Especial Matadores de gigantes: A gangue de malucos do Wimbledon

Para reativar a Total Football, voltamos nesta semana com a primeira de muitas séries de posts até o fim do ano. No primeiro especial deste retorno, trataremos de uma espécie subestimada de time: o matador de gigantes. Todo mundo adora um time matador de gigantes. O termo ‘giant killer’ é visto com grande simpatia, sobretudo por fãs do futebol inglês, que ano a ano convivem com a possibilidade de um pequeno chamar a atenção em torneios eliminatórios como a FA Cup ou a Capital One Cup, mais conhecida como Taça da Liga Inglesa. É o sonho de todo clube acanhado no país, encarar um gigante como Manchester United, Arsenal, Liverpool, Chelsea ou Tottenham em um duelo de sobrevivência. Para o Wimbledon, a história de 1988 não foi um conto de fadas, mas sim um conto de brutos.

Olhando para os dias de hoje, o Wimbledon é apenas um clube refundado, com história curta de 12 anos. Fundado em 2002, o time leva as cores e um escudo parecido com um outro pequeno que teve seus minutos de fama em 1988, pela FA Cup. Na quarta divisão, o AFC Wimbledon tem, se muito, o carisma do antigo, extinto em 2004. Se o Wimbledon vivo tem o bombadão Akinfenwa como principal atrativo, o antigo tinha o não menos assustador Vinnie Jones, que até virou rei da pancadaria em filmes b de Hollywood.

Para se ter uma ideia do feito e da cara do Wimbledon oitentista, vamos só olhar o apelido que aquele time recebeu ao longo da competição: “The Crazy Gang”. A gangue dos malucos era o que podemos chamar de um Stoke City de Tony Pulis que não economizava nas pancadas e bicões para o campo adversário. A capacidade de marcação do time era boa, e a de desmoralização dos adversários também. Nada no jeito argentino de se fazer, e sim na audácia com que o time entrava em campo.

Em 1988, quando disparou na FA Cup, o Wimbledon disputava a primeira divisão, o que torna o feito não tão gigante quanto o Bradford City , então na quarta divisão, de 2013, que acabou derrotado pelo Swansea na final da Capital One Cup, atropelado por 5 a 1. Na Liga, o time do Wimbledon terminaria em sétimo, bem longe do campeão Liverpool, que somou 90 pontos. A caminhada dos londrinos na FA Cup começou contra o West Brom, na terceira fase.

A equipe era treinada por Bobby Gould, e tinha bons valores como o goleiro Dave Beasant, o lateral Terry Phelan, o volante brucutu selvagem Vinnie Jones, os meias Lawrie Sanchez, Dennis Wise, Andy Thorn, e os atacantes Laurie Cunningham, John Fashanu e Terry Gibson. Com esse elenco, os Dons fizeram 4 a 1 no West Brom, com Wise, Fashanu, Carlton Fairweather e Robert Turner, massacrando os Baggies. O adversário na fase de 1/16 avos seria o Mansfield Town, então na terceira divisão inglesa. O placar foi de 2 a 1, num jogo apertado, na casa do Mansfield. Andy Cork e Phelan foram os autores dos gols do Wimbledon.

O desafio aumentou contra o Newcastle, de Mirandinha, nas oitavas. Apesar do time do outro lado ser tradicional, o Wimbledon passou por cima e avançou para a próxima fase com o placar de 3 a 1, em pleno St’ James’s Park. Gibson, Fashanu e Brian Gayle castigaram os Magpies e asseguraram o progresso dos Dons no torneio. Dali em diante, os testes seriam ainda mais exigentes, com placares e partidas disputadíssimas. Com duas vitórias por 2 a 1, o Wimbledon derrubou o Watford (Fashanu e Eric Young) e o Luton Town (Wise e Fashanu) até chegar a uma sonhada decisão com o Liverpool.

Quem for mais maluco, leva

No dia 14 de maio de 1988, o estádio de Wembley lotou para ver o time do Liverpool levar mais um título entre vários que se acostumou a vencer nos anos 70 e 80. Só esqueceram de combinar isso com o destemido Wimbledon, que chegava claramente para se defender e trabalhar num contragolpe para vencer os Reds.

E assim se fez uma intensa pressão do Liverpool, que não relaxou e nem entrou de salto alto. A agressividade do time treinado por Kenny Dalglish era visível, especialmente com John Barnes e Peter Beardsley, que driblou demais e deixou Ray Houghton livre na direita. Houghton passou para trás, deslocou a zaga do Wimbledon para John Aldridge finalizar. Beasant fez duas defesas incríveis, sendo a segunda um tapa de leve na bola que ia sobrar no ar para Barnes fazer o gol.

O Wimbledon bem que tinha seus momentos. Quando chegava, parecia não saber o que fazer com a bola e mostrava ansiedade nos passes e chutes. Fashanu assustou, mas quem derramou a primeira gota de sangue foi Sanchez, aos 36 minutos. Numa falta batida por Wise, no primeiro pau, o camisa 10 grandalhão subiu e testou por cima de Bruce Grobbelaar, que só acompanhou o barbante balançando de forma surreal. Irritado, o Liverpool voltou a atacar, e quase que Alan Hansen empata, em boa tabela pela direita. Sem tanta marcação, o lateral dos Reds subiu e completou a jogada com um tiro rasteiro, bloqueado por Beasant, em grande tarde.

Foto: The Guardian
Foto: The Guardian

Já na segunda etapa, segurando o resultado, o Wimbledon viu o sonho perto de desmoronar com um pênalti de Clive Goodyear em Aldridge, um carrinho inapelável que derrubou por trás o irlandês do Liverpool. O narrador John Motson, o Galvão Bueno deles, comentava na transmissão que nunca numa final de FA Cup, um pênalti havia sido desperdiçado. O próprio Aldridge se encarregou de bater, correndo pouco e mirando no canto esquerdo de Beasant. Pois então, o goleiro dos Wombles foi buscar a bola e deu um maravilhoso tapa para escanteio, levando a torcida presente à loucura.

Retraído e trabalhando nos contragolpes e poucos erros do Liverpool, que foi se enervando e cometendo erros bobos, o Wimbledon gastava tempo até o apito final. A melhor chance dos Wombles veio com Young, que pegou uma bola sozinho na área e bateu de pronto, para boa defesa de Grobbelaar, bem colocado na meta. Steve Nicol arrepiou os torcedores em Wembley, com uma cabeçada inesperada já no fim do segundo tempo. A bola passou raspando no travessão, num lançamento que veio direto de um arremesso lateral dos Reds.

Quando o juiz Brian Hill assoprou o apito para o fim do jogo, os gritos em Wembley se misturavam entre a alegria dos Wombles e a surpresa da maioria do Liverpool, que viu a possibilidade de um doblete com Liga e Copa da Liga se desfazendo na sua frente. Coube aos malucos do Wimbledon, em seu primeiro título profissional, levarem o caneco. Os anos de elite inglesa não serviram para evitar a dissolução da equipe, em 2004. Depois de 14 anos na primeira divisão, de 1986 a 2000, o time perdeu força e quase faliu, antes de se transformar no Milton Keynes Dons.

O que veio depois

Wimbledon 2
Foto: Daily Mail

Os anos seguintes ao rebaixamento da Premier League custaram caro aos Wombles, tanto que em 2001, a diretoria já cogitava uma mudança para Milton Keynes. A torcida rejeitou e fundou o AFC Wimbledon, levando grande base para apoiar o novo time. O original entrou em pedido de concordata em 2003 e se transformou definitivamente em MK Dons na temporada seguinte. O novo Wimbledon caiu para a terceira divisão e hoje se encontra na quarta.

A herança de matador de gigantes

Curiosamente, com alguma herança do antigo Wimbledon, o MK Dons espantou o país neste ano, ao bater o Manchester United por 4 a 0 na segunda rodada da Capital One Cup. Grigg e Afobe marcaram duas vezes e eliminaram os Red Devils de Louis Van Gaal.

O interminável Dave Beasant

Dave Beasant Stevenage
Foto: Daily Mail

O ex-goleiro Dave Beasant, hoje com seus 55 anos de idade, ocupa o cargo de treinador de goleiros do Stevenage, na quarta divisão inglesa. 26 anos depois de ser o santo milagreiro do Wimbledon, o arqueiro passou a treinar o filho no clube. Sam Beasant é o titular, e em certo ponto desta temporada, mais precisamente contra o Carlisle United, no dia 11 de outubro, se lesionou. O clube então inscreveu Dave para ficar no banco do jovem Chris Day, última aposta possível antes do próprio Dave. Caso ele entrasse em campo, seria o jogador mais velho a atuar profissionalmente na Inglaterra, batendo o recorde de Stanley Matthews, que se aposentou aos 50. No entanto, Day resolveu poupar o

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *