A barriga do rei

Por Rodrigo Salomão

Numa época nem tão distante, mas absolutamente diferente dos dias de hoje, o rádio era meu inseparável companheiro em dias de jogos do Fluminense. Estávamos em 1995. Eu ainda era um molequinho de oito anos, mas já viciado por futebol e pelo tricolor. Viciado a ponto de jogar botão comigo mesmo e de ver jogos sub-17 do São Paulo numa Terça Nobre. Uma realidade totalmente diferente dos dias de hoje (com exceção do vício).

Por conta disso tudo, o rádio foi quem testemunhou o título mais incrível de toda a minha vida de torcedor até agora. Era um domingo de Fla-Flu, decisão do campeonato carioca, mais de 112 mil presentes. Dentre eles, meu pai, que achou perigoso me levar a um jogo daquela envergadura. Até então, eu só havia ido a jogos nas Laranjeiras, nunca no tão falado Maracanã. Fiquei momentaneamente chateado, mas logo meu falecido avô (pai do meu pai e flamenguista fanático) chegou à minha casa para podermos ouvir o jogo juntos. Além do rádio, Garotinho e sua trupe, eu então acabara de ganhar uma ótima companhia. Só faltava o Flu ganhar.

Minutos antes do início da partida, não me dei por vencido e liguei a TV. “Vai que a Band resolve passar! É a final! Cadê o Januário de Oliveira e o Addison Coutinho?”, argumentei usando uma lógica típica de crianças. Realmente, a Band estava transmitindo o Fla-Flu. Mas era um VT de um jogo anterior. Os meus olhos brilharam e apagaram numa rapidez que nem Einstein saberia explicar. Não tinha jeito: era ir para o rádio mesmo.

Posicionado no canto da nossa sala, sobre a mesa, o aparelho chiava de vez em quando, mas era valente. Não deixava passar nada. Eu e meu avô ficamos ali, sentados, ouvindo atentamente todos os detalhes: os “cheguinhos pra meia”, as “quebras de asa”, as “evoluções no terreno” e outras tantas expressões radiofônicas no futebol. Como o Fluminense abriu 2 a 0 já no primeiro tempo com Renato Gaúcho e Leonardo, obviamente brinquei com o meu avô, que apenas retribuía com um sorriso (anos mais tarde eu fui perceber como é difícil passar por isso e ainda sorrir).

Com o fim do primeiro tempo, meu avô ficou caladão. Eu, novamente, fui lá ligar a TV. “Vai que estão passando os gols!”. Não estavam. A responsabilidade do rádio, então, estava aumentando cada vez mais. Seria o meu primeiro título, a galera das ondas ia ter que saber levar essa emoção até a mim para ficar marcado para sempre.

Mas aí aconteceu o que desde cedo fui obrigado a aprender com o meu tricolor: não existe vitória tranquila para o Fluminense. Decisão, então, não existe mesmo. Seja contra Flamengo, Real Madrid ou Volta Redonda, a taça só vem após requintes de crueldade com seus torcedores. Dessa vez, não foi diferente. Com gols aos 26 e 32 minutos da etapa final (Romário e Fabinho), o meu coração gelou, enquanto via meu avô dar saltos e mais saltos de alegria.

Passados dos 40 minutos do segundo tempo, já não existia mais nenhum sinal de que duas pessoas passaram quase os 85 minutos anteriores sentadas ouvindo um jogo. Eu já estava correndo pela casa, extremamente nervoso. Meu avô tentava me acalmar, mas claramente também estava tenso. O empate era do Flamengo, pela melhor campanha. A torcida rubro-negra já gritava “É campeão!” nas arquibancadas. Clássico erro. Os deuses do futebol costumam punir esse tipo de comportamento. E eles são impiedosos.

Aos 42 minutos, o lance que ficou eternizado na minha cabeça foi desenhado. Eu, àquela altura do campeonato, já nem estava ouvindo direito o rádio. Enquanto isso, Garotinho e seus amigos na Rádio Globo falavam da “quebra de asa” de Aílton, duas vezes, do seu “cheguinho pra meia”, que ele atirou e…

ENTROU! Foi apenas isso que eu ouvi da jogada. Eu e meu avô nos olhamos sem saber de quem tinha sido o gol. Saímos correndo, os dois, para perto do rádio. Depois do “goooooooool!” a plenos pulmões do animado locutor, a confirmação: era gol de Aílton, do Fluminense. Saí enlouquecido pela casa, berrando “nense!”, enquanto meu avô ficava quieto. Na hora, todos pensavam que o gol havia sido do meia tricolor. Foi só no VT, com replays e tudo mais, que viram que um certo gaúcho, com uma faixa no cabelo, havia colocado a sua barriga na bola, que provavelmente iria para fora.

Quando voltei a me sentar perto do rádio, com o jogo já terminado, meu avô me deu um beijo e falou: “parabéns, vocês mereceram. Vai ser o primeiro de muitos da sua vida”. Ali, naquele momento, saí com um rei na barriga. No dia seguinte, fui para a escola com uma faixa no peito e outra no cabelo, tentando imitar o Renato. Eu era o moleque mais feliz do mundo. E o melhor: seria o primeiro de muitos, meu avô dissera. “Deve ser legal passar por isso muitas vezes”, pensei.

A “promessa” do meu avô de fato se concretizou. Não posso me queixar dos títulos do Flu que vi até hoje: 4 cariocas, 1 Copa do Brasil e 2 Brasileiros. Mas passar o que passei em 25 de junho de 1995 talvez nunca mais volte a acontecer. Naquele dia eu tive uma aula de futebol, uma aula de como ser torcedor de caráter respeitando o “rival” e, principalmente, uma aula de vida.

Obrigado, vô, onde você estiver.

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