Por que jogamos descalços

Quem vê as fotos ou presencia os jogos na Trifon, deve saber que tem um cidadão, um único rapaz, que desafia a lógica, a ciência e a saúde dos pés. Não, ele não é desses brutamontes, cabeças de bagre ou acéfalos do Brasil afora. Ele joga descalço porque foi assim que aprendeu quando criança em Pedreira. É o cara mais destemido de longe nessa Copa. E sabe por quê? Porque ninguém mais é o Borgo.

O Borgo provavelmente não sabe que é muito querido por todos que jogam. Para muitos que não conhecem, ele é só aquele cara maluco que joga sem chuteira. Para quem já sabe sobre ele, aquele menino simples que adora compartilhar putaria no Twitter no meio da tarde, o João Paulo, nome que quase nunca aparece em menções, é um grande cara, uma figura que diz muito sobre o que esperamos da Trifon do início ao fim.

Ele joga pra se divertir, e é pra isso que entra em campo com os pés pelados e surrados pelo tempo, pelas ruas e pela quadra que muitas vezes está com o chão fervendo. O Borgo é tão singelo no que representa, que nós demoraríamos horas para convencê-lo de que não é seguro jogar descalço nem um campeonato entre amigos. Porque nunca se sabe quando um pé pesado vai sobrar em cima da sua unha ou do seu dedão. Mas a verdade é que ele não liga e particularmente está pouco se lixando para a possibilidade de sair de campo machucado de verdade.

É bem difícil ensinar pra alguém que desfrutou toda uma infância sem medo, de que na vida adulta, ele pode ter um machucado aqui ou ali. O Borgo já teve ter se ralado todo quando moleque e quando adulto, e essa é provavelmente a melhor forma de explicar porque é que ele faz isso, de simplesmente entrar e fazer o que tem de fazer, sem dispor de uma chuteira que deixe os pés confortáveis, que melhore o chute ou que acrescente cores ao já vasto repertório de escolhas no uniforme.

Borgo descalço

Você olha pra todo mundo, vê as camisas, vê os calções e os meiões. Abaixo as chuteiras. Quase sempre coloridas. Elas são verdes, vermelhas, amarelas, roxas, cinzas, douradas, raramente pretas. Olha para todos e repara no Borgo, que parou o uniforme no calção. Nem meião ele leva, porque foi assim que aprendeu, na raça, sem essas putarias aí que vocês precisam pra jogar o bom futebol. Pra piorar, ou no caso, aumentar o mito, ele ainda é zagueiro. Faz o papel de cão de guarda na defesa, sai marcar e gasta a sola do pé, que termina mais preta que o buraco mais negro no fim da via láctea. O pé do Borgo termina tão sujo que dá até pra ver o seu reflexo nele. Sem falar no inchaço e nos hematomas que ele possa ter adquirido durante o dia.

Ao fim do campeonato, você só vai ver os olhos cansados. Nada de reclamar ou se contorcer de dor. A sujeira é só uma forma de dizer o quão intensa foi a sua participação no time. Capitão do combalido Borgo a Buggiano na primeira edição, do valente e lépido Vélez Brásfield na segunda, homem da sobra na ascendente Inter de Limão na terceira, Borgo é o que queríamos ser num dia de folga, pra esquecer todas as coisas que nos prendem ao mundo normal. O Borgo é o que você gostaria de ser quando livre, mas não tem coragem. É a tranquilidade resumida num caipira que resolve vir descansar na cidade grande, porque sabe o que ela tem a oferecer. É um cara que tem estampado no rosto o tamanho do esforço que faz pra sobreviver e seguir.

Jogamos descalços porque sabemos de onde viemos. Porque sabemos onde queremos estar, quem queremos ser e não fazemos ideia de onde podemos parar. Por que preocupar com um caco de vidro se a gente já pisou descalço numa fogueira e usou as queimaduras pra contar uma história? Se eu tivesse um pouquinho mais de coragem e bem menos senso de autoproteção, jogaria descalço também. Mas aí eu tiraria a exclusividade e a autenticidade do Borgo, um amigo que a gente sempre acha que abraçou menos do que deveria.

Jogamos descalços porque a dor pode sim nos fazer rir. Rir de como podemos desafiá-la e mostrar como é que o medo nos faz menores. Gigante é quem não liga pra proteger o pé sem saber onde vai pisar. Gigante é o Borgo, um descraque muito maior do que a sua estatura possa sugerir.

3 pensamentos em “Por que jogamos descalços”

  1. Sensacional! Emocionante também! No primeiro semestre da faculdade resolvemos jogar bola na quadra de lá e decidimos que tênis, chuteira, sapato ou qualquer proteção para os pés eram desnecessárias. A quadra era de cimento e a erosão já tinha feito seu papel que, aliado ao sol do meio dia, fez listras de sangue se cruzarem num delicioso mural boleiro. As peles das solas dos pés que não caíram na hora, foram arrancadas durante a semana mesmo. Não sou autêntico como um Borgo, mas já tive meus dias de ignorar a segurança pela paixão pela bola.

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