Delírios de jogar futebol

Por João Luis Jr.

Quase todo moleque teve, em algum momento da sua vida, a ideia de que poderia se tornar jogador de futebol. Seja porque era o destaque na turma do professor Marcelo durante os campeonatinhos de colégio, seja porque brilhava na peladinha dos adultos quando o pai levava, seja apenas porque um dia acertou uma caneta – meio cagada – no garoto maior durante aquela pelada descalço na rua do lado da sua.

Por ao menos um instante todos nós sonhamos com os estádios lotados, com a disputa de pênaltis emocionante, com o gol decisivo, com os gritos da torcida. Mas aí vem a vida, é claro. Você desiste do futebol porque quer fazer faculdade, você desiste do futebol porque seus pais não aprovam, você desiste do futebol porque ganhou peso demais, de vez em quando você apenas desiste do futebol porque foi percebendo que é tão ruim que uma vez estava jogando num sítio e sem querer chutou uma cerca e teve que ficar engessado durante mais de um mês e até hoje a sua família te zoa por causa disso. Mas não vamos ficar falando desse assunto.

A questão é que esse sonho acaba ficando lá, escondido na sua cabeça, junto com todas as ambições abandonadas que você acumulou na sua infância e adolescência, que vão desde ser jogador de futebol até ser astronauta, passando por namorar a Fernandinha da 4B, beber um copo de 500 ml de Yakult e estudar um semestre na Austrália. Você tira ele do armário uma vez por semana quando bate a pelada com os amigos, quando imagina que em dois treinos roubava a vaga daquele volante mais limitado do mengão, quando lê sobre brasileiros na série b do campeonato norueguês, mas no geral é um sonho que você apenas deixa lá, jogado, meio de lado.

Até que chega a Trifon Ivanov. E ainda que seja só um campinho, você tem toda a galera pendurada na grade torcendo, ainda que você perca o pênalti, você ao menos bateu, ainda que seja na série b, você foi campeão e ainda que sejam apenas de “PANEEEQUE, PANEEEQUE” você teve os gritos. É aquilo, a gente não pode ter tudo nessa vida também. Não vamos ser tão exigentes.

Pra mim, que participei pela primeira vez, graças ao gentil e singelo convite do amigo Eric Franco, a experiência foi, como eu mesmo descrevi após um volume significativo de cerveja Itaipava combinada com espetinhos de carne, apenas “mágica”.

Primeiro porque caí num grande time com grandes caras, o Baurussia Dortmund. Uma equipe onde seus erros eram sempre recebidos com estímulo e não com críticas, onde não apenas o coração, como também o copo de cerveja estaria sempre mais meio cheio do que meio vazio. Uma equipe tão coletiva que não havia reservas, apenas titulares fora de campo, uma equipe tão versátil que tinha um Chiorino que não era o Chiorino, uma equipe tão unida que todos os gols eram do Paneque independente de quem tivesse feito o gol, porque no final todos somos Paneque.

E foi assim que fomos campeões. Com as defesas mágicas de Fernando, que pegou um pênalti numa semifinal eletrizante quando tudo parecia acabado e um homem fantasiado de gorila parecia nos aguardar atrás dessa porta dos desesperados esportiva chamada mata-mata. Com os dribles desconcertantes de Neves, que desmontava defesas com a mesma facilidade que um Godzilla de amarelo desmontaria uma maquete de Tóquio feita com peças de lego. Com a solidez defensiva de Magliocco, um último homem que eu deixaria tomando conta de meus bebês recém-nascidos em um futuro pós-apocaliptico dominado por vampiros. Com a velocidade acachapante de Rafael, que deixava os marcadores pra trás com tanta facilidade que até pra abraçar o cara na hora de comemorar eu, que sou zagueiro, tive alguns problemas. Com a classe de Gabriel, um verdadeiro atleta de Schroedinger que estava ao mesmo tempo na defesa e no ataque, com a bola e sem a bola, no banco e em campo, armando e defendendo. Com a dedicação ilimitada de João, um misto de goleiro reserva, treinador informal, guru espiritual e cara que conseguia estar sempre com cerveja, fosse na hora que fosse. E claro, Paneque. Capitão, camisa 9, líder dentro e fora de campo, Paneque era o atleta experiente que chamava a pressão, incitava a torcida, pegava a bola pra bater o pênalti, tudo isso visando tirar a responsabilidade de atletas estreantes como eu e deixar que a cobrança caísse nele, já cascudo de tantas Trifons e, segundo boatos, ao menos duas copas Merconorte.

E é por causa dos amigos com que joguei, do amigo que me convidou e de todos os amigos que conheci durante o campeonato, que posso dizer, mesmo estando agora sóbrio, no escritório, e sentindo algumas dores na perna direita que vem desde o outro sábado e talvez fossem motivo pra procurar um ortopedista, que a Trifon foi sim um momento mágico da minha vida. E dele ficam as amizades, dele fica a saudade, dele fica a sensação de finalmente ter feito um gol do título num campeonato de futebol. Só posso, de coração mesmo, agradecer a todo mundo, desde o time, até a organização, passando pelos adversários, os árbitros e indo até a galera que fazia os churrasquinhos. Sério, tavam excelentes os churrasquinhos.

LÁ VAI PANEQUE... ERRRRROOOOOU
LÁ VAI PANEQUE…
ERRRRROOOOOU

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