Alesqui e a despedida do jogador não-jogador catimbeiro e essencial

Quando eu conheci o Alesqui, já alguns meses depois do casamento do Rocco, em que ele brilhantemente esteve fantasiado de vaca, sabia que se tratava de uma pessoa querida e especial. Até mesmo porque, impossível não amar um ser que se sujeita a exibir suas tetas de brinquedo num dia tão importante como um casório, mesmo que se tratasse mais de uma festa do que exatamente uma união matrimonial. Por não levar a vida a sério quando ela pede, ele ganhou o meu respeito. E claro, por ser uma grande pessoa, amável e um humorista injustiçado na internet.

Às vezes eu não tenho assunto pra tratar aqui na TF, e por isso mesmo o site fica alguns dias abandonado e sem atualização. Perco tempo demais me atualizando com o futebol nacional e internacional, não consigo parar para reparar nas pequenas histórias que me cercam e que são tão fascinantes quanto aquele pênalti que o Panenka bateu de cavadinha numa Eurocopa na década de 70, ou o dia em que o Lineker se cagou em campo numa Copa do Mundo.

Pensei em tratar a Trifon como se fosse a nossa Copa do Mundo e contar as nuances e os romances que possam sair dela. O primeiro grande personagem que veio na minha mente foi o Alesqui, que depois de três edições, vai pendurar as chuteiras e parar de jogar futebol em nível competitivo. Coisa que craques como Garrincha poderiam ter feito antes da inevitável decadência que é envelhecer e perder o comando sobre as pernas. Jogou por Guarujasaray, Moocabi Haifa (campeão da Série B) e Heavy Metalist Khapivariv.

Mas veja bem, o Alesqui não é um cara velho. Você deve conhecê-lo por esse apelido ou por Alex Rolim, um sujeito extremamente carismático e que provavelmente te faria rir sem dizer uma palavra sequer. Ele chega, te dá um abraço e fica te olhando com uma cara de desejo. Confesso que a minha masculinidade balançou num desses momentos de olhar silencioso e cúmplice. Antes que a tensão sexual se instalasse, ele abriu um sorriso e me ofereceu a sua cerveja, os dois caíram na risada, como em todas as demonstrações de homoafetividade brincalhona que você possa ter no seu meio social.

Quando joguei a primeira vez contra o Alesqui, achei que seria fácil passar dele ou tomar a bola. Me enganei, porque ele tem uma mobilidade que só os inteligentes veem, assim como aquela roupa do Seu Madruga. Alex joga num tempo diferente. Pra ele, o simples fato de entrar em campo é a certeza e que a zueira vai estar representada naquela barriga e naquele passo largo, no drible canalha que ele sempre acerta e mais, na catimba e em como ele entra na cabeça de um adversário.

Você também deve lembrar que ele entrou na lista dos Tipos de Trifon como ‘o doutrinador’, ao lado de Daniel Tomiate, outro rei da patifaria e dos jogos mentais em campo. São dois caras fantásticos e ardilosos na medida do possível, suportável e esportivamente legal. Se eles pudessem, certamente abaixariam o seu calção no meio da quadra só pra proporcionar um riso infalível e te deixar pilhado pra continuar jogando. Acredito até que já fizeram alguma vez, só não em uma Trifon.

Quem não se recorda da mítica briga entre Julio, Eric e Acácio, na segunda edição, onde os dois jogadores do Ajaxanã perderam a compostura e saíram de campo aos berros e sem camisa, mostrando ao mundo trifon as suas panças de atletas de fim de semana? Alesqui foi o estopim para a confusão. Catimbeiro, tenaz e sapeca, argentinou tanto o jogo pelo Moocabi Haifa, que a situação ficou insustentável para os pseudo-holandeses. O Moocabi venceu por 2 a 1 com grande atuação despercebida de Alesqui, que incomodou tanto a dupla ajaxaneira, mas tanto, que eles estouraram com o juiz. Um dos gols do Moocabi saiu dos pés do Alesqui, que com justiça, também foi presenteado com o Troféu Diego Simeone de jogador mais catimbeiro da segunda edição. A parte curiosa é que o passe foi de Yuri de Castro, notório fominha e cai-cai nas peladas entre amigos.

Alesqui deixou o palco da Trifon marcando um gol numa partida icônica, e o seu legado como desestabilizador e figuraça nas bancadas ficará para sempre na história do campeonato. O torneio perde uma peça de carisma inigualável, e assim terá de seguir e achar outra imagem tão representativa da festa e da descontração que estão inerentes aos nossos dois sábados anuais no Playball.

Aos 36 anos, ele pendura as chuteiras e troca de lado na zorra amável da Copa. Agora ele vai estar lá da grade com o seu copo de cerveja, o seu sorriso singular e a sua expressão pacata, quase pateta, dependendo do quanto já tiver bebido. A Cornetão Chopp vai lhe receber de braços abertos.

Alesqui e a Capivara

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