A segunda posição mais ingrata do futebol

Muita gente diz que o zagueiro é o cara ruim que não deu certo nem no meio e nem no ataque, e se contentou com a vida de defensor, só pra dar bicão pra frente sem ser recriminado. Mas que grande mentira. Enquanto muita gente se propõe a debater que o goleiro é sim o jogador com a posição mais ingrata no futebol, poucos citam o papel do zagueiro. Por essa razão, vim defender a classe das habituais ofensas de ‘açougueiro’, ‘perna de pau’, ‘caneleiro’ e ‘botinudo’.

Primeiramente, que nem todo zagueiro que ficou famoso no futebol usa a violência como recurso para parar as jogadas do adversário. Você pode dizer que eles são os que fazem mais falta em campo, seguidos dos volantes, o que seria essencialmente uma matemática burra, já que o zagueiro vive de divididas, não de gols ou assistências. É claro que a maioria dos atletas que atuam nesse setor correm o risco de serem os menos técnicos de uma equipe. Aliás, essa estatística deve beirar os 90% em toda a história do futebol. Poucas exceções podem ser notadas, como Alessandro Nesta, Fabio Cannavaro, Mauro Galvão, Carlos Gamarra, só pra ficar nos anos 1990.

É inerente ao zagueiro ser um cara durão, pelo menos na coragem. Afinal, ele precisa ter uma carta na manga para o duelo com um atacante que provavelmente vai conseguir o drible nas primeiras tentativas, sabendo utilizar a ginga e a habilidade. O zagueiro precisa saber que vai entrar em campo para ser driblado, inevitavelmente. As reações ao drible são variadas: pontapés, gritos ou um estudo aprofundado da mecânica do adversário. Quem se propõe a defender, estará sempre correndo o risco de ser humilhado. Assim como quem abusa da malícia, corre o risco de sair com hematomas, quase na mesma proporção.

Dependendo do time, o zagueiro vai ter funções e missões diferentes dentro do jogo. A essencial, obviamente, é evitar que o atacante tenha tempo para finalizar, ou bloquear um chute perigoso que exija trabalho do goleiro, este sim uma vítima das injustiças do esporte. É duro carregar o mesmo estigma do arqueiro, aliás. Trabalha-se para impedir um drible ou um chute no alvo, e nem que você dê 35 desarmes e sofra um drible desconcertante, as pessoas vão sempre se lembrar do drible desconcertante, é claro. É muito fácil ser meio-campista, e ficar esperando uma bola para tentar o passe do jogo. É muito fácil ser atacante, perder 5 gols feitos e marcar o da vitória num vacilo do oponente. Difícil mesmo é não errar defensivamente.

Não posso querer falar pelos colegas de ofício que vivem para intimidar ou bater nas canelas alheias. Mas entendo que eles tenham a necessidade de se impor em campo, pra que cada bicão ou pisão mostre que ‘aqui você não vai brincar não, moleque’. Zagueiro que é zagueiro não passa o jogo sorrindo ou acenando, e sim prestando atenção na bola, onde ela está e onde ela pode ir. A única vantagem que o defensor leva na dividida ou na recepção de um passe é a capacidade de antecipar a jogada e esticar a perna para interceptar a trajetória da bola. Dificilmente o atacante ganha território ao encurtar a espera pela recepção. O que faz dele uma presa (nem sempre fácil) na hora do mano-a-mano.

Aliás, o mano-a-mano é uma das coisas mais desafiadoras que existem no futebol. Você sabe que não vai sempre encontrar o mesmo oponente com a bola nos pés, então precisa estar preparado para tentar adivinhar o que é que vem no próximo segundo: um corte para a esquerda, para a direita, um chute no vácuo ou um passe? Muitas vezes a espera por um desarme é frustrada por um lançamento longo antes que você tenha tempo de cercar o espaço do adversário. Uma vez que você se depara com o rival, milésimos separam a glória do constrangimento. Pode-se usar um instante de hesitação do atacante para estender o pé e tirar a bola, pode-se aproveitar da insegurança alheia para prever uma finta ou até mesmo induzir o oponente ao erro, tirando o tempo que ele tiver para pensar numa saída, forçando uma decisão precipitada.

O zagueiro nem sempre tem tempo pra subir de cabeça, voltar ao chão e encontrar um companheiro em melhor condição para um passe que arme um contragolpe. Você pode até saltar com uma jogada traçada previamente, mas ninguém pensa no ar, enquanto mede o que será preciso para de fato ganhar a bola. Reclama-se muito de um defensor que não tem calma para olhar o espaço ao seu redor e mirar o passe mais preciso. Na maioria das vezes, a crítica é uma observação correta. Em outras, simplesmente se esquece a urgência que representa estar em posse da bola numa zona de perigo, com um ou mais atacantes vindo em sua direção. Ai de você se errar esse primeiro passe ou perder a bola na frente da área. Pronto, agora você já entendeu a necessidade do balão.

A gente entra em campo sabendo que vai estragar a festa. Primeiro porque somos o inimigo do drible, do gol bonito, da alegria e dos sorrisos. Trabalhamos essencialmente para tirar a graça do espetáculo, evitar aquele gol que o Pelé não fez, e privar a torcida de soltar o grito aprisionado na garganta. Seja em cima da linha, na risca da pequena área ou na meia-lua, quando o pistoleiro adversário prepara o tiro fatal no nosso peito. Há certo prazer em impedir o riso alheio e eu não vou negar. Quantas vezes a bola já não passou por entre as minhas pernas, e na hora do atacante sair triunfante do outro lado, estiquei a perna pra jogar na lateral? Quantas vezes não tive a sorte de agir no centésimo em que a bola é adiantada antes do corte fatal para o outro lado e chutei ela com força pra direção onde o meu nariz apontava?

Ser zagueiro é combater o provável avanço do inimigo, é ser o rei do ‘Aqui, não’, é ser chamado de grosso por não ter tempo de sair fazendo malabares enquanto toca de chapa do pé para o próximo companheiro, é fazer todo gol inesperado como se saísse sem querer, é como se desarmar não exigisse nenhum raciocínio. Somos o anti-futebol, e os piores em campo. A cada furada ou canelada eles hão de ter razão sobre isso. Mas eu gosto. Pra cada Zico existe um Márcio Nunes e um Gaetano Scirea. A gente só sabe qual dos dois vai ser ao fim do dia.

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