O clube mais brasileiro

O time mais popular de São Paulo em busca de um título importante que todos os seus grandes rivais já tinham. Que era ridicularizado por isso, ouvindo que “só ganha campeonato paulista”. Com um técnico que não apresentava credenciais que permitissem à torcida imaginar algo diferente. Um time baseado mais no conjunto que no talento, e que, apesar de bons resultados recentes, não tinha aquele status de candidato ao título. E uma conquista absolutamente épica, histórica e inédita.

É, garotos, vocês provavelmente sabem a que título do Corinthians eu me refiro: isso mesmo, Campeão Brasileiro de 1990. Pode parecer estranho para os mais novos, acostumados a um Corinthians dominante no cenário nacional e internacional [beijo, Portinho!], mas já houve uma época em que os títulos eram raros, o futebol fraco, mas as contadas glórias do time eram sofridas, e portanto eram motivo para muita festa.

Em 1990, não havia porque ser diferente. Após o fim da fila em 1977, e os campeonatos paulistas de 82/83 durante a Democracia Corinthiana, o time passava por mais uma entressafra de talentos e títulos. E nem tanto por causa de seus rivais diretos: o Palmeiras ainda amargava sua própria versão da fila, o São Paulo tinha bons times, mas nada de dominante, e o Santos… continuava sem Pelé. Mesmo assim, o único título importante do Corinthians nesses anos foi o Campeonato Paulista de 1988, com o famoso gol de Viola na prorrogação sobre o Guarani de Neto. Neto, ele mesmo, que havia declarado “É que eu sou foda” a um repórter que o perguntou sobre o gol de bicicleta no jogo de ida da final, que havia passado sem grande destaque pelo Palmeiras em 89 e trocado com o Corinthians pelo craque Ribamar.

Para um então jovem corinthiano que morava em Santos, nada disso importava muito (ainda). O time seguia sua sina de poucos destaques, havia feito um Paulistão onde, mesmo com apenas uma derrota, não foi à final. No Brasileiro, após altos e baixos, e algum drama, classificou-se entre os 8, mas pegaria logo de cara o bom time do Atlético-MG. Aquele jovem corinthiano foi ao estádio. Mas a outro estádio: assistiu Santos 0x1 São Paulo na Vila Belmiro, enquanto pelo rádio acompanhava o primeiro show de um iluminado Neto naqueles mata-matas: 2×1 no Atlético. Nos jogos em casa das quartas e da semifinal contra o Bahia, duas viradas nas quais ele só não fez chover: fez até gol de cabeça.

E assim, a final contra o São Paulo. A primeira final de Campeonato Brasileiro do time desde 1976, o ano da invasão ao Maracanã. E, principalmente, a primeira final de Brasileiro a que o tal jovem corinthiano, incrédulo, via seu time chegar. Contra um São Paulo que já começava a formar a base que seria multicampeã nos anos seguintes, com Zetti, Cafu, Bernardo, Leonardo, Elivélton, Raí. Dois jogos no Morumbi, o adversário jogando por 2 resultados iguais. O Corinthians? Além de Neto e do goleiro Ronaldo (ele sim, o verdadeiro Ronaldo da Fiel), um time que no máximo pode ser chamado de “guerreiro”: Marcelo e Guinei na zaga, Jacenir e o saudoso Giba nas laterais, e do meio pra frente, expoentes como Fabinho, Ezequiel, Márcio, Paulo Sérgio, Mauro.

Pois foi uma dessas figuras tão tipicamente corinthianas que garantiu a vitória no jogo de ida: Wilson Mano, de canela, em cruzamento de Neto logo aos 5 minutos de jogo. Depois de quase um jogo inteiro de pressão sãopaulina e tentativas de contra-ataque, 1×0 e a reversão da vantagem do empate para o jogo de volta.

Jogo de volta que aconteceu em um domingo, 16 de dezembro de 1990, em uma tarde de sol na qual, dos mais de 100 mil torcedores presentes, pelo menos 80% eram corinthianos. Que sofreram muito, claro, já que o jogo se iniciou como o outro havia terminado: pressão do São Paulo e Neto centralizando todas as tentativas de contra-ataque. Até que, no início do segundo tempo, um deles funcionou: tabela pela direita, Fabinho chuta de dentro da pequena área, Zetti defende, e ele, o maior talismã do Corinthians de todos os tempos, Tupãzinho, coloca o rebote para dentro de carrinho. Não poderia ser mais emblemático que o time de operários vencesse aquela final senão com gols feios de dois de seus maiores guerreiros. E o Corinthians, depois de 80 anos, era enfim Campeão Brasileiro.

E aquele jovem corinthiano? Na época (já sabendo de suas evidentes limitações futebolísticas) ele já jogava no gol e gritava RONAAAAAALDO a cada defesa, imitando seu maior ídolo até nas pontes desnecessárias. Vibrava a cada gol de Neto, e idolatrava o sucesso de um campeão improvável até pelos parâmetros do Corinthians. Fez sua mãe percorrer as bancas de jornal da cidade de carro em busca de todos os pôsteres de campeão brasileiro possíveis.

Mal sabia ele que ainda veria pelo menos mais 4 títulos brasileiros, cada um deles com times muito melhores que o primeiro. Veria seu time ser campeão mundial no mesmo mês que se formou na faculdade. Festejaria glórias e choraria fracassos. Seria rebaixado na mesma semana que sentiu pela primeira vez a primeira filha se mexendo na barriga da mãe. Comemoraria o título inédito da Libertadores e o bi-mundial ao lado dessa mesma filha, que ainda aprendia (no modo easy) a ser corinthiana, e que responde até hoje quando perguntada “sou corinthiana porque o Corinthians é campeão do mundo inteiro”. Mas que, acima de tudo, sempre teve esse título de 1990, tão emblemático e tão importante, guardado em um lugar especial no coração. O dia que seu time de fato foi coroado “o clube mais brasileiro”.

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