ABC 123, ABC 456

Por Leonardo Bonassoli

Este é um texto sobre tudo, sobre dor, sobre futebol, sobre momentos bons e ruins da vida, é a vida como ela é.

Após o sorteio, ficamos sabendo. Éramos todos ABC de Mobral, algo que teve uma mudança quando Danillo Xis teve a participação colocada em dúvida por questão de um curso (no fim das contas, ele pôde jogar algumas). Sendo assim, fomos nós: Danillo, Stein; Castro (C), Matheus, Ienco, Toffalini, Leuzito, Art Chrispin e eu. ABC de Mobral na veia!

O que pôde ser visto desde que se abriu a rede de comunicação via e-mails e whatsapp foi um time com tranquilidade e respeito entre as pessoas. Felipe Castro soube lidar bem como capitão com uma ascendência tranquila sobre o grupo. Fomos os mais “internacionais” da competição com moradores de três regiões do país, num total de quatro estados de residência: São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Pernambuco.

Mas a vida tem seus dramas, como um colega de time que superou uma fase difícil da vida e viajou para a competição na base de muita galhardia. E eu tive um baque faltando quase um mês para a competição. Tinha marcado minhas férias do trabalho para começarem no dia da viagem, véspera da competição. Após um plantão puxado, em pleno dia que seria de folga, fui chamado e descobri ser vítima de um passaralho (demissão coletiva).

Porém, assim como o companheiro de time, mantive a programação, pois era uma viagem planejada antes de me tornar demissionário. A preparação sofreu algumas mudanças, tendo abortado alguns jogos e tentando recuperar o tempo perdido fisicamente com meses de trabalho árduo e horários malucos.

E fomos assim, nos apoiando e tal, com palavras amigas. Pois chegou o grande dia. Na estreia, contra o Paços de Pedreira, o time começou jogando fácil, abrindo logo 2 a 0. Aí deu esta impressão a seguir e que ia sair mais.

Porém, perdemos o ritmo e cedemos o empate. Depois, uma derrota para o Ourinhense Petrolero, time com entrosamento e que viria a ser campeão. Se entrei por um minuto e meio na primeira, sem tocar na bola, fiquei fora desta e do empate contra o Huachipato Branco, o que garantiu o terceiro lugar na chave, que viria a se provar forte e a vaga na Série B.

Parte do futebol é dor. Tem a dor da derrota, do lance perdido, mas tem dores que são físicas. O Arthur sentiu bastante o joelho e cumprimos assim um trato de começar jogando na série B até onde eu aguentava e ele concluir as partidas. Até porque eu tinha prognósticos de dores. Joguei a primeira Trifon pelo Canabi tendo duas lesões musculares, uma em cada músculo tibial, fruto de fadiga muscular, agravada pelos quilos a mais. Tive de parar por alguns meses para a musculatura tentar se recuperar, joguei três vezes no tempo entre a primeira e a terceira Trifon (fiquei fora da segunda por calendarização profissional). As dores voltavam. Quando parecia livre das dores tibiais, sofri com os horários malucos da profissão, sono irregular e depois dores no menisco direito. Isso por ter sofrido desde 2009 com infecção pulmonar bacteriana, lesão no pé após choque, graves dores musculares na lombar com direito a pernas que travavam (eu te entendo um pouco, Neymar), lesão muscular na coxa esquerda e fascite plantar no pé direito, entre outras. Praticamente um prontuário ortopédico humano. Tive de tomar relaxante muscular para jogar e não ver o joelho gritar ou o quadril desencaixar (problema meu mais recente) após poucos minutos. A dor já é meio que uma irmã para a gente.

Mas fomos assim. Na primeira partida da Série B, contra o Mooca Juniors, empatamos e ganhamos nos pênaltis. Aguentei uns 3 minutos e meio com os pulmões ardendo e cobrando o peso. Deu tempo de dar um susto na defesa com uma roubada em cima do zagueiro. Brilhou Danillo e Art Chrispim nos pênaltis. Na semifinal, novamente o Paços de Pedreira, prova que o chave era realmente mais forte (ironicamente, o Huachipato Branco, que passou da gente por pouco, fez quatro jogos e nós garantimos seis). Pênalti é loteria e desta vez paramos nas penalidades. Aguentei um pouco mais de tempo. Na decisão do terceiro lugar, o jogo estava mais cadenciado e não saí cansado após quase deixar Ienco na cara do gols. Eu notei que já tinham entendido como estava jogando e aí foi a deixa para Arthur entrar. Perdemos, mas fizemos bem o papel. Nos divertimos, jogamos bem, apesar de nenhuma derrota. Fomos sorteados, mas nos entendemos. Demos risadas, comemoramos alguns gols. Vimos Leuzito alterado nos pênaltis, vimos dois goleiros nossos sensacionais indo parar na “seleção do Jules Pinheiro”. Valeu a pena.

Outro encontro, às vésperas do dia em que o Orkut encerrou as atividades, foi da Futebol Alternativo (e suas comunidades filhas). Alguns dos contatos pessoais do time e também da Trifon Ivanov foram propiciados pelo embrião da comunidade plantado lá em 2004, em abril, e agora viu sua primeira casa ser alvo de um harakiri virtual do Google.

[Aqui vai a foto da FA. Créditos: Arquivo pessoal de Felipe Castro. Legenda: “Em pé: Leonardo Bonassoli (ABC), Jules Pinheiro (San Lorenzo de La Mata), Gio Santa Rosa (Paços de Pedreira), Arthur Chrispin (ABC), Leandro Iamin (Real Vinhedolid); Agachados: Caetano Burgos (Chico Bento de Sorocaba), Emanuel Colombari (Chico Bento de Sorocaba), Felipe Castro (ABC) e Rodrigo Salvador (Huachipato Branco)”]

Quando incumbido de fazer este relato, contei que ia colocar referências musicais. Pingaram sugestões. Não tem como agradar a todos, ainda mais sem perder o contexto (um abraço para o contexto!). Mas aqui fica quais foram:

Print whatsapp ABC

Não sei quando voltarei. Nestes dois anos que joguei as edições alternadas, fiz minhas férias caírem numa das Copas. Agora, já não sei. Não sei o dia de amanhã, onde e como trabalharei. Vivo a era das incertezas (psicografa o Hobsbawn daí!). Farei esforços para tentar participar e me condicionar melhor. Vendo tudo passar vem aquele gosto de “como será o amanhã”. Mas tudo valeu mesmo. Os laços com quem conhecia ficaram mais fortes e com quem não conhecia foram amarrados.

Queria também agradecer aqui à patroa (termo de tiozão letra C) Sammy, que cuidou de mim nestes lindos dias em São Paulo e foi uma Mobral honorária, com direito a camisa que dei de presente. Acompanhou o time, torceu e até tirou algumas fotos. Somos 11 (incluindo a segunda geração do time, o fofíssimo Gabo Chrispin).

Até a próxima!

***

Bônus

Perto do intervalo da decisão entre Ourinhense Petrolero e Inter de Limão, um grande incêndio tomou conta da churrasqueira. Os DETETIVÕES da Trifon Ivanov descobriram o que realmente aconteceu:

Retrato ABC
[foto do time posado entra aqui. Crédito: arquivo pessoal de Felipe Castro. Legenda: “Da esquerda para a direita, Danillo, Matheus, Art Chripin, L. Bonassoli. Agachados: Ienco, Leuzito, Felipe Castro, Leandro Stein e Giu Toffalini] Aí, mais uma foto para a posteridade, sem distinção de time nesta Copa. Temos uma longa história juntos e esta imagem simboliza várias gerações de nós.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *