Lavando a alma em campo

Eu nunca estive tão motivado pra fazer alguma coisa na vida, como quando entrei em campo pela primeira vez no sábado. Tinha passado todo o nervosismo da organização, meses antes, até a ansiedade de finalmente ver tudo acontecer. Evidente que tivemos problemas, como em todas as edições, mas nenhuma delas fez com que eu me sentisse completo como a terceira. Precisava sair de campo honrado e com boas atuações, se possível com um gol. Deu tudo certo. Deu tudo mais que certo.

Éramos apontados como favoritos. Desde que saiu o sorteio, eu sabia que seria complicado lidar com essa ideia. Então disse aos meninos que jogassem como se fôssemos um time qualquer, que queríamos levar a taça com louvor. Entre textos motivacionais, maratona de Rocky e músicas da trilha sonora do filme, chegamos preparados para o desafio. Emocional e fisicamente prontos. Avisei que eles enfrentaríamos uma pressão imensa por duas razões: seríamos cobrados pelo nosso futebol e xingados a todo momento.

Dar o primeiro passo

Retrato Ourinhense
Jair, Gersinho, Didziakas, Portes e Dudu. Coutinho, Heitor e Gui.

No primeiro jogo, conforme o tempo foi passando, o nervosismo não saiu do nosso olhar. Não sabíamos como ia ser, e precisávamos de mais jogos para entender o torneio e os próprios colegas. Contra o Huachipato, a ansiedade da estreia falou mais alto, muito embora a escolha por entrar com o Dudu de titular tenha feito toda a diferença. Ele conhecia os caminhos do EL na defesa, seria fundamental para que furássemos a zaga deles. Não à toa, Dudu fez o primeiro gol e abriu alas para o segundo, feito pelo Coutinho. O ataque conseguiu garantir os três pontos.

Não tem rivalidade, é só brodagem

Diante do ABC, um duelo contra irmãos. Do outro lado, vi Stein, vi Castro, vi Matheus e Chrispin, este último, marcado com toda a admiração possível. Ele disse antes que iria me driblar e fazer gol, mas infelizmente não deu, porque a bola não chegou nunca pra ele, e quando chegou eu tirei (foi mal). 3 a 0 no placar e com a classificação praticamente garantida. Foi reconfortante ganhar daquele jeito. Mas ainda precisávamos encerrar a primeira fase com honra. Passamos pelo Paços de Pedreira num jogo dificílimo, um reencontro com o Dorneles e o Pazini, que ganharam da gente pelo Vélez, na última edição. Sabia ali que era o mais encardido, com o acréscimo do Yuri jogando, ele mesmo, que chegou atrasado. Fizemos 2 a 1, Dorneles fez um golaço, e eu novamente me senti honrado de ir bem marcando um cara que joga demais que nem ele. Os meninos foram muito bem no ataque, especialmente por se tratar de uma defesa difícil de ser batida, um PUTA GOLEIRAÇO que nem o Gui Morais.

Nem deu pra comemorar

Aí veio o fatídico jogo contra o Chico Bento, nas quartas, em que a gente atacava tanto quanto era atacado. Queria ter ficado na cola do Lellis, mas ganhei o Samuel pra vir me pressionar no ataque. Ele deu trabalho, e sempre tabelava bem com o Lellis do outro lado. Gui subia demais e me deixava preocupado, num jogo em que eu estive mais desatento do que o normal. Tanto que vieram dois no lance do gol deles e o Samuel aproveitou um espaço que eu dei pra marcar. Sobre os dois lances capitais: eu estava de longe e não vi direito, mas o que vi, pareceu que fomos beneficiados. 2 a 1. No fim, pensei que tinham parado um lance por uma falta no Dudu, e estava justamente reclamando que não havia sido nada. O lance seguiu e eu gritei pra que o Samuel parasse, acreditando que o jogo não estava valendo. Ele chutou e errou, depois veio gritando comigo, pedindo que eu fizesse algo. Tinha razão total na reclamação e na mágoa com a situação da partida. Essas coisas a gente nem tem como argumentar, é difícil querer explicar algo que nem você entendeu direito. Vou lembrar pra sempre do carinho recebido pelo Mané logo depois que acabou a partida. Ele é e foi gigante como jogador e pessoa.

Meus meninos cresceram demais depois desse jogo contra o Chico Bento. Todo mundo que entrava, fazia um bom papel, eficiente, com poucos erros. No contexto Trifon, leva quem for melhor e falhar menos, isso todo mundo já sabe. Mas me impressionou de verdade o potencial do Ourinhense. De cada um que estava em campo. Jair catou demais, puta que pariu. Gui foi vital pra cobrir a esquerda da nossa zaga, Gersinho driblou muito e fez gols importantíssimos, Heitor foi o nosso motorzinho, correu que nem notícia ruim, Dudu foi o nosso Paulo Nunes, driblou e fez seus gols, atormentou a zaga alheia, Didziakas fez o volantão que não perdia uma bola, imparável, e Coutinho fez o que a gente sabia que ele era capaz: foi pra rede.

Contra dois monstros, só restava ser monstro também

Contra o Vinhedolid, o sonho começou a tomar cor de verdade. Faltavam dois jogos, ali também tinha um time encardido. Canosa monstruoso no gol, Iamin gênio sagrado da várzea, aquele que eu temia encarar em algum jogo, e que ficou no ataque naquela semifinal. Esperei muita dificuldade no jogo de corpo e nas viradas que ele pudesse dar contra o gol. Consegui evitar que ele aprontasse e ainda armei um contragolpe que terminou em gol. 2 a 0, a final nos esperava e eu sabia que era hora de me concentrar de vez. Gui e Gerson fizeram os gols e eu aplaudi de longe os meninos que conseguiram passar por aquela defesa. Atuação impecável do time todo.

We are going the distance

A final era o último passo. Mentalizei tudo aquilo que passamos na primeira, e como seria difícil suportar os dois tempos de jogo. Tinha um baita tempo pra descansar, e fui sentar na minha cadeirinha, ouvir ‘Going the distance’, me fechar um pouco pra descansar as pernas e concentrar. Do outro lado, Lobo, Bruno, Pedro e Borgo. Caras que chegaram subestimados e lutaram até o fim, com talento e garra exemplares. Bruno me fez sambar pra tentar evitar um drible e um gol. Lobo abriu o placar com um golaço, e tome vaias, porque era a primeira vez que saíamos atrás do placar. Mas aí que a maré virou, como eu queria que virasse. Pedi calma depois do primeiro gol e gritava demais pra chutarem. Gerson acertou o primeiro petardo e o segundo, pra tranquilizar o time.

Na virada do intervalo, só conseguia pensar que estava zero a zero e que a gente precisava continuar marretando até que os ataques do Bruno e do Lobo parassem, porque TAVA FODA PRA CARALHO. Eis que numa bola que ganhei em dividida na área, carreguei, carreguei, dei três passos e resolvi tentar a sorte que não me apareceu a tarde toda. Esperei talvez uns três segundos até que a trajetória da bola terminasse no fundo da rede, no alto do gol, nem ouvi um CHUÁ, nem ouvi nada. Só pensei em correr, bater no peito, gritar mais ainda, me jogar na grade. Não tinha nada ganho, mas o Gui fez mais um, também de longe. Didziakas apareceu bem pra fazer o quinto, e aí o tempo demorou a passar. Uma eternidade. Cada ataque e cada dividida com o Bruno, pareciam durar horas. Eu tava inteiro, os meninos nem tanto, até dispersamos, mas a espera pelo apito foi de grande agonia. Tanto que o honrado mulek dibrante DIBROU mesmo o Gerson e fez um gol pra diminuir. Depois disso foi só chutão, até acabar a espera.

Soou o gongo

Apitou o Winckler, eu ajoelhei, bateu o cansaço, bateu toda a campanha, bateu todo o trabalho, toda a emoção, toda a capacidade e tudo o que eu esperava naquele dia. A Trifon é tão linda, que você pode se considerar ganhador só de estar com gente amada o dia todo. Distribuí todos os abraços que pude e não me arrependo nem um pouco de ter parecido grudento. Afinal, muita gente ali, só verei na próxima. A gente é feliz nesses dois sábados, muito feliz. Ganhando ou perdendo, é muita amizade, acima da competição. Me lembro de pouca coisa depois do apito final, porque tava emocionado demais pra pensar. Os meninos vieram abraçar, chorei um monte no ombro do Paranhos, que deu um abraço apertado e me fez lembrar toda a dificuldade desse ano, só pra poder chutar tudo com aquela bola que entrou na gaveta. 2014 foi muito pesado. Entre mudanças, doenças, preocupações, brigas e incertezas, derramei as lágrimas mais contentes que me lembro como gente. Lágrimas de orgulho por ver a festa que participei, lágrimas de sei lá, deu a maior vontade de chorar depois do esforço tremendo a que fomos submetidos.

No fim, levar a primeira taça pra casa, apesar do segundo título, pareceu um alento pelas tremendas porradas que vim levando durante os últimos meses. Era um momento de soltar o corpo e acreditar que todo o empenho teve uma recompensa. E que o mínimo apoio me fortaleceu pra poder passar aos meninos a tranquilidade necessária. Não fui o mais importante em campo e nem queria ter sido. Prefiro deixar isso com o Gersinho, Jair, Coutinho, Gui, Dudu, Heitor e Didziakas. Porque eles acreditaram o tempo todo na vitória e não se renderam, partiram pra cima como um time grande não faria melhor. Se eu queria ser gigante, consegui ser por um dia ao lado desses caras, por causa desses caras, que do início ao fim tiveram o melhor sorriso e o melhor futebol.

É o amor que faz a gente agir desse jeito, determinado, incansável e infalível. Amor pelo esporte, amor pelo campeonato e amor pelo evento que a gente fez crescer. Desejo essa sensação a todos os amigos que jogam a Trifon e que esperam esses meses todos, ansiosamente. Sei que na próxima vou ver alguém herdar essa taça que está aqui no meu quarto, roubando a luz toda só pra ela. Vou entregá-la com o maior orgulho do mundo para o próximo capitão mais feliz dessa Copa. Porque sei que ele vai enfrentar leões e chegar com dignidade no momento em que vai tocar o sino pra encerrar o campeonato.

É emoção demais. Até o semestre que vem, próximo capitão campeão da Trifon. Seja lá quem for você. Será um prazer imenso entregar na mão de um amigo.

Ourinhense foto título

6 pensamentos em “Lavando a alma em campo”

  1. Olá Portes, olá organizadores da Trifon!

    Antes de qualquer outa consideração a ser feita ao texto, é essencial lembrar que o torneio foi criado por vocês como uma forma de reunir os amigos, fazendo uma grande festa da forma que vocês mais gostam.

    O texto foi tão emocionante, que por mais que você tenha colocado a trilha sonora do Rocky, filme excelente que gosto demais, terminei cantarolando uma música do Fundo de Quintal mesmo… “Quero chorar o seu choro, quero sorrir seu sorriso. Valeu por você existir… AMIGO!”. Que, como diz a música, nem mesmo a força do tempo destrua a amizade de vocês. Sigam festejando!

  2. Foi animal, Portes!!

    A Trifon eu até comentava com o Iamin que tem muito da Torcida do Palmeiras. É um torneio bonachão, legal com todo mundo. Tava ouvindo o Thom e o Breno, os caras perderam todas, mas pra eles, também foi legal pra caramba. Porque é ssim! É a Trifon, não a Copa do Mundo.

    Essa edição, as coisas pareceram funcionar ainda melhor. Os caras do churrasco deram um show, tava tudo uma delícia! E parabéns aos juízes também, e não falo isso por termos ou não sido “ajudados”, mas falo porque é dificil pra caramba apitar, os caras não ganharam 1 real, e ainda ficaram o dia todo soprando o apito. Como o Bruno Winckler disse na semifinal: “Pow, to aqui o dia inteiro me lascando, e ainda tem nego querendo enganar o juiz…..seus fdp!” ahauhauha. Genio!!!

    Que venha a próxima Trifon. Ela é grande, muito grande!!! Parabéns, Portes. Se nada mais acontecesse, você já teria muita história pra contar para os seus filhos e netos.

  3. Parabéns Portes e toda a equipe, título mais do que merecido.

    Nós do Real Vinhedolid já sabíamos que daquele jogo, sairia o campeão. Sabíamos que o time de vocês era melhor que o nosso, e que teríamos que nos esforçar ao máximo para conseguir supera-los.

    Fora isso, o evento foi sensacional, pude encontrar e reencontrar grandes amigos e pessoas que eu não via a muito tempo, pessoas que eu conheço a mais de 10 anos. Foi muito legal se divertir, beber e jogar bola com eles, num ambiente muito foda, com pessoas muito legais, enfim, a Copa Trifon Ivanov superou e muito as minhas expectativas. Espero poder participar sempre!

    Parabéns Portes e a todos da organização!

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