembranças e por ter sido o nosso prodígio naqueles anos que eu tanto quero reviver.

Novamente, peço perdão pela heresia citada nos parágrafos acima. E te desejo todo o sucesso que você possa conseguir no futuro, se é que é possível. Você significa muito pra mim como pessoa e como torcedor. É triste ter de escrever uma despedida dessas, mas entendo que seja infinitamente melhor chorar pela gratidão e pelos bons anos do que terminar seco o meu relato. Sei lá se você vai ler, mas vá lá, fica registrado. Valeu pelos gols, pelos títulos e pelos exemplos. Como eu queria que você fosse palmeirense como a gente, viu?

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